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O Conflito atual no Leste Europeu

Prof. Dr. Vitelio Brustolin

É notório que o exército russo está avançando sobre a Ucrânia. O avanço ocorre pelo Norte, Leste e, sobretudo, pelo Sul, onde há apoio naval. Os números são imprecisos e compartilha-se muita desinformação. Se assumirmos que há 150 mil soldados russos e contrastarmos esse número com a população de 44 milhões, temos uma proporção de força de 3,4 soldados por mil pessoas. Há quem diga que seriam 200 mil soldados russos, o que pouco alteraria o cálculo. Assim como eu, outros analistas, tal qual o Seth Jones, concordam que é possível avançar, mas não manter o território conquistado, a médio e longo prazos, com essa proporção.

Vamos fazer algumas comparações. As forças Aliadas que ocuparam a Alemanha em 1945 tinham 89,3 soldados para mil habitantes; as forças da OTAN na Bósnia em 1995, 17,5 soldados para mil habitantes; as forças da OTAN em Kosovo em 2000, 19,3 para mil, e as forças internacionais em Timor Leste em 2000, 9,8 para mil.

O analista e matemático James Quinlivan avaliou quais números possibilitariam uma ocupação bem sucedida a médio e longo prazos. Chegou à seguinte proporção: cerca de 20 soldados para mil habitantes. Aqui cabe enfatizar que os índices de força dos EUA e da coalizão no Afeganistão em 2002 e no Iraque em 2003 foram de apenas 0,5 para mil e 6,1 para mil respectivamente.

Uma proporção de 20 para mil, na Ucrânia, demandaria um efetivo russo de mais de 800 mil soldados. É altamente improvável que os números cheguem a tanto em algum momento, inclusive porque a estratégia russa não deva ser a de ocupação total, mas sim a tomada de centros de gravidade.

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O defensor, Ucrânia, tem alguma chance em termos militares? Apenas se for possível partir para a contra-ofensiva. O planejamento de campanhas sempre leva em consideração que a força do atacante declina na comparação com a do defensor ao longo da guerra. Quanto mais ele avança, mais estende as suas linhas de comunicação e mais território precisa defender, pois pode acabar perdendo áreas conquistadas, vide Clausewitz. Essa defesa demanda tropas. Por isso é necessária a chegada de reforços para o atacante. É improvável que a Rússia ultrapasse o ponto culminante do ataque e o ponto culminante da vitória nesta guerra. Se isso acontecesse, abriria a possibilidade de uma contra-ofensiva ucraniana, mas isso é improvável por uma razão: os russos já devem ter mais soldados agora em campo de batalha do que sabemos. Tropas notoriamente chegaram pelo Sul, através da Marinha Russa no Mar de Azov e no Mar Negro. Essas tropas obviamente não estavam participando dos exercícios em terra a partir de março de 2021.

A Rússia avança, mas será custoso defender o terreno a médio e longo prazos, quando reverter à defensiva. Há cerca de 15 milhões de homens ucranianos com idade entre 18 a 60 anos que foram proibidos de deixar o país, pois são necessários para defendê-lo. Eles formam milícias, que apoiam os 200 mil soldados do exército ucraniano. Quanto mais armados estiverem, mais complicado será para os russos manterem o que conquistarem. Os estrategistas russos sabem disso e têm pressa.

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