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A participação do Serviço Secreto Brasileiro na Segunda Guerra Mundial

Prof. Dr. Tiago da Silva Pacheco

A Segunda Guerra Mundial, maior conflito da história, afetou diretamente ao Brasil. É conhecido, embora pouco reconhecido, o empenho da Força Expedicionária Brasileira em sua campanha no norte da Itália.

Menos conhecidas, as missões da Marinha incluíam a proteção de comboios de navios mercantes, enquanto a recém nascida Força Aérea Brasileira empreendeu missões de patrulha no litoral brasileiro e de ataque e esclarecimento na Itália.

Mas a guerra não envolve somente o empreendimento bélico direto. Suas consequências políticas, econômicas e ambientais são, quase sempre, inevitáveis. Na historiografia, tais consequências também foram exploradas, em especial, a queda do Estado Novo, posto que Vargas, um ditador, enviava tropas, aviões e navios justamente para lutar contra ditaduras (GOMES, 2007, ARGUELLES, 2010, MARTINS FILHO, 2003).

Entre este manancial de perspectivas acerca da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial e das consequências do conflito para o país, a guerra secreta empreendida pelos órgãos de espionagem é sem dúvidas o menos conhecido e abordado. Seja pelo senso comum, seja pela própria historiografia.

Mas o fato é que, antes e durante o conflito houve atuação direta, em território brasileiro, dos Serviços Secretos das potências envolvidas. E o próprio Serviço Secreto Brasileiro envolveu-se ativamente nesta quarta frente de guerra, para além das tropas em terra, dos caças no ar e das fragatas no mar.

A Segunda Guerra e as demandas de Espionagem em relação ao Brasil.

O jogo da espionagem, no sentido de disputa pelo segredo (SHULKY, 1995) já havia sido ensaiado na Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Nos diz Navarro (NAVARRO, 2009), o confronto foi um grande laboratório para a espionagem e atividades secretas, com agentes da Abwer (Alemanha), OVRA (Itália) GRU e NKVD (URSS) e MI-6 (Inglaterra) ensaiando, na Espanha, os métodos de espionagem, sabotagem, assassinatos e guerrilha postos em prática na II Guerra Mundial.

Aquele parece ter sido um ensaio do confronto secreto. Além dos avanços tecnológicos na transmissão de mensagens eletrônicas (como o conhecido caso da máquina alemã Enigma, decodificada por matemáticos ingleses), em cada canto do mundo a infiltração, recrutamento e suborno de informantes foi se aguçando conforme a situação na Europa se recrudescia.

Na América do Sul, havia um fluxo de matérias primas comercializadas pelo mar, e essenciais para a guerra. Não apenas este fluxo, mas o próprio posicionamento dos países sul-americanos, fornecedores de matéria prima. Para os norte-americanos era necessário entender o posicionamento brasileiro, maior potência local, no conflito – principalmente a partir dos interesses estadunidenses em implantar uma Base Aérea no nordeste do Brasil. Ademais, o país nutria enormes colônias de alemães, italianos e japoneses, coincidentemente, das potências que compunham o Eixo. Esta característica, bem como aparente e deliberada ambiguidade de Vargas (hora apoiando os Aliados, hora tecendo elogios aos alemães) atraia a atenção dos ingleses e, obviamente, de alemães, italianos e japoneses.

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Assim, mesmo sendo um país periférico e de pouca relevância direta para o confronto na Europa (menos ainda para o Pacifico), o posicionamento do Brasil, enquanto potência local, produtor de matéria-prima e dotado de extenso litoral pelo qual transitava importantes rotas comerciais, fez parte das demandas por informações e mesmo operações sigilosas da parte do FBI (EUA), MI-6 (Inglaterra), Abwer e Gestapo (Alemanha).

O FBI atuava secretamente junto a políticos e embaixadores simpáticos aos EUA – em especial, Osvaldo Aranha. Seu objetivo era mapear e fomentar as figuras influentes do país em favor dos interesses americanos, além de controlar a polícia local por meio de ajuda técnica e de consultoria (HUGGINS, 1998).

O MI-6 operava a partir da embaixada e monitorava a propaganda pró e contra os Aliados. Ademais, se esforçava em atividades diretas de eliminação de agentes do Eixo e mesmo operações de sabotagem, como a explosão de um hangar em recife, que abrigava aviões comerciais de agentes italianos (BRYCE, 1994).

No sentido inverso, tanto a Abwer quanto a Gestapo incitavam as figuras brasileiras pro-nazistas, em favor de seus interesses, e testavam as lealdades germânicas no Brasil quanto a predisposições para sabotagem¹. Note-se que a Gestapo já atuava no Brasil a pedido do próprio Vargas, auxiliando a polícia local na caça aos comunistas (CANCELLI, 1994).

Quanto a italianos e japoneses, não fica claro nas fontes² a filiação institucional de seus agentes, mas as mesmas fontes deixam claro que estavam atuando no Brasil. Os estavam entre as tripulações de aviões de empresas italianas em viagem ao Brasil. Os segundos vinham disfarçados de homens de negócios, procurando fomentar as colônias nipônicas no país.

A Quarta Frente: o Brasil e seu Serviço Secreto

Por seu turno, o Brasil não dispunha nem da experiência pregressa no jogo da espionagem, nem de um Serviço Secreto estruturado para lidar com a disputa global pelo segredo, ainda mais num cenário de conflito mundial.

O Serviço Secreto brasileiro era empreendido pela famigerada Polícia Política. Ela não se chamava DOPS e, ao contrário do que se pensa, não foi criada durante o regime Militar: corpos de investigadores que atuavam no Serviço Reservado e eram órgãos da Polícia Civil do Distrito Federal. Existiam, portanto, desde a Primeira República, sendo centralizados e sofisticados no decorrer da década de 1930, na estrutura da Delegacia Especial de segurança Política e Social – DESPS.

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Como se nota, o Brasil estava preparado para lidar com anarquistas, comunistas e sindicalistas, infiltrando ou recrutando em fábricas, escolas e grupos políticos nacionais. Era um Serviço Secreto voltado para Segurança Interna, que só concebia o estrangeiro enquanto ameaça quando se tratava de um imigrante com antecedentes de agitação política.

Ainda assim, a estrutura construída entre 1935-1939 deu conta da demanda. Além da capacidade de grampear telefones e rastrear rádios ilegais (usadas principalmente por espiões nazistas em território nacional) a DESPS mantinha os espiões “D” – recrutados pelo próprio delegado – os agentes do Serviço Secreto de Informações – investigadores a paisana, que mantinham seus próprios informantes e dispunham de fardas das Forças Armadas para se disfarçar como militares – e os homens do Serviço Reservado – investigadores de polícia.

Todo este aparato foi direcionando contra as potências estrangeiras desde 1938. Estes agentes estavam infiltrados nos quartéis, nas embaixadas, nos cassinos e nas grandes empresas estrangeiras. Também observavam secretamente, seguiam suspeitos e grampeavam telefones de alvos de espionagem. A embaixada americana, inglesa e francesa era vigiada e lá estavam informantes valiosos dos agentes D e do SR. O SSI monitorava os clubes e organizações alemães, além da embaixada germânica.  O Serviço Reservado cuidava de italianos e japoneses.

O modelo permaneceu até 1943, quando todos os espiões brasileiros foram concentrados no chamado Serviço de Investigações (S.I.). Mas as infiltrações permaneciam, ainda que as prisões tenham se restringindo aos agentes do Eixo, e somente a partir de 1942, quando finalmente o Brasil entrara oficialmente num conflito no qual, pelo menos quatro anos antes, já estava – ao menos no campo da espionagem. As prisões se deram por espionagem e sabotagem³, e incluíam brasileiros simpáticos ao nazismo, como o caso de Túlio Régis do Nascimento4

Consequências

Se considerarmos que o trabalho de espionagem e contra-espionagem se destina a obter informações relevantes para os objetivos governamentais e protegê-las dos demais concorrentes,  a guerra secreta empreendida pelo Brasil foi indubitavelmente bem sucedida.

  • Até 1942 o Brasil pôde monitorar com eficácia e estar a par da atuação tanto de Aliados quanto do Eixo em território nacional, sem gerar questões diplomáticas graves, por meio da Polícia secreta, contra ou a favor de qualquer um dos lados. Isso se coadunava com a tentativa de neutralidade buscada por Vargas.
  • As decisões da parte de Vargas foram tomadas com consciência da presença e influência estrangeira entre figuras importantes do Brasil. Observe-se que a função precípua da Inteligência é a produção de conhecimento que capacite a tomada de decisões (SIMS, 1995).
  • O Serviço Secreto brasileiro dificultou a transmissão de dados importantes sobre embarcações de guerra, aviões de patrulha e navios mercantes, dificultando a atuação dos navios alemães.
  • A prisão de sabotadores em território nacional foi fundamental para a proteção de brasileiros e estrangeiros, incluindo civis inocentes.
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Assim, em pleno território nacional, homens e mulheres deram sua cota na participação do Brasil no maior confronto mundial. Em meio as sombras e ao segredo, nunca forma conhecidos, nem descobertos. Mas cabe ao historiador lançar luz sobre estas figuras, mesmo que elas tenham atuado sob o signo do sigilo.

Notas

[1] Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Fundo Polícias Políticas. Setor Alemão.

[2] Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Fundo Polícias Políticas. Setor Italiano, pasta 1; Setor Japonês, pasta 1.

[3] Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Fundo Polícias Políticas. Setor Espionagem.

[4] https://jornalismodeguerra.com/2018/02/16/brasil-teve-capitao-filho-de-coronel-condenado-por-espionagem-a-servico-dos-nazistas/   

Bibliografia

ARGUELHES, Delmo de Oliveira. A Conferência de Chanceleres Americanos de 1942 e o envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial. In: DA SILVA, Francisco Carlos Teixeira da; Karl Schurster; Igor Lapsky; Ricardo Cabral & Jorge Ferre. (Org.).  O Brasil e a Segunda Guerra Mundial.Rio de Janeiro: Multifoco/TEMPO, 2010

Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Fundo Polícias Políticas. Setor Alemão.

______ Setor Italiano.

______ Setor Japonês.

BRYCE, Ivar. You only live once: memories of Ian Fleming. University Publications of America, 1984

CANCELLI, Elizabeth . O mundo da violência: a polícia na Era Vargas. 02. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1994.

GOMES, Ângela de Castro, et tal. História Geral da Civilização Brasileira (Tomo III O Brasil Republicano): Sociedade e Política (1930-1964). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.

HILTON, Stanley. A Guerra Secreta de Hitler no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. HUGGINS, Martha K. Polícia e Política: relações Estados Unidos/América Latina. São Paulo: Cortez, 1998.

MARTINS FILHO, João Roberto. Forças Armadas e política, 1945-1964: a ante sala do golpe. In: FERREIRA, Jorge e DELGADO, Lucila de Almeida Neves. O Brasil Republicano: o tempo da experiência democrática, da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2003.

SHULSKY, Abram. What is Intelligence? Secrets and competition among states. In: GODSON, Roy; SCHMITT, G.; MAY, E. US Intelligence at the crossroads: agendas for reform. New York: Brassey’s, 1995.

SIMS, Jennifer. What is Intelligence? Information for decision makers. In: GODSON, Roy; SCHMITT, G.; MAY, E. US Intelligence at the crossroads: agendas for reform. New York: Brassey’s, 1995.

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