Início » Artigos » Canhões » A Batalha de Cartagena das Índias (1741): A maior operação anfíbia da História até o Dia D

A Batalha de Cartagena das Índias (1741): A maior operação anfíbia da História até o Dia D

Prof. Dr. Ricardo Pereira Cabral

Este texto aborda, com mais detalhes, a 3ª expedição britânica contra Cartagena das Índias. Apresenta as forças em luta, as principais manobras, a retirada britânica e suas consequências.

A cidade de Cartagena das índias

Em 1533, Pedro de Heredia fundou a Cartagena das Índias, contava com um bom porto e devido ao seu desenvolvimento foi designada como capital da província de Cartagena. No século XVIII, a cidade contava com importantes fortificações recentemente reformadas, ampliadas e melhoradas com fortes, baterias e obras defensivas periféricas. Seu porto, considerado por alguns observadores, um dos melhores do mundo, servia aos galeões da frota comercial (Galeones a Tierra Firme y Perú) que anualmente se reuniam em Havana para transportar toneladas de ouro e prata de Nova Granada (Panamá, Equador, Colômbia e Venezuela) e o Vice-Reino do Peru (Peru, Bolívia e Chile) para a Espanha.  

A cidade fora atacada em duas ocasiõee: em 1585, por Sir Francis Drake e em 1697, pelo francês Barão de Potiers. Após a cada um desses assaltos as defesas da cidade foram reformadas, aperfeiçoadas e ampliadas.

A cidade fica de frente para o Caribe a oeste; ao sul sua baía tem duas entradas: Boca Chica e Boca Grande. Boca Chica era a entrada de águas profundas, porém muito estreita e permitia a passagem de apenas um navio por vez. Esta entrada era defendida de um lado pelo Forte San Luis e do outro lado pela bateria Baradera. Além de Boca Chica, ficava a lagoa do porto externo com um canal de entrada para o porto interno entre duas penínsulas, cada uma defendida por um forte.

Os muros da cidade tinham cerca de 160 canhões, enquanto os subúrbios tinham 140. A cidade e os subúrbios eram cercadas por um fosso e seus portões eram guardados por baluartes. Em uma colina a cerca de quatrocentos metros ao sul da cidade ficava o Forte San Lazaro,era  um quadrado de quinze metros de lado com três semi-bastiões. A posição do forte comandava a própria cidade e a planície ao redor da colina. Outra fortificação, instalada em uma pequena colina próxima defendia o forte. O melhor ponto de desembarque era a praia de Texar de Gracias que contava com uma estrada que se estendia por quase cinco kilômetros até o Forte Lazaro.

A cidade tinha um lado voltado para o oceano, que estava fortificado, além disso a costa e as ondas eram tão violentas que impediam qualquer tentativa de se aproximar dela pelo mar. A única opção que restava era desembarcar as tropas em algum ponto próximo e atacar a cidade por terra.

Um cerco prolongado, estava fora de questão, devido ao ambiente era insalubre e quente favorecia a proliferação de doenças tropicais e ao fato de que não havia nenhuma fonte de água doce disponível fora de Cartagena e dos fortes. Assim, durante a campanha, as forças britânicas iriam sofrer com várias doenças como tifo, escorbuto, disenteria e a febre amarela. Estas enfermidades iram causar inúmeras baixas, obrigando até que tropas de terra fossem empregados para completar as tripulações dos navios. A questão era que se as condições em terra eram insalubres, manter uma grande quantidade de homens embarcados, também não era saudável e não favorecia a higiene.  Temos que ressaltar que as dificuldades logísticas eram persistentes e a escassez de suprimentos era comum.

Pelo exposto, verificamos que tomar a cidade era um desafio e exigiria muitos recursos e determinação.

As Forças

A Força de Invasão Britânica era composta de: 29 navios de linha, 22 fragatas, 71 chalupas de guerra, 2 navios-hospital, além de vários brulotes e navios bombardeiros (cujo armamento principal eram morteiros), 80 transportes de tropas e 50  mercantes para o transporte de suprimentos. Havia pelo menos 27.400 militares, dos quais a força terrestre totalizou 12.000, composto por regimentos de infantaria britânicos, sendo 6.000 fuzileiros navais. Uma força de apoio de 1.000 escravos jamaicanos  e cerca de 3.600 tropas coloniais norte-americanas (da Virgínia). A Força Naval tinha um efetivo de 15.398 marinheiros. O comando das forças navais era do Almirante Vernon, as tropas de terra britânicas eram comandadas inicialmente por Lord Cathcart, depois pelo General Spotswood, com a morte de ambos assumiu o coronel Thomas Wentworth, as tropas coloniais eram lideradas pelo coronel William Gooch.

As forças espanholas eram compostas por cerca de 3.000 soldados dos regimentos de: metropolitanos, um regimento colonial de Cartagena; um número não especificado de marinheiros; 5 companhias de milícia e 600 arqueiros indianos, seis navios da linha e as guarnições das fortificações, perfazendo um total que varia, segundo a fonte, de 4.000 a 6.000 defensores. Sob o comando do governador-geral de Cartagena, Almirante Don Blas de Lezo e do vice-rei de Nova Granada, Sebastián de Esla.

A batalha

O acesso ao porto de Cartagena se dava por dois canais: Boca Grande, mais largo, porém era muito raso para permitir a passagem dos navios de linha e das fragatas; e o Boca Chica, mais estreito, porém tinha um calado grande o suficiente para permitir que os navios de linha acessassem a baía e o porto, entre duas penínsulas estreitas estava o forte de San Luis. Este possuía quatro baluartes com cerca de 49 canhões, 3 morteiros e uma guarnição de 300 soldados. Os espanhóis estabeleceram uma série de posições defensivas da ilha de La Bomba até a península do sul, onde estava o Forte San Jose com 13 canhões e 150 soldados. Caso os atacantes ultrapassassem o canal de entrada, 6 navios de linha espanhóis estavam prontos para dar-lhes combate.

Diante dessa situação tática, os britânicos decidiram bombardear as fortalezas e desembarcar tropas para tomá-los. Vernon atacou e destruiu as fortalezas Chamba, San Felipe e Santiago, posteriormente o forte de Punta Abanicos na Península de Barú. Estas ações levaram uma semana para serem concluídas. Uma divisão da esquadra bombardeou e tomou os fortes São Iago e São Felipe. Após a destruição das defesa espanholas, Vernon desembarcou 300 granadeiros próximo a Boca Chica para preparar a passagem dos navios de guerra.

Em 22 de março, todas as forças terrestres britânicas disponíveis desembarcaram: os dois regimentos regulares, os seis regimentos de fuzileiros navais e 300 tropas colonias (uma parte significativa destas tropas foi utilizada para recompletar as tripulações dos navios). Nos dias seguintes, tão logo a artilharia foi desembarcada e posicionada, começou o bombardeio com os 20 canhões de 24 libras contra o forte São Luís. Em apoio, 5 navios de linha também bombardearam o forte. Após três dias de bombardeio a artilharia em terra abriu um brecha no forte. A esquadra britânica forçou a passagem e tão logo a ultrapassou engajou os navios espanhóis. Lezo reagiu afundando dois navios e incendiando outro, tentando bloquear o canal, manobra parcialmente bem sucedida, pois os ingleses capturaram o navio em chamas e impediram que ele afundasse.

Em 5 de abril, os britânicos atacaram o Forte São Luís por terra e mar. A infantaria penetrou na brecha que fora aberta pela artilharia, mas os espanhóis recuaram para as fortificações no interior do porto e prosseguiram na resistência. Na semana seguinte, a força de desembarque foi reembarcada e entrou no porto. A operação contra Boca Chica custou aos britânicos 120 mortos e feridos, 600 foram hospitalizados com febre amarela, malária e outras doenças que provocaram cerca de 250 mortes, 3 navios foram muito danificados e estavam fora de combate.

Ataque ao Forte São Lázaro

A conquista do Forte São Luís permitiu que a esquadra britânica entrasse na lagoa de Cartagena e apoiasse diretamente as ações em terra. O Conselho de Guerra decidiu cercar a cidade e atacar o Forte São Lázaro (ou São Felipe de Barajas, dependendo da fonte). Escolha controversa, já que as forças de terra não poderiam receber o apoio de fogo naval e o forte teve suas estruturas defensivas reforçada por Blas de Lezo.

Em 16 de abri de 1741, a força de desembarque composta por cerca de 500 granadeiros, 1.000 homens dos 15º, 24º, 34º e 36º Regimento e 500 fuzileiros navais. Defendendo o Forte, Blas de Lazo cerca de 950 soldados e uma reserva de 200 fuzileiros navais e marinheiros.

Tão logo desembarcaram na praia, os britânicos foram recebidos por fogo espanhol, que rapidamente foi neutralizado. Devido as características do terreno e da fortificação, o coronel Wentworth decidiu tomá-lo em um ataque noturno, que permitiria o assalto do lado norte do forte, voltado para Cartagena. A premissa era de que no escuro, os canhões de Cartagena não seriam capazes de dar o apoio de fogo aos defensores. O lado sul tinha as paredes mais baixas e vulneráveis, Wentworth  enviou os granadeiros para atacar rapidamente e penetrar no forte. Mas devido há uma série de contratempos, o ataque começou mais tarde do que o previsto e o avanço inicial sobre o Forte São Lázaro foi feito próximo ao amanhecer, às 4 da manhã de 20 de abril.  Mesmo assim a ordem de operações foi mantida e ataque foi desencadeado como planejado.

O ataque foi um desastre, com os atacantes sofrendo pesadas baixas, que só aumentaram com o nascer do sol e o fogo da artilharia de Cartagena. A resistência espanhola, não se dobrou ao ímpeto dos britânicos. Às 8 h, uma coluna de infantaria espanhola vinda dos portões de Cartagena ameaçou isolar os britânicos de seus navios, sem alternativa, Wentworth teve que ordenar a retirada.

O ataque tinha falhado completamente. As perdas foram de 600 homens de uma força de ataque de aproximadamente 2.000. As doenças e enfermidades aumentaram o número de baixas da expedição. Durante o período de sítio no torno do Forte São Lazaro, as forças terrestres de Wentworth foram reduzidas de 6.500 para 3.200 homens, diminuindo, consideravelmente, as possibilidade de sucesso.

A retirada

A obstinada disposição defensiva de Blas de Lezo deu resultados, pois atrasou os britânicos até a temporada das chuvas, os obrigado a permanecer nos navios, consumindo seus suprimentos e expostos às doenças.

Em 25 de abril, Vernon e o Conselho e Guerra decidiram se retirar para a Jamaica e, em meados de maio, já haviam partido.

A campanha tinha durado 67 dias. As baixas entre as tropas britânicas foram de 18.000 mortos ou incapacitados, principalmente atingidos por doenças tropicais. Cerca de 50 navios britânicos foram perdidos, outros estavam seriamente danificados, incapacitados ou foram abandonados por falta de tripulação, eis os números: 19 navios de linha ficaram danificados, 4 fragatas e 27 transportes perdidos. Com relação aos colonos britânicos das 13 Colônias, dos 3.600 colonos, a maioria morreu de febre amarela, disenteria e fome. Apenas 300 voltaram para casa.

Devido a campanha desastrosa, Vernon e Wentworth, posteriormente, foram substituídos. As operações no Caribe e nas Américas prosseguiram até 1744, com pequenas incursões e ataques limitados, sem grande alteração na situação geral. Em 1742, uma fração da Esquadra de Vernon foi transferida para o Mediterrâneo. Em 1744, grande parte da esquadra e das tropas voltaram à Grã-Bretanha para reforçar as defesas do reino, naquela altura envolvido na Guerra da Sucessão da Áustria.

Por que os britânicos perderam?

O primeiro ponto a ser ressaltado são as táticas defensivas implementadas pelo vice-rei Sebastián de Eslava, o almirante Blas de Lezo e o coronel Carlos Suivillars com base no conhecimento que tinham da topografia e do clima, a liderança de Blas de Lezo, a experiência das tropas espanholas e as melhorias defensivas feitas em Cartagena que ampliaram a vantagem da defesa sobre o ataque, entre outras razões.

Com relação aos britânico chama a atenção a falta de um comando unificado, a rivalidade entre o almirante Vernon e o coronel Wentworth impediram uma maior colaboração da força naval com as forças de terra; o desconhecimento da topografia da região e das instalações defensivas que seriam atacadas, foi um erro monumental; as deficiências logísticas e a falta de uma base de apoio próxima a área de operações com capacidade de reparar navios e de instalações para as tropas em boas condições sanitárias.

Quer saber mais sobre a Idade Moderna, leia o artigo sobre a Guerra dos Trinta Anos, A Guerra da Orelha de Jenkins (1739-1748) e os posts sobre Falklands/Malvinas: Origem do Conflito,  Raid on the Medway (2ª Guerra Anglo-Holandesa – 1667)Navio de Linha na Era da Vela Robert Blake (um dos fundadores da Marinha inglesa), você pode navegar por este link, no nome do texto ou pelas categorias do site.

Bibliografia e sites consultados

Existem duas obras de referência sobre o tema: o clássico de Herbert William Richmond “The Navy in the War of 1739–48”, de 1920, em três volumes e “The War of Jenkins’Ear: The Forgotten Struggle for North and South America: 1739-1742”, de Robert Gaudi, disponíveis na Amazon. São poucos os livros que fazem menção a esta guerra, que deixou ensinamentos importantes para britânicos e espanhóis.

Sites consultados:

https://en.wikipedia.org/wiki/War_of_Jenkins%27_Ear

https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Cartagena_de_Indias

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *