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Clausewitz e a Guerra

Prof. Dr. Ricardo Pereira Cabral

“A guerra é, portanto, um ato de força para obrigar o nosso inimigo a fazer a nossa vontade”

O objetivo desse artigo é apresentar, em linhas gerais, ao leitor do site, aquele que é considerado, atualmente, o maior teórico de Estratégia e da Guerra, da Contemporaneidade. Vamos expor suas principais ideias, artigos, livros e indicar alguns dos seus principais comentadores para aqueles que desejem se aprofundar no pensamento de Clausewitz.

Uma breve biografia

Carl Philipp Gottlieb von Clausewitz (1780-1831) militar prussiano no que lutou pelos exércitos da Prússia e da Rússia nas Guerra Napoleônicas. A família de Carl alegava ser descendente do barão de Clausewitz na Alta Silésia. Seu pai serviu como tenente no exército de Frederico II e tinha um posto na burocracia estatal prussiana. Clausewitz assentou praça com 12 anos e participou da Campanha do Reno (1793-17940 que expulsou os franceses da Renânia.

Em 1801, ingressou na escola militar de Berlim, para um curso de três anos, comandada pelo general Gerhard von Scharnhorst (1755-1813), se formou como aspirante da Arma de Cavalaria entre os primeiros colocados. Ao final foi designado como ajudante do Príncipe Augusto Ferdinando (1730-1813), da Prússia. Clausewitz participou das Batalhas de Jena e Auerstedt, Borodino (pelo exército russo), Ligny e Wavre. Em 1810, como chefe do Estado-Maior e instrutor da escola de guerra, e chefe de gabinete de Scharnhost exerceu uma série de funções na comissão encarregada de modernizar o Exército Prussiano e participou ativamente da implementação das reformas. Em 1812, servindo no Exército Russo, foi um dos auxiliaram na negociação da Convenção de Tauroggen (1812) que levou à Prússia a uma nova coligação com a Rússia e o Reino Unido contra Napoleão. Na Campanha de 1815, como chefe do Estado-Maior do III Corpo de Exército, comandando pelo general Johan von Thielmann (1763-1824), atuou pela manutenção do Exército Prussiano em combate, a fim de bloquear os três Corpos de Exército, sob o comando do Marechal Emmanuel de Grouchy (1766-1847), de participarem da Batalha de Waterloo. Após a guerra, esteve diretamente envolvido com o movimento de reforma do Exército prussiano, liderado pelo general August Neidhardt Gneisenau (1760-1831), e foi comandante da Escola de Guerra (1820-1830) responsável pela formação dos oficiais que iriam servir nos Estado-Maior das grandes unidades. Em 1830, foi o chefe do Estado-maior do Exército comandado por Gneisenau, e veio a falecer de cólera em 1831.

O ambiente intelectual de Clausewitz

            O pensamento estratégico de Clausewitz tem suas raízes no ambiente intelectual alemão. Como ajudante de ordens do Príncipe Augusto e nas várias comissões que exerceu junto ao Estado-Maior, frequentava à corte e os circuitos culturais e intelectuais onde conheceu a elite da intelligentsia alemã da sua época. As obras de seu contemporâneo Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), sobre a filosofia do espírito, o idealismo, as concepções teóricas e metodológicas acerca da Teoria da História, da Arte, do Estado, do Governo e o uso do pensamento dialético, elementos que se integrarão a psicologia vão influenciar no pensamento e nos artigos de Clausewitz sobre a Guerra e a Estratégia. Outro aspecto interessante sobre as obras do general prussiano foi o fato dele incorporar noções da economia, da física e do pensamento científico da sua época na formulação de conceitos e definições na área estratégica e das relações internacionais, revelando um alto nível ecletismo intelectual e de informação. Não podemos deixar de mencionar a influência do romantismo tão marcante na sociedade letrada alemã de seu período de vida.

O método de Clausewitz, pode ser resumido, na realização de estudos históricos sobre determinados conflitos, quando eram analisadas as etapas das batalhas e/ou campanhas, crítica e formulação de hipóteses acerca dos eventos, conceitos e definições, o uso da dialética e modelos ideais confrontando com o que existia realmente. Levava em consideração a dinâmica do evento, a interferência política, o ambiente social e elementos como a moral, a psicologia do comandante, o papel do acaso e as dificuldades inerentes há tudo que se refere a condução da guerra (fricção).

O Pensamento Estratégico e a Teoria da Guerra

Em 1805, Clausewitz publicou seu primeiro artigo, de forma anônima, que seguiram vários outros tratando, basicamente, análises sobre a campanhas militares e estratégia. A sua principal obra Vom Kriege (1832-34) e outros artigos, foram publicados, após a sua morte, por sua esposa e parceira intelectual, a condessa Maria von Clausewitz (ex-Brül, da Turíngia). Ressalto que estas obras tiveram uma circulação bem limitada, mas bem conhecida por pesquisadores, analistas de temas estratégicos e pela oficialidade de língua alemã, só após as vitórias prussianas nas guerras de formação do Império Alemão é que se tornou mais conhecida.

Clausewitz se interessava em “identificar os elementos permanentes da guerra e vir a entender como eles funcionam, interessava mais a ele do que conceber esquemas estratégicos e medidas táticas eficazes”[i] indo na direção de uma filosofia da Guerra e de uma Teoria da Guerra.

            A melhor forma de se compreender o pensamento estratégico de Clausewitz não se resume a ler somente, Da Guerra, pois trata-se de uma obra incompleta e só com o primeiro capítulo do livro I revisado, daí na necessidade de ler e analisar seus artigos e conhecer um pouco da sua biografia. 

Da Guerra

Selecionamos abaixo o que consideramos as principais ideias contidas em Da Guerra e dos seus artigos:

– Clausewitz adotou uma abordagem dialética para analisar a guerra e seus vários eventos, daí a dificuldade de se interpretar corretamente alguns de seus conceitos e afirmações, a qual se deve acrescentar a complexidade do idioma alemão da sua época

– Utilização a crítica histórica para analisar os eventos militares, especulando e testando hipóteses de emprego, linhas de ação, tática utilizada entre outros aspectos;

–  Adotação da lógica da busca de lucro econômico de uma empresa comercial na abordagem das relações internacionais, no que se refere a decisão de se travar ou não a guerra e negociar a paz, dentro dos objetivos estabelecidos pela política;

– O emprego do Exército para se atingir objetivos políticos nas relações internacionais;

– A defesa do engajamento da sociedade e dos elementos de poder do Estado para se atingir os objetivos políticos da guerra;

– a natureza dinâmica do mecanismo da balança de poder;

– A relação entre objetivos políticos e militares na guerra, ou seja, o Estado deve dotar o Exército dos meios necessários para se atingir o objetivo político da guerra ou regular o objetivo político aos meios disponíveis;

– A relação assimétrica entre ataque e defesa, em que defendia a superiodade da defesa;

– A questão do “gênio militar”, indivíduo que possui uma série de aptidões especiais (cultura, alto grau de capacidade intelectual, coragem, presença de espírito,  determinação, imaginação, ousadia…), mas que também deveria ter experiência, alta capacidade de percepção da situação geral para dar o golpe de misericórdia no inimigo (coup d´oiel);

– Modelos de gênio militar: Frederico II e Napoleão;

– A guerra é um ato de força para compelir o inimigo a fazer a nossa vontade;

– O propósito da guerra é desarmar o inimigo;

– Os objetivos da Guerra: destruir as forças oponentes, ocupar seu território e impor a obediência a sua população (quebrar a vontade de resistir);

– O uso da violência para se atingir os objetivos da guerra;

– A guerra nunca é um ato isolado;

– A guerra é como um camaleão que se adapta suas características a cada situação;

– A guerra está subordinada a política e as considerações da balança de poder por isso o resultado no campo de batalha pode não ser definitivo;

– A natureza complexa da guerra, como uma dialética de vontades opostas;

–  A ação na guerra é o movimento num meio resistente → no ambiente do acaso, incerteza e perigo qualquer ação implica em perdas e risco;

– A incidência do Acaso nos eventos, alterando o curso dos acontecimentos;

– As Forças Morais → coragem, ousadia, determinação, imaginação, capacidade de lidar com a incerteza, confiança e sorte;

– Tática → emprego dos meios de combate na batalha;

– Estratégia → a sequência de batalhas para se atingir aos objetivos militares e os fins políticos;

– No mais alto nível de Comando, o Estratégico e o Político se misturam;

– A Relação Tempo-Espaço/Terreno-Manobra-Engajamento

– Tudo é muito simples na Estratégia, mas isso não significa que tudo seja muito fácil;

– Elementos da Estratégia:  morais, físicos (as forças armadas), matemáticos (ângulo das linhas de operações), geográficos (terreno) e estatístico (logística);

– A Trindade paradoxal

              → violência, ódio e inimizade primordial

              → Povo, o General e seu Exército, o Governo 

–  As distinções filosóficas entre “guerra absoluta”, “guerra ideal” e “guerra real”;

–  A  “guerra real”, tem objetivos políticos e/ou militares limitados, pois pretende desarmar o inimigo e forçá-lo a fazer  a vontade do vencedor;

– A ideia de que a guerra e sua conduta pertencem fundamentalmente ao domínio da política e da sociedade, e não aos domínios da arte ou da ciência

– A “estratégia” pertence principalmente ao reino da arte, mas é restringida por análises quantitativas de benefícios políticos versus custos e perdas militares;

– A “tática” pertence principalmente ao domínio da ciência a importância das “forças morais” (mais do que simplesmente “moral”) em oposição a elementos físicos quantificáveis;

– As “virtudes militares” dos exércitos profissionais;

– Os efeitos reais de uma superioridade em números e “massa”;

            – A imprevisibilidade essencial da guerra, a “névoa da guerra”;

– O “atrito” ou “fricção” – a disparidade entre o desempenho ideal de unidades, organizações ou sistemas e seu desempenho real em combate;

– O Conceito de Centro de Gravidade → núcleo de poder, de direção, de coesão, aquele ponto da estrutura política, militar, econômica e social de que tudo depende;

– O conceito de “ponto culminante da ofensiva”;

– O conceito de “ponto culminante da vitória”.

Como seria impossível identificar quais as obras de Clausewitz traduzidas, optamos por relaciona as impressas, em alemão. Informo que várias delas estão disponíveis na rede mundial de computadores, e como citamos, com tradução em vários idiomas:

  • Bemerkungen über die reine und angewandte Strategie des Herrn von Bülow oder Kritik der darin enthaltenen Ansichten. anonymer Artikel in der Zeitschrift  Neue Bellona. 1805.
  • Strategie. 1804–1809. Dieses Manuskript wurde erst in den 1930er Jahren entdeckt und ist erschienen in Eberhard Kessel (Hrsg.): Carl von Clausewitz – Strategie aus dem Jahr 1804, mit Zusätzen von 1808 und 1809. Hamburg 1937.
  • Historische Briefe über die großen Kriegsereignisse im Oktober 1806. 1807/08. in Auszügen abgedruckt in: Gerhard Förster (Hrsg.): Carl von Clausewitz – Ausgewählte militärische Schriften. Berlin 1981, S. 46–75.
  • Bekenntnisschrift von 1812. 1812, abgedruckt in: Gerhard Förster (Hrsg.): Carl von Clausewitz. Ausgewählte militärische Schriften. Berlin 1981, S. 140–215.
  • Nachrichten über Preußen in seiner größten Katastrophe. 1823/24. in Auszügen abgedruckt in: Gerhard Förster (Hrsg.): Carl von Clausewitz. Ausgewählte militärische Schriften. Berlin 1981, S. 76–124.
  • Vom Kriege. Hinterlassenes Werk des Generals Carl von Clausewitz, Bd. 1–3, bei Ferdinand Dümmler, Berlin 1832–1834 (hrsg. Von Marie von Clausewitz).
  • Der Feldzug von 1796 in Italien. Hinterlassenes Werk des Generals Carl von Clausewitz, Bd. 4, bei Ferdinand Dümmler, Berlin 1833 (hrsg. von Marie von Clausewitz).
  • Die Feldzüge von 1799 in Italien und der Schweiz. Hinterlassenes Werk des Generals Carl von Clausewitz, Bd. 5–6, bei Ferdinand Dümmler, Berlin 1833–1834 (hrsg. von Marie von Clausewitz);
  • Der Feldzug von 1812 in Russland, der Feldzug von 1813 bis zum Waffenstillstand und der Feldzug von 1814 in Frankreich. Hinterlassenes Werk des Generals Carl von Clausewitz, Bd. 7, bei Ferdinand Dümmler, Berlin 1835 (hrsg. von Marie von Clausewitz);
  • Der Feldzug von 1813 bis zum Waffenstillstand;
  • Der Feldzug von 1815 in Frankreich. Hinterlassenes Werk des Generals Carl von Clausewitz, Bd. 8, bei Ferdinand Dümmler, Berlin 1835 (hrsg. von Marie von Clausewitz);
  • Strategische Beleuchtung mehrerer Feldzüge von Gustav Adolph, Turenne, Luxemburg und andere historische Materialien zur Strategie. Hinterlassenes Werk des Generals Carl von Clausewitz, Bd. 9, bei Ferdinand Dümmler, Berlin 1837 (hrsg. von Marie von Clausewitz);
  • Strategische Beleuchtung mehrerer Feldzüge von Sobiesky, Münich, Friedrich dem Groβen, und dem Herzog Carl Wilhelm Ferdinand von Braunschweig und andere historische Materialien zur Strategie. Hinterlassenes Werk des Generals Carl von Clausewitz, Bd. 10, bei Ferdinand Dümmler, Berlin 1837 (hrsg. von Marie von Clausewitz);
  • Strategie aus dem Jahre 1804, mit Zusätzen von 1808 und 1809. [Niederschrift des 24-jährigen Schülers von Scharnhorst], herausgegeben von E. Kessel. Hamburg, Hanseat. Verlags-Anstalt, 1937.
  • Ausgewählte Briefe. an Marie von Clausewitz und an Gneisenau, Verlag der Nation, Berlin 1953.
  • Werner Hahlweg: Schriften, Aufsätze, Studien, Briefe. Dokumente aus dem Clausewitz-, Scharnhorst- und Gneisenau-Nachlass sowie aus öffentlichen und privaten Sammlungen. (= Deutsche Geschichtsquellen des 19. und 20. Jahrhunderts, Band 45). Mit einem Vorwort von Karl Dietrich Erdmann und hrsg. von der Bayerischen Akademie der Wissenchaften. Band 1, Vandenhoeck & Ruprecht, Göttingen 1966.
  • Werner Hahlweg (Hrsg.): Vom Kriege. Hinterlassenes Werk des Generals Carl von Clausewitz. Vollständige Ausgabe im Urtext. 3 Teile in einem Band. Mit erneut erweitert historisch-kritischen Würdigung von Werner Hahlweg. 19. Auflage (Jubiläumsausgabe), Dümmler, Bonn 1991;.
  • Werner Hahlweg: Verstreute kleine Schriften. Festgabe des Militärgeschichtlichen Forschungsantes zum 200. Geburtstag des Generalmajors Carl von Clausewitz. (= Bibliotheca rerum militarium, 45). Zusammengestellt, bearbeitet und eingeleitet von Werner Hahlweg, Biblio-Verlag, Osnabrück 1979[ii].

Para os leitores interessados na obra de Clausewitz recomendamos alguns livros: o clássico de Raymond Aron “Pensar a Guerra, Clausewitz”; Hew Strachan “Sobre a Guerra de Clausewitz”; o Ensaio sobre Clausewitz escrito por Peter Paret que está no Tomo I do “Construtores da Estratégia Moderna” (disponível em português), a tradução para o inglês intitulada de “On War” que contém ensaios muito esclarecedores de Peter Paret, Michael Howard e Bernard Brodie; indicamos ainda duas obras de Peter Paret dedicadas ao general prussiano, “Understanding War. Essays on Clausewitz and History of Military Power” e “Clausewitz and the State. The man, his theories and his times”. O site https://clausewitz.com/ tem algumas de suas obras traduzidas para o inglês, dicas de livros e o acesso é gratuito.

Conclusão

A obra de Clausewitz sobre Guerra e estratégia continua, 190 anos após a sua morte, sendo objeto de estudos e análises, com reedições periódicas, demonstrado a vitalidade de seu pensamento militar. O mais interessante é quanto mais se pesquisa e analisa suas obras, novas dimensões se apresentam revelando a robustez de seu pensamento. Sem dúvida, é o autor militar ocidental mais influente da Idade Contemporânea.

[i] PARET, Peter. Clausewitz in PARET, Peter; CRAIG, Gordon A.; GILBERT, Felix. Construtores da Estratégia Moderna; de Maquiavel à era nuclear. Rio de Janeiro: Bibliex, 2001. P.258.

[ii] A relação mais completa localizada sobre as obras de Clausewitz estão disponíveis no sítio eletrônico: https://de.wikipedia.org/wiki/Carl_von_Clausewitz . Acessado em 31/7/2021.

Quer saber mais sobre Estratégia, leia o post sobre Paul-Gédéon Joly de Maïzeroy, você pode navegar por este link, no nome do texto ou pelas categorias do site

Bibliografia

1 comentário em “Clausewitz e a Guerra”

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