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Nova análise sobre o conflito no leste europeu

Prof. Dr. Vitelio Brustolin

Vamos ser claros. A Rússia poderia destruir a Ucrânia se quisesse? Sim. Não seria necessário nem usar as armas nucleares. A Rússia fará isso? Não, porque isso seria o início da Terceira Guerra Mundial. Qual é o maior inimigo do Putin? O próprio Putin. Qual é o maior inimigo do Zelensky? Também o Putin. Há, contudo, uma análise política a ser feita aqui: se o Zelensky cair ou fugir, as chances de a guerra acabar são substanciais. A Otan também está vendo isso: notem que os EUA ofereceram transporte para o Zelensky sair da Ucrânia. Logo, quando Putin põe as suas forças nucleares em alerta máximo, ele está enviando a seguinte mensagem à Otan: parem de ajudar o Zelensky. Ao invés disso, me ajudem a derrubar o Zelensky; ou vocês querem a Terceira Guerra Mundial?

O Zelensky também sabe disso. Ele sabe que é o elo mais fraco desta corrente. A negociação do cessar fogo interessa à Rússia, desde de que a maioria dos objetivos políticos sejam concretizados. Que objetivos são esses? Putin foi alterando-os com o passar do tempo. Primeiro não queria que a Ucrânia ingressasse na Otan. Enviou as tropas russas para fazer exercícios na fronteira por conta disso. A Ucrânia prosseguiu fazendo declarações sobre a necessidade de ingressar na Otan (os exercícios na fronteira tiveram o efeito oposto, portanto). Putin começou a fazer queixas e ameaças, seguidas de demandas. Não adiantou. Invadiu o território ucraniano (iniciando esta fase da guerra) sob o pretexto de defender os russos residentes em províncias separatistas. Zelensky não recuou. A escalada prosseguiu e a Rússia promove uma incursão à capital Kiev, que junto com Zelensky, é um dos dois principais centros de gravidade do conflito.

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Por que é interessante que a segunda rodada de negociações avance? Porque se ela for bem sucedida, os dois lados sairiam de pé, cada qual com a sua versão. Putin diria que ganhou a guerra, por ter conquistado os seus objetivos políticos. Zelensky diria que ganhou a guerra, pois uniu a população do seu país contra os russos (triplicando a própria aprovação e ganhando respeito internacional que nunca tivera) e que ainda assim continua se aproximando da União Europeia, com a qual a Ucrânia já tem acordo comercial e para a qual o Zelensky pediu ingresso imediato ontem, após a primeira rodada de negociações. A Ucrânia não precisa ingressar na Otan. Ser membro da União Europeia (caso Putin não se oponha e aqui há uma discussão sensível de soberania) já ajudaria o país a ficar mais seguro. Ao mesmo tempo, Putin, irá alegar para o seu público interno, que impediu o avanço da Otan sobre a Ucrânia.

Por que Putin intensificou os ataques após a primeira rodada de negociações? Porque se ele tomar Kiev, poderá conseguir que mais demandas suas sejam aceitas. Ao mesmo tempo, com a intensificação dos ataques, Putin continua ameaçando Zelensky, não dando tempo para muita deliberação. No futuro, Putin tentará impor um governante pró-russia e tomar a capital é uma demonstração de força para a população ucraniana. Já faz alguns dias (desde sábado) que se intensifica o desdobramento de forças terrestres a 30 km de Kiev. Colunas de blindados demonstram que há domínio aéreo por parte da Rússia. O ataque padrão é começar com a artilharia e armas combinadas (bombardeio estratégico). Em seguida, infantaria e cavalaria (blindados) ingressam juntos. Se houver resistência, é feito um recuo e novo bombardeio (vide, com variações, o que se foi feito em Dnipro, Ivano-Frankivsk, Kharkiv, Kherson, Kramatorsk, Lutsk, Mariupol e Odessa).

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Essa é uma breve análise de conjuntura. Há muitos outros fatores a serem considerados (a situação das províncias separatistas de Donetsk e Lugansk, por exemplo, além das cidades ocupadas pelos russos). Contudo, é preciso acabar com a ilusão de que os agentes do conflito são irracionais. Todos os lados (e sim, são mais de dois) estão fazendo as contas de perdas e ganhos neste momento. A escalada do conflito será pior para todos eles, e também para o restante do mundo.

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