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Os próximos movimentos do conflito na Ucrânia

Prof. Dr. Vitelio Brustolin

Desde os primeiros movimentos das tropas russas, em 24 de fevereiro, está claro que anexar o litoral da Ucrânia e negar o acesso desta ao mar faz parte da estratégia russa. A recente confirmação desse fato pelo general Rustam Minnekayev, comandante interino do Distrito Militar Central da Rússia, ratifica as nossas análises.

Se conseguir tomar da Ucrânia todo o acesso ao mar, a Rússia poderá manter as suas demandas em níveis elevados. Cerca de 90% dos países que não têm acesso ao mar são pobres. Além disso, as províncias que a Rússia assumidamente pretende ocupar correspondem a 23% do território da Ucrânia. É muita coisa. Não obstante, parte desse território destaca-se entre os mais ricos e produtivos do país, tanto em termos agrícolas, quanto em minerais.

É claro que a defesa ucraniana continuará lutando de forma persistente, afinal, neste momento o país está sem acesso ao Mar de Azov e uma eventual perda do acesso soberano também ao Mar Negro geraria sufocamento geopolítico e econômico.

Se os russos conseguirem tomar Mykolaiv e adjacências – estendendo a ocupação de Kherson a Odessa – conectarão a Transnístria. Segundo o general Minnekayev, essa é exatamente a intenção. E aqui está um dado pouco abordado até o momento: se isso acontecer, mais um país será envolvido diretamente nesta guerra, a Moldávia. Isso porque a Transnístria está situada dentro das fronteiras internacionalmente reconhecidas como pertences à Moldávia, embora aquela tenha unilateralmente declarado independência em 1990 com a ajuda de tropas russas e cossacas. Cabe ressaltar que quase ninguém reconhece a independência da Transnístria (nem mesmo a Rússia). Em 1992 a Moldávia tentou retomar o controle sobre a região. O Exército de Guardas da 14ª da ex-União Soviética entrou no conflito, culminando na morte de cerca de 700 pessoas. Um cessar-fogo foi assinado na sequência. Há anos o Conselho da Europa considera esse um conflito congelado.

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Em 2003 a Rússia estabeleceu presença militar na Transnístria pelos próximos 20 anos (ou seja, até 2023). Em 2006 foi feito um referendo no local: o resultando foi em prol do afastamento da Moldávia e pela eventual integração à Rússia. Em 2014, após a Rússia anexar a Crimeia, o chefe do parlamento da Transnístria pediu que esta também fosse integrada pela Rússia.

Logo, neste momento não interessa ao Putin nenhuma negociação com a Ucrânia. A Rússia marcha rumo a uma expansão. A não ser que a resistência ucraniana, munida dos novos meios fornecidos pela Otan – que possibilitem, tanto a manutenção da defesa, quanto a operacionalização de contra-ofensivas – seja efetiva, os russos devem marchar pelo litoral até a Transnístria. Dito em uma frase: a guerra na Ucrânia deve se prolongar, tanto no tempo, quanto nos territórios.

Autor: Prof. Dr. Vitelio Brustolin, professor de Direito Internacional, Organizações Internacionais e Estudos Estratégicos do INEST/UFF e pesquisador da Universidade Harvard: https://scholar.harvard.edu/brustolin

1 comentário em “Os próximos movimentos do conflito na Ucrânia”

  1. Tudo que se vê, é venda de armamentos pesados para continuarem uma guerra , matando milhares de pessoas; tanto de um lá do como do outro. Para que? Para roubar o território do perdedor, deixando um rastro de sangue. É uma história triste. De ganhos e perdas. Todos perderam. Mesmo aquele que dominou o outro. E as vidas que se foram, criançascsem pai ou mãe, terras devastadas, fome, miséria. Quem ganhou? Vamos contar os mortos de cada lado? Mundo cruel. Quando irão ver, que é tudo ilusão! Tudo acaba um dia. Mais cedo ou mais tarde. Vamos viver em paz. Vamos ser irmãos. Vamos andar de mão dadas. Sorrindo ao ver o nascer e o entardecer. Mundo cruel. Betinho Meira!

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