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15 Tópicos sobre o conflito no Leste Europeu

Prof. Dr. Vitelio Brustolin

1. O plano de guerra e a estratégia são adaptados ao longo dos conflitos, de acordo com a resposta do oponente. Questões táticas e logísticas influenciam na estratégia, afinal, só é possível fazer algum avanço se houver forças táticas abastecidas e linhas logísticas abertas. Os russos destruíram a defesa naval ucraniana no primeiro dia de guerra. A força aérea foi bastante neutralizada, configurando superioridade aérea – quase supremacia. Para a Ucrânia, a guerra passou a ser majoritariamente terrestre. Os russos atacaram os sistemas de comando e controle ucranianos. A Ucrânia ficou quase totalmente cega e surda. Os ucranianos reestabeleceram a linha de comando de forma flutuante usando estações voláteis e VPNs próprias para comunicação em tempo de guerra e, claramente, conseguem algumas informações com a Otan e os EUA. Os russos também destruíram ou se apoderaram da infraestrutura básica: aeroportos, usinas de geração de energia, principais estradas que ligam o sul ao norte e o leste a oeste.

2. Os russos certamente trabalharam com cenários e os simularam. Esta é uma guerra clássica de resistência. Era esperada uma resistência menor. No segundo para terceiro dia de guerra já havia tropas e blindados a 30 km de Kiev. Teria sido melhor para a Rússia se Kiev tivesse caído e o Zelensky tivesse fugido. Isso não aconteceu, devido à limitação do uso da artilharia russa e da estratégia de defesa dos ucranianos, que se defendem em abrigos subterrâneos, fazem emboscadas e contra-ofensivas pontuais no entorno de algumas cidades. Os números que temos até o momento são de que, no primeiro mês, a Rússia teve 1,5 mil saídas de aeronaves e lançou em torno de mil mísseis e bombas. Em termos de comparação, no primeiro dia da Guerra do Iraque, em 2003, foram realizadas mais saídas de aeronaves e lançados mais mísseis e bombas do que no primeiro mês de guerra na Ucrânia. Os russos estão atingindo mais alvos civis neste momento, sobretudo porque estão usando mais artilharia, que é menos precisa do que mísseis.

3. Por que os russos limitaram o uso de mísseis, bombardeios e artilharia? Algumas razões principais: primeiro, precisam reservar arsenal para uma guerra clássica com a Otan, que é sempre possível. A escalada para uma guerra atômica não interessa a ninguém, devido à Destruição Mútua Assegurada, logo, a guerra convencional precisa ser sustentável para a Rússia, e gastar muitos mísseis na Ucrânia não é uma boa ideia. É melhor usar artilharia, que é mais barata e tem maior disponibilidade. Segundo, a Rússia teria condições de bombardear e destruir completamente a Ucrânia, mas se fizesse isso, mataria milhões de civis e, com isso, correria o risco de arrastar o mundo para uma escalada da guerra. Em cidades costeiras que resistem, como Mariupol, além da artilharia, a Rússia ainda usa a sua Marinha de Guerra. O estrago é grande: cerca de 80% dos prédios da cidade foram destruídos. Enquanto isso, o centro de Kiev sofreu danos relativamente bem menores. Corpos de civis com indícios de execução em áreas ocupadas pelos russos são um erro grave e isso pode gerar uma comoção internacional com efeito de escalada militar.

4. A estratégia de fechar as linhas logísticas entre Ucrânia e Polônia faria sentido em uma guerra longa. Primeiro fecham-se as linhas de suprimentos terrestres e navais, bem como, o espaço aéreo. Depois disso, espera-se. Os russos têm a superioridade aérea e estão perto do próximo nível: de supremacia aérea, mas a entrega de mais sistemas S-300 pode abalar isso. Não faria sentido fazer o grande “C” (manobra de envolvimento convergente) que a Rússia fez no território ucraniano, se a estratégia fosse de ocupação. Também não faria sentido enviar poucos soldados. Segundo todas as simulações e projeções matemáticas em Estudos Estratégicos, seriam necessários 4 vezes mais do que a Rússia enviou para ocupar a Ucrânia. Após algumas semanas de guerra, Putin confirmou que a estratégia não é de ocupação. Ainda há um “C” no território ucraniano, mas ele se dissipa rumo a leste. Contextualização: ao anexar a Crimeia, os russos fizeram várias operações terrestres (exercícios militares) mais ao norte, na fronteira russa com o leste europeu. Dividir as forças ucranianas em 3 frentes de batalha, enquanto o foco sempre foi o leste, seria uma estratégia? Seria, mas também seria custosa, em termos materiais e de vidas de soldados russos. Havia cerca de 60 mil soldados ucranianos perto de Donbas no dia 24 de fevereiro. Essas tropas foram deslocadas para defender Kiev. Dito isso, é possível que a guerra tenha começado ilimitada e se tornou limitada? Sim, é possível, mas as demandas russas são de guerra ilimitada. Se os russos vão focar apenas no leste da Ucrânia, será difícil demandar mudanças na Constituição vetando o ingresso na União Europeia, por exemplo.

5. O objetivo político inicial desta guerra para Putin foi a soberania da Ucrânia. Putin ambicionou ter um governo obediente, como o da Chechênia ou o de Belarus. O ingresso na Otan já estava engavetado desde a invasão da Geórgia, em 2008. Isso fica claro no artigo de Putin, publicado no site do Kremlin, em julho de 2021. Ele não considera que a Ucrânia seja um país. Além disso, Putin também quer expandir o poder geopolítico da Rússia. Em 2006 ele afirmou que o colapso da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século XX. Em termos geopolíticos, a Rússia, depois do colapso da URSS, deu prioridade política máxima o “exterior próximo”, ou seja, as antigas repúblicas soviéticas, hoje independentes, localizadas no seu entorno, na Europa, no Cáucaso e na Ásia Central. Tais regiões são consideradas por Moscou como sua área de influência exclusiva.

6. Se esta campanha fosse apenas em relação ao leste, então o custo político e estratégico dela teria sido desproporcional, porque, na prática, a região de Donbas já estava travando uma guerra civil na Ucrânia e teria sido menos custoso para a Rússia alegar a autodeterminação dos povos e ter apoiado essa região política e diplomaticamente. Em outras palavras: a Rússia mudou a estratégia. Isso acontece, conforme mencionado anteriormente, de acordo com a resposta do oponente, as possibilidades táticas, a realidade logística, etc. A questão é: o leste da Ucrânia já era separatista. Se o foco fosse só esse (ou seja, o objetivo político de uma guerra limitada, como foi a da Crimeia) então Putin não deveria ter ido à guerra. Teria sido melhor apoiar Donbas política e diplomaticamente, alegando, no Direito Internacional, a autodeterminação dos povos.

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7. Ou seja: a Rússia paga caro demais por algo que, ou já tinha, ou iria obter com o passar do tempo. Há perdas econômicas e políticas que não compensam que essa continuação da política se dê por meio da guerra. Tampouco a questão da Otan é central, pois o convite está engavetado desde a guerra da Geórgia, em 2008. Além disso, com a anexação da Crimeia, em 2014, e a guerra civil no leste ucraniano, esse convite se tornou impossível, pois a Otan não pode aceitar países em conflito. A questão da “retirada do convite da Otan” é um pretexto para a guerra. Ela foi reafirmada por Putin, e Zelensky insistiu cada vez mais nela ao ver tropas russas fazendo “exercícios militares” na fronteira. No entanto, a invasão começou em 24 de fevereiro e um dia depois, em 25 de fevereiro, Zelensky disse que o ingresso na Otan não aconteceria. A resposta russa, por meio do chanceler Sergey Lavrov foi de descrédito e a guerra continuou. O ingresso da Ucrânia na Otan seria impraticável pelas regras dessa Organização e, não obstante, qualquer país-membro poderia vetá-lo. Até o início desta ofensiva russa, muitos o fariam de bom grado, apenas para evitar crises de abastecimento de petróleo e gás. Um exemplo disso é a Hungria, que neste momento sequer aceita que equipamentos para a Ucrânia passem pelo seu território. Logo, precisamos saber se a mudança de estratégia e o foco em Donbas é apenas temporário, ou se será o objetivo político alegado por Putin. Caso seja o objetivo político da guerra, será difícil de ser defendido. A Rússia já apoiava uma guerra civil naquela região da Ucrânia. Teria sido melhor usar uma estratégia indireta. No processo de “focar no leste da Ucrânia”, a Rússia destruiu a Ucrânia e a própria economia russa, que enfrenta a pior crise desde a dissolução da União Soviética, em 1991.

8. Os negociadores ucranianos apresentaram um novo sistema de garantias de segurança para a Ucrânia: os países do Conselho de Segurança da ONU, assim como a Alemanha, Canadá, Polônia, Israel e Turquia devem se tornar garantidores. Ou seja, a Ucrânia não ingressa na Otan, mas fica sob um tratado de defesa que envolve alguns membros da Otan e a própria Rússia. Além disso, a Ucrânia pediu 15 anos para discutir com a população a questão da Crimeia e das regiões separatistas Donbas. A proposta é fazer um referendo após a retirada da Lei Marcial, atualmente em vigor. Ao mesmo tempo, a Ucrânia não poderá ter armas da Otan em seu território. Isso poderia ser considerado uma vitória para Putin, se não fossem algumas ironias, citadas a seguir:

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9. Ironia da história 1: conforme mencionado anteriormente, o ingresso da Ucrânia na Otan estava engavetado desde a guerra da Geórgia, em 2008. Após 2014, esse ingresso se tornou inviável pelas regras da própria Otan, já que a Ucrânia se tornou território de conflito com a anexação da Crimeia e a guerra civil no leste. Ironia da história 2: a Ucrânia prometeu neutralidade quando obteve a independência em 1991, mas mudou de rumo após a anexação da península da Crimeia pela Rússia, em 2014. O Parlamento ucraniano aprovou por larga maioria uma alteração na Constituição e tornou a adesão à União Europeia e à Otan objetivos nacionais. Ironia da história 3: se o Memorando de Budapeste tivesse sido cumprido, a Ucrânia não precisaria pedir mais garantias. O memorando é um acordo político assinado em Budapeste, em 5 de dezembro de 1994, por três potências nucleares: a Rússia, os Estados Unidos e o Reino Unido. China e França mais tarde também aderiram; ou seja, todos os 5 membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, que estão previstos como garantidores deste acordo que a Ucrânia quer fazer agora. O memorando inclui garantias de segurança contra ameaças ou uso da força contra a integridade territorial ou a independência política da Ucrânia, assim como as da Bielorrússia e do Cazaquistão. Como resultado, a Ucrânia cedeu o terceiro maior arsenal de armas nucleares do mundo entre 1994 e 1996.

10. Os russos chegaram perto de atingir o ponto culminante do ataque nesta campanha, na região norte, por problemas logísticos, limitação de alvos de artilharia e envio de tropas insuficientes até o presente momento. Os russos perceberam o gargalo logístico e estão reforçando as tropas e procurando resolver os entraves (que são estruturais) da sua cadeia logística. A mudança de estratégia com foco para o leste faz parte dos ajustes. A Ucrânia está próxima de atingir o ponto culminante da defesa no leste, se não partir para a contra-ofensiva na região. A questão é: a Ucrânia não tem força e nem condições logísticas para deixar a espera e a posição de outros pontos do país e partir para a contra-ofensiva no leste. Para um contra-ataque vigoroso, seriam necessários armamentos mais ofensivos, como artilharia, aviões e tanques. A Otan reluta em entregar esses armamentos. Dentro de poucos dias terá início a “rasputitsa” um fenômeno sazonal que transforma a terra firme em um lamaçal. Será um verdadeiro atoleiro de veículos militares e a Rússia pode acabar deixando ainda mais equipamentos para trás, como vem fazendo.

11. Já faz alguns dias que a Rússia está recrutando e Putin convocou 134.500 reservistas. Provavelmente serão usados no leste e no sul – sobretudo em Kherson e Odessa. Cerca de 90% dos países que não têm acesso ao mar são pobres. Se a Ucrânia continuar sendo privada do acesso aos mares Negro e de Azov ao final da campanha, essa pode ser uma carta relevante para a Rússia na mesa de negociação. Com o apoio de sua Marinha e Força Aérea (alguns aeroportos, como o de Kherson, foram preservados para serem usados logisticamente) a Rússia está muito mais próxima de atingir esse objetivo do que estaria se tivesse continuado os esforços para tomar a capital Kiev.

12. Há inovações militares que já existem há anos e que implicam na revisão de doutrinas táticas. Armas anti-tanque de terceira geração, tal qual o Javelin, por exemplo, tornam necessário que em um raio de 3 km dos blindados seja feita uma varredura com drones e infantaria. Isso é extremamente difícil, pois o Javelin pode ser operado por equipes pequenas, que usam táticas furtivas de “atirar, correr e sumir”. Não há tanques (nem mesmo os mais modernos) que resistam a essas armas. No limite, é preciso investigar por que os russos vêm adotando algumas táticas questionáveis, conforme revelam as imagens de colunas de blindados em estradas, por exemplo. Ao mesmo tempo, mísseis hipersônicos, tal qual o Kinzhal, põem em xeque os caríssimos porta-aviões e quase todas as táticas e estratégias de sua utilização. Mísseis como o Kinzhal poderiam destruir todos os 11 porta-aviões dos Estados Unidos e não haveria defesa antimíssil capaz de evitar isso.

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13. O que impede um cessar-fogo (ou, indo um passo além, um armistício) do ponto de vista da Rússia: ainda não há conquistas suficientes para que sejam atendidas as demandas russas. Kiev está de pé, a Ucrânia não se submete às exigências e o Zelensky diz que precisa convocar um referendo. As sanções econômicas aplicadas à Rússia não irão cair se a guerra acabar, pois ninguém falou isso. Como seria possível chegar à paz nesse caso? Tomar Kiev e derrubar o Zelensky seria um caminho mais rápido para conseguir que as demandas sejam atendidas do que esperar por um referendo, no entanto, a estratégia foi redirecionada para as regiões separatistas do leste da Ucrânia.

14. O que impede um cessar-fogo (ou, indo um passo além, um armistício) do ponto de vista da Ucrânia: o Zelensky não tem poder para atender às demandas russas. O que a Rússia exige é tão caro à Ucrânia que seria necessário mudar a Constituição. O país resiste, recebe armas da Otan e promove contra-ofensivas pontuais. Tem o potencial de transformar esta guerra em uma situação similar à que os EUA enfrentaram no Vietnã. Se o Zelensky decidisse pela rendição, a população iria segui-lo? A Ucrânia (e não apenas o presidente) aceitaria as demandas russas? O movimento nacionalista e patriota da Ucrânia foi muito inflamado pelo que os russos fizeram em 2014, com a anexação da Crimeia. Há ultranacionalistas no governo que poderiam até eliminar o Zelensky e culpar os russos para evitar uma rendição. Há um movimento muito forte, especialmente nas forças armadas da Ucrânia, de resistir à invasão russa.

15. A versão da Otan é de que a Rússia é a agressora e precisa ser punida, pois rasgou a Carta da ONU, os tratados internacionais que assinou e dá as costas ao sistema internacional pós-Segunda Guerra. As sanções são o mínimo que poderia ser feito, já que o máximo seriam atos de força e o início da 3ª guerra mundial. Fica mal não ajudar a Ucrânia perante o público interno dos países membros da Otan, mas também há o risco de que Putin continue expandindo, como Hitler fez após ocupar Rhineland, em 1936. No entanto, há quase um consenso entre os pesquisadores da área de que poderia haver uma participação maior da Otan e do restante do Ocidente nas negociações de paz, dizendo quais sanções poderiam ser derrubadas caso a Rússia reduza as demandas e se chegue a um acordo, afinal, a Ucrânia já aceitou da neutralidade. O primeiro-ministro britânico afirmou que as sanções irão continuar, qualquer que seja a posição da Rússia. Como isso pode estimular um cessar-fogo? A Otan está lutando uma guerra por procuração, usando a Ucrânia como proxy? Sim, está. Os ucranianos sabem disso – e os russos também. Isso, aliás, aconteceu durante toda a Guerra Fria, por ambos os lados, e não está sendo diferente agora. Os xingamentos do Biden contra Putin não ajudam em nada e só pioram a situação. A ONU e as demais organizações internacionais poderiam fazer muito mais. Cadê os delegados de 44 países que iriam averiguar se crimes de guerra estão sendo cometidos? Por fim, quem irá reconstruir a Ucrânia? A princípio, é para fins de indenizações futuras que as propriedades e recursos da Rússia no exterior foram expropriados. Isso precisa ser discutido, conforme os pontos centrais das negociações cheguem a um necessário ponto de equilíbrio.

Autor: Vitelio Brustolin, professor do Instituto de Estudos Estratégicos e Relações Internacionais da UFF e pesquisador de Harvard. Websites: https://scholar.harvard.edu/brustolin | www.professores.uff.br/brustolin.

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