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Guerra do Yom Kippur: A Batalha do Vale das Lágrimas

Prof. Dr. Ricardo Pereira Cabral

A Guerra do Yom Kippur ocorreu entre os dias 6 e 25 de outubro de 1973. As operações tiveram início em horários diferentes no front do Nilo e nas Colinas de Golã, o que de certa forma atrapalhou a “surpresa”. Aliás, essa falta de coordenação entre as forças militares árabes foi uma constante.

É interessante mencionar que horas antes dos árabes lançarem o ataque a liderança israelense já tinha pleno conhecimento das suas intenções e mobilizou, parcialmente, suas forças. Golda Meyir, primeira-ministra de Israel, se recusou a lançar um ataque preventivo, devido as controvérsias em relação a Guerra dos Seis Dias (1967).

A grande falha do Mossad e da Aman (inteligência militar) foi não dar a devida atenção há todas as evidências que a própria Inteligência tinha coletado, menosprezando a capacidade árabe de voltar ao campo de batalha, depois da acachapante derrota que tinham sofrido. Uma atitude arrogante, que por pouco não resultou em um desastre.

Depois da Guerra dos Seis Dias (1967), as Forças Armadas sírias e egípcias receberam grandes quantidades de material bélico soviético. O apoio da URSS se estendeu ao treinamento das tropas de infantaria e para a melhor utilização dos equipamentos, das unidades blindadas, de artilharia e dos pilotos, no aperfeiçoamento do estado-maior e dos comandantes de unidade no campo de batalha, no fornecimento de inteligência e pressão política sobre os aliados israelenses. O material consistia em tanques-34, T-54, T-55 e T-62, vários modelos de viaturas blindadas sobre rodas e lagartas para infantaria, baterias de mísseis anti-aéreos SAM 2, 3 e 6, mísseis anti-carro Sagger equipamentos de visão noturna, obuseiros de 152 mm, caças Migs 17, 19 e 21 entre outros materiais. O nível operacional e de prontidão das tropas estava elevado às vésperas do ataque.

O objetivo militar do Egito e da Síria era recuperar os territórios perdidos na Guerra dos Seis Dias (1967). Em negociações anteriores, Israel aceitava a devolução, desde que os árabes o reconhecessem como Estado Nacional e cessassem todas as hostilidades, algo que os árabes não aceitavam naquela conjuntura.

O terreno

A colinas de Golã se estendem por 1.800km2, sendo que Israel controla 2/3 (1.200 m2). As ravinas e os pontos de acesso são facilmente defensáveis, existem muitas saliências e pontos íngremes de difícil escalada. Nas colinas estão as fontes do rio Jordão

Após a conquista das Colinas de Golã, os israelenses construíram uma série de fortificações que dominavam o terreno, fossos anti-carro, fizeram espaldões para armas, preparam posições para os seus blindados de modo que só a torre ficasse exposta, lançaram vários campos de minas e construíram instalações com pessoal da Inteligência que lhes permitiam monitorar o fluxo de comunicações sírias. A aviação israelense fazia, frequentemente, voos de patrulha e reconhecimento sobre o território sírio. O material bélico das reservas estava posicionado, relativamente, próximo às posições defensivas o que lhes possibilitava dispor das reservas próximas à zona de combate, por outro lado estavam vulneráveis a artilharia e a aviação síria. A posse das Colinas Golã é fundamental para defesa e a sobrevivência de Israel, lá estão as fontes do rio Jordão e elas tem comandamento sobre o terreno adjacente, o que facilita a defesa de posição e móvel, além de dar profundidade estratégica a defesa.

Os efetivos iniciais das forças em luta

No dia 6 de outubro, o Exército sírio iniciou o ataque com três divisões de infantaria com cerca de 28.000 soldados, apoiados por 800 tanques (T-55 e T-62) 600 peças de artilharia de diversos calibres. No dia seguinte, os sírios desdobraram mais duas divisões blindadas. Os sírios sabiam das dificuldades que encontrariam e se prepararam para abrir passagens nos campos de minas, lançadores de pontes para superar os fossos defensivos israelenses, tropas de infantaria mecanizadas e blindadas dotadas de misseis anti-carro. Utilizaram tropas aeromóveis e forças especiais para atacar as posições israelenses no alto das colinas.

Nas Colinas de Golã, as Forças de Defesa de Israel (IDF) tinham duas brigadas blindadas, uma brigada de infantaria, dois batalhões de paraquedistas e onze baterias de artilharia com cinco brigadas (7ª, 9ª e 5ª, com a 1ª e 3ª na reserva). No início da batalha, as brigadas israelenses tinham nas posições defensivas cerca de 3.000 soldados, 180 tanques e 60 peças de artilharia.

 MBT T-55, T-62 e BTR-152 APC sírios

A Batalha

O ataque sírio começou por volta das 14 h (2 h após do início do ataque egípcio à margem controlada pelos israelenses no Nilo) do dia 6 de outubro de 1973, com um ataque aéreo de cerca de cem aeronaves e uma barragem de artilharia de cinquenta minutos. As duas brigadas de infantaria avançadas, com um batalhão de tanques de cada uma das três divisões de infantaria cruzaram as linhas de cessar-fogo, contornando os postos de observadores das Nações Unidas. A cobertura proporcionada pelas baterias antiaéreas móveis limitava a ação da aviação israelense. A fim de superar os preencher os fossos anti-carro, os sírios utilizaram escavadeiras, blindados lança-ponte e veículos de abertura de passagens nos campos de minas. Esses veículos de engenharia eram alvos prioritários para os artilheiros de tanques israelenses e sofreram pesadas perdas, mas a infantaria síria demoliu o fosso anti-carro, permitindo que os blindados cruzasse as defesas.

Duzentos homens do 82º Batalhão de Paraquedistas Sírio, utilizando helicópteros, desceram a pé do Monte Hermon e tomaram a base de observação israelense na encosta sul, com seu equipamento de vigilância avançado e, principalmente, os códigos israelences. Grande parte do pessoal de inteligência israelense foi capturado e revelaram muitas informações confidenciais.

Em 8 de outubro, os israelenses até tentaram retomar a base do sul, mas o ataque rechaçado com pesadas perdas. O dispositivo israelense contava com a 7ª BB ainda estava na reserva e a 188ª Brigada Blindada na linha de frente com apenas dois batalhões de tanques, o 74º Batalhão de Tanques (BT) no norte e o 53º BT no sul.  O 74º travou uma batalha defensiva contra as brigadas avançadas da 7ª Divisão de Infantaria da Síria, destruindo cinquenta e nove tanques sírios sofrendo perdas mínimas. O 53º destruiu um número semelhante, mas enfrentou quatro batalhões de tanques sírios e teve uma dúzia de tanques destruídos.

No bunker nº 111, em frente à Kudne, na Síria, a companhia de defesa israelense repeliu os ataques da 9ª Divisão de Infantaria Síria, que ao cair da noite estava reduzida a três tanques. No entanto, a continuidade da resistência bem-sucedida do 53º BT dependia de reforços.

 O comando operacional de Golã foi dado, inicialmente, a Yitzhak Ben-Shoham, comandante do 188ª Brigada Blindada (Brigada Barak), que ordenou que a 7ª BB se concentrasse em Wasset. No entanto, Avigdor Ben-Gal, comandante da 7ª BB, foi ao quartel-general do Comando do Norte, em Nafah, e solicitou que sua força fosse empenhada no setor norte no Vale Quneitra, uma passagem estratégica ao sul do Monte Hermonit e principal acesso às Colinas de Golã pelo leste.

O Comando do Norte estava em processo de mudança de seu quartel-general para Safed, na Galiléia, e os oficiais de alto escalão estavam ausentes neste momento, esperando que o ataque sírio começasse às 18h, sem que ninguém fizesse objeções à proposta de Ben-Gal. O oficial de operações, tenente-coronel Uri Simhoni, improvisou, o desdobramento das reservas, decidindo assim em grande parte o curso da batalha. Então o 71º Batalhão de Tanques Centurion da Escola de Blindados foi mantido na reserva geral. O 77º BT  da 7º BB foi enviado para Quneitra. As 2 companhias do 75º Batalhão de Infantaria Mecanizada (BIM), chegaram pela manhã e enviados para o setor sul. O 82ª BT foi enviado para reforçar o sul. Ben-Gal separou uma companhia deste batalhão para servir de reserva para sua própria brigada. Outra companhia foi emboscada por uma força de comando sírio infiltrada, armada com mísseis Sagger, e foi quase exterminada. Com isso o reforço efetivo do setor do sul de Golã ficou limitado a apenas uma única companhia de tanques.

Yitzhak Hofi, comandante do Comando do Norte, dividiu o comando a zona de ação na frente Golã: o norte ficaria sob a responsabilidade da 7º BB, para o qual o 53º BT seria transferido. O setor da 188º BB seria limitado ao sul, assumindo o 82º BT. A primeira onda da ofensiva síria não conseguiu penetrar nas linhas de defesa.

Ao anoitecer os sírios lançaram um novo ataque, com 3 divisões de infantaria, as quais estava agregadas uma brigada mecanizada com 40 tanques, reforçadas por uma brigada blindada com 90 tanques, em um total de 210 tanques Duas dessas brigadas deviam atacar o setor norte, quatro o setor sul.

T-62 Sírio

A Batalha do Vale de Quneitra

Durante quatro dias a 7ª BB conseguiu manter a linha, defendendo o flanco norte e infligindo pesadas baixas aos sírios. Durante a noite de 6/7 de outubro, a 7ª BB repeliu um ataque da 78ª BB da 7ª DI síria. Em 7 de outubro, a 7º BB enviou parte de suas reservas para o setor sul, que estava em colapso. O reabastecimento de Nafah tornou-se impossível. O Alto Comando Sírio, entendeu que tomar o Vale de Quneitra garantiria a vitória em Golã, decidiu comprometer suas reservas blindadas. Durante a noite de 7/8 de outubro, a 81ª BB, equipada com modernos tanques soviéticos T-62 (parte da guarda presidencial) atacou, mas foi derrotada. Após essa luta, a brigada israelense se referiria como ao Vale de Quneitra, como “Vale das Lágrimas”.

As unidades blindadas israelenses contaram com o decisivo apoio de fogo da artilharia de campanha, que mudava de posição para obter maior eficiência, fruto do profundo conhecimento do terreno e da constante prática de exercícos de tiro.

A realização de ataques noturnos por parte dos sírios ocorria devido à vantagem de equipamentos de visão noturna infravermelha, que não era um equipamento padrão entre as unidade blindadas israelense. Estes possuíam alguns tanques equipados com grandes holofotes de xenônio que se eram úteis para iluminar e localizar posições inimigas, tropas e veículos, por outro lado denunciavam a posição. Outro ponto, os israelenses combatiam no limite do alcance dos canhões dos Centurion, superiores ao T-55 soviético.

Na tarde de 9 de outubro, o comando sírio desdobrou a 70ª BB da Guarda Republicana, equipada com T-62 e BMP-1. A 7º BB israelense estava reduzida a duas dúzias de tanques, reunindo elementos restantes do 71º, 74º, 77º e 82º Batalhões de Tanques. O comando israelense havia direcionado todas as reservas para o setor sul ameaçado, confiando que o setor norte estava seguro. Mudando a tática até então utilizada, os sírios resolveram lançar um ataque diurno. Lutar à luz do dia provou ser vantajoso para os sírios: os seus melhores blindados, o T-62, eram mais resistentes, difíceis de destruir a longa distância e seus canhões de 115 mm de cano liso eram muito precisos em distâncias médias, apesar de não estarem equipados com um telêmetro. O ataque blindado, em conjunto com a artilharia levou os Centurions israelenses a se retiraram de suas rampas de tanques. A situação só foi restaurada por uma força de treze tanques organizada pelo tenente-coronel Yossi Ben-Hanan, a partir de blindados reparados e tripulações perdidas.  Após essa última ofensiva os sírios se retiraram, tendo perdido, desde o início da ofensiva em 6 de outubro, cerca de 260 tanques.

T-55 sírio

O ataque sírio ao setor sul das Colinas de Golã

O plano ofensivo sírio chamado de Al-Aouda (“O Retorno”), elaborado pelo Major-General Adul Habeisi, enfatizou o elemento surpresa. Os sírios sabiam que a 188º BB normalmente fazia a rotação de seus dois batalhões de tanques na Linha Roxa, de modo que, a qualquer momento, apenas 33 tanques guardavam o fosso de tanque. Então equipes de comandos, armadas com misseis anti-tanque Saggers, foram desdobradas para destruir os pelotões de tanques das reservas táticas que fossem reforças essas posições. Simultaneamente, ataques de comandos de helicópteros às pontes do Jordão, pousando durante o crepúsculo para evitar a FAI, isolariam as Colinas de Golã dos reforços estratégicos. Os ataques noturnos das três divisões de infantaria da Síria fragmentariam as posições defensivas israelenses. Para concluir a operação e deter qualquer tentativa israelense de reconquistar Golã, a 1ª e a 3ª Divisão Blindada avançariam para o planalto. Dessa forma, os sírios esperavam tomar o Golã em trinta horas.

A coordenação com o Egito forçou uma mudança de planos. Os egípcios queriam que as hostilidades começassem ao meio-dia, mas no final concordaram com um compromisso de 14:00. Tendo em vista dessa situação, os assaltos aeromóveis foram cancelados.  Agora diante da incerteza de um resultado bem-sucedido, os sírios estavam menos comprometidos com o ataque. O comando sírio decidiu manter uma divisão blindada como reserva estratégica, junto com outras duas brigadas blindadas independentes, pertencentes a Guarda Presidencial, que contavam com os modernos T-62.

No setor sul, a Brigada Blindada Barak (a 188ª BB israelense) teve que defender um terreno muito mais plano, com apenas um terço de seus tanques operacionais e enfrentou, cerca de dois terços da segunda onda de ataque síria. Além dessas desvantagens, seu comandante tomou decisões equivocadas. Ben-Shoham, manteve seu Posto de comando Nafah, distante de seu setor e distribuiu parte de seus tanques ao longo de toda a linha, para impedir qualquer incursão síria, em vez de concentrar os blindados em pontos de reunião e fazer patrulhas para identificar a direção geral do ataque. Além disso, falhou em coordenar o desdobramento do 82º BT e do 53º BT. O comandante do 53º BT, o tenente-coronel Oded Eres, enviou as duas companhias que chegaram do 82º TB para o seu flanco direito e centro. Sem nenhum reforço, ordenou então que a companhia do sul retornasse ao norte. Esta foi emboscada e destruída no caminho. O flanco esquerdo da 188ª BB, em Kudne, permaneceu sem reforço, contando com apenas oito tanques operacionais.

O setor da brigada era o eixo principal da 9ª Divisão de Infantaria síria e seu comandante, o coronel Hassan Tourkmani, ordenou que os remanescentes de um batalhão de tanques abrissem um caminho no cinturão do campo de minas, mesmo com o risco de perder todos eles. Ao escurecer a 51ª Brigada Blindada síria contornou o bunker nº 111 e invadiu o complexo de abastecimento israelense na encruzilhada de Hushniya. Elementos do 75º Batalhão de Infantaria Mecanizada haviam se concentrado em Hushniya, mas estavam sem suas companhias de tanques e sem de armas antitanque. Resultado: a infantaria israelense não conseguiu deter os blindados sírios.  O 51º BB sírio seguiu para Nafah, o quartel-general israelense em Golan, localizada na retaguarda do Vale Quneitra.

Outra falha foi o fato de que Ben-Shoham demorou a perceber os sírios avançando no seu setor. A sua principal preocupação era que os sírios ocupassem algum complexo ou bunker avançado. O fato de os pelotões de tanques da defesa ainda estarem intactos era visto como uma prova de que a linha não havia sido rompida.

No fim da tarde, Ben-Shoham deslocou o seu quartel-general para o sul e começou a receber relatórios de tráfego de rádio sírio em Hushniya, de tanques de reserva israelenses passando por colunas de tanques sírios no escuro e de tanques inimigos movendo-se na retaguarda do posto de observação em Tel Saki. Tais informações foram erroneamente descartados por ele, como erros de identificação. Somente quando dois tanques israelenses pararam no escuro e reconheceram os blindados como sendo T-55 é que ele percebeu que uma grande unidade blindada síria havia se infiltrado em suas linhas. Essa falha resultou que nenhuma unidade israelense foi empregada para bloquear o avanço sírio para Nafah.

Ben-Shoham ordenou ao Tenente Zvika Greengold reunisse algumas tripulações com os tanques que conseguisse e seguisse para o sul a fim de assumir o comando do complexo de bunkers nº 111 e 112. A cinco quilômetros ao sul da base de Nafah, Greengold foi avisado por um comboio de caminhões de que havia tanques sírios à frente. Estes pertenciam ao 452º BT se dirigindo para o norte a fim de surpreender Nafah. Greengold resolveu engajar os sírios e atirando a curta distância destruiu três T-55. Então se moveu paralelamente à estradal, atingindo outros tanques sírios que avançavam no flanco e destruiu outros dez até se aproximar de Hushniya. O Major Farouk Ismail, comandante do 452º BT, concluiu que havia sido emboscado por uma unidade de tanques israelense e concentrou os veículos restantes em uma posição defensiva em Hushniya. Greengold informou a Ben-Shoham, que a “Força Zvika” havia destruído treze tanques sírios. Sem que revelar que a “Força Zvika” era constituída por apena pelo seu Centurion.

 A próxima unidade da 9ª Divisão de Infantaria síria, a participar da segunda onda, foi a 43ª Brigada de Infantaria Mecanizada, que entrou em Golan por Kudne e se dirigia para Quneitra. Os elementos da 1ª Brigada de Infantaria israelense alertaram a 7ª Brigada Blindada do perigo. Ben Gal enviou a 82ª Companhia de Tanques, comandada pelo capitão Meir “Tiger” Zamir, que estava na reserva, para cobrir seu flanco sul, que se encontrava exposto. Zamir emboscou a brigada síria, destruindo uma dúzia de blindados. Ao amanhecer, Zamir surpreendeu outra coluna inimiga pela retaguarda e dispersou o restante da 43ª BIM, tendo destruído todos os seus quarenta tanques.

A Resposta Estratégica Israelense

O general Yitzhak Hofi, Comandante Militar do Norte, começou a ecompreender a magnitude do avanço sírio e a possibilidade de que toda a região de Golan poderia ser perdida. Hofi informou a Moshe Dayan que cerca de trezentos tanques sírios haviam penetrado em Golã pelo sul e que nenhuma reserva estava disponível para impedir uma incursão síria na Galiléia.

A possibilidade de que a Força Aérea Israelense (FAI) desse um apoio maior às operações em terra estava limitada, pois participava intensamente dos combates, nas duas frentes. Além disso, sua maior preocupação era destruir a rede de baterias de mísseis anti-aéreos soviéticos que os árabes operavam e que lhe reduzia a liberdade de ação. Na verdade, queria o apoio das forças em terra para destruí-las.

O Alto Comando israelense tinha uma reserva estratégica, consistindo na 146º DB, destinada ao Comando Central, para ser empregada na fronteira com a Jordânia. Na noite de 6 de outubro, David Elazar, chefe do Estado-Maior das FDI, havia considerado enviar esta divisão para a frente do Sinai, naquela altura dos acontecimentos bastante comprometida, tendo em vista do sucesso defensivo inicial no Golã. A crise inesperada levou a uma reviravolta. A prioridade foi dada ao norte por causa de sua proximidade com centros populacionais israelenses em Tiberíades, Safed, Haifa e Netanya. Elazar ordenou que, após a mobilização, a 146º DB reconquistasse o Sul de Golã.  Essa divisão levaria algum tempo para ser desdobrada. Algumas unidades menores foram rapidamente mobilizadas para reforçar as defesas. Os sírios esperavam que levasse pelo menos 24 horas para que as reservas israelenses chegassem às linhas de frente. De fato, as reservas começaram a lutar apenas nove horas após o início da guerra, doze horas após o início da mobilização, um grande feito organizacional.

As posições defensivas de Golã estavam com apenas 80% de sua força planejada para esta fase da guerra contra a Síria. O Comando do Norte tinha uma reserva estratégica que consistia em um batalhão de tanques Centurion de desdobramento rápido. Além disso, o 71º Batalhão de Infantaria Mecanizada, com duas companhias de tanques, da 188º BB ainda não havia sido ativado. Tendo em vista a situação precaria da brigada, aqui constamos uma falha na mobilização dessa unidade. Somente na noite de 6/7 de outubro, esses dois batalhões foram gradualmente formados e enviados à batalha.

Na madrugada de 7 de outubro, a 36º DB foi ativada sob o comando do brigadeiro Rafael Eitan, para assumir o comando da frente norte. A 7º BB não tinha essa divisão como destino original. Era uma reserva ativa do Comando das FDI, movida do Sinai para o Golã em reação ao aumento sírio. De acordo com o Plano Gir de mobilização original (“Giz”), a 36º DB seria reforçada pela 179ª Brigada Blindada. Na noite de 6 de outubro, considerou-se o envio desta brigada para o Sinai, mas esta opção foi abandonada após tomarem conhecimento do avanço da Síria. A fim de acelerar a realocação da 7º BB para o norte, esta brigada deixou seus tanques em Tasa, no Sinai, e usou os blindados da 179º BB para se reorganizar em Nafah. Por sua vez, a 179º BB começou a se mobilizar no leste da Galiléia, a partir do complexo de mobilização das Colinas de Golã, utilizando os Centurions da 164ª Brigada Blindada. Esta última brigada foi designada para a 240º DB, uma divisão que, a princípio, deveria ser mantida na reserva.

Supondo que uma ofensiva síria levaria a perdas de tanques e redução das suas capacidades, o EM das FDI emperava uma oportunidade para lançar a Operação Ze’ev Aravot (“Lobo do Deserto”). A operação consistia de um ataque com duas divisões blindadas, a 36º e 240º, na direção de Damasco.

Ao longo da noite de 9/10 de outubro, todos os Centurions, que ainda estavam estocados no Norte, foram usados ​​para recompletar a 7º e a 188º BB. A 164º BB foi enviada ao Sinai, para se ativar usando o material da 7º BB.  A 679ª Brigada Blindada, após sua mobilização, deveria se juntar a 240º DB. Os reservistas de ambas as brigadas que chegavam aos depósitos do exército da Galiléia foram rapidamente designados para tanques e enviados para frente, sem esperar a chegada das tripulações com as quais treinaram, nem com as metralhadoras a serem instaladas ou calibradas. Os elementos dessas unidades começaram a ser mobilizados em 6 de outubro e em 7 de outubro, foram enviados à frete de batalha

A descrição desse processo de decisão demonstra a importância da existência de uma reserva treinada e de material bélico e suprimentos estocados em locais, relativamente, próximos às frentes de batalha, em que as unidades recém-mobilizadas seriam empenhadas. O planejamento estratégico da campanha e o alto nível do Estado-Maior das IDF devem ser ressaltados. Outro ponto importante foi a flexibilidade no planejamento, que exigiu um alto grau de comando e controle do EM para coordenar toda essa logística de acordo com a evolução da situação.

O colapso da 188ª Brigada Blindada israelense

No final da noite de 6 de outubro, um batalhão de tanques israelenses avançou de Nafah em direção a Hushniya, tentando fechar o ponto de ruptura. O ataque, correndo contra posições preparadas, ocupadas por uma força superior de T-55s, foi um fracasso terrível, com pesadas baixas e perdas de blindados. Greengold incorporou os restos da unidade em sua “Força Zvika”.

Greengold travou batalhas contínuas, às vezes com seu único tanque e outras vezes como parte de uma unidade maior, trocando tanques meia dúzia de vezes quando eram inutilizados. Greengold sofreu queimaduras, mas permaneceu em ação e repetidamente apareceu em momentos críticos de uma direção inesperada para mudar o curso de uma escaramuça. Por suas ações, ele recebeu a mais alta condecoração de Israel, a Medalha de Valor.

Em 7 de outubro, os sírios atacaram com cerca de seiscentos tanques, em duas ondas, as posições israelenses, perderam metade dos seus tanques. Nessa altura dos acontecimentos, as FDI haviam desdobrado cerca de 250 tanques para a batalha.  As reservas que chegaram com o 71ª BIM foram empregadass para bloquear um avanço de elementos da 9ª Divisão de Infantaria síria que se dirigiam à Ponte Bnot Yaacov, uma conexão crucial entre a Galiléia e Nafah.

Na madrugada de 7 de outubro, todas as tentativas de fechar a brecha na linha defensiva principal do setor sul foram inúteis porque centro e o flanco direito da 188º BB haviam começado a entrar em colapso. Durante toda a noite, a brigada conseguiu manter a posição contra os sírios. Mas estes prosseguiam com os ataques, apesar das enormes perdas que vinham sofrendo. Algumas tripulações de tanques se sacrificaram, na esperança de ganhar tempo para que as forças de reserva alcancem as linhas de frente. Gradualmente, a intensidade dos ataques sírios diminiuíram devido ao cansaço ou a perdas que vinham sofrendo.

A situação da 188º BB estava fragilizada, devido a presença da  9ª Divisão de Infantaria Síria., na sua retaguarda. O EM das FDI decidiu se retirar do sul de Golã. À noite, retraíram com as unidades de artilharia e logística, algumas entre as colunas da 9ª DI, outras sendo destruídas por elas no caminho. Os assentamentos de civis judeus e as forças que guardavam as fortificações foram evacuadas. O único que permaneceu guarnecido foi o bunker 116.

A 5ª Divisão de Infantaria Síria, sob a cobertura da escuridão, lançou uma ponte sobre um fosso de tanques e abriu corredores através do cinturão de campos de minas e, posteriormente, ocupou o planalto do sul de Golã. Ben-Shoham tentou e não conseguiu manter a posição nas estradas de acesso, por intermédio de pequenos grupos de APCs guarnecidos pelo 50º Batalhão de Paraquedistas. A 47ª Brigada Blindada síria avançou ao longo da escarpa ao norte, na direção da ponte Bnot Yaacov. A 132ª Brigada de Infantaria Mecanizada síria posicionou-se a leste de El Al, na estrada ao longo da fronteira com o Jordão, correndo ao sul do Lago Tiberíades.

Ainda na madrugada de 7 de outubro, o general israelense Dan Lener ativou o quartel-general divisional da 210º para assumir o controle do setor entre o lago e a ponte Bnot Yaacov, mas não dispunha de unidades para manter essa linha. No momento, a brigada pouco poderia fazer além do que deter tropas e veículos em retirada na ponte Arik, mais ao sul, e enviá-los sobre o rio Jordão novamente. O alto comando israelense temia que os sírios explorassem rapidamente esta situação e avançassem para a Galiléia.

Na manhã de 7 de outubro, Dayan chamou Shalhevet Freier, diretora-geral da Comissão de Energia Atômica de Israel, para uma reunião com Golda Meir, para discutir a possibilidade do uso de armas nucleares. Meir a princípio rejeitou essa opção, mas no dia seguinte ordenou que se fizessem os preparativos para o caso de uma derrota total. Os sinais de que Israel se preparava para lançar um ataque nuclear, levou os norte-americanos a atender, mais rapidamente, os pedidos de Telaviv para reposição do material de guerra perdido em combate (blindados, munição, diversos tipos de mísseis, caças, helicópteros entre outros itens). Os norte-americanos forneceram todos os itens em grandes quantidades, além de informações em fluxo contínuo utlizando aviões espiões e satélites.

A preocupação com a possibilidade de Israel lançar um ataque nuclear era real e para previni-la Assad proibiu as unidades de se aproximarem do rio Jordão. Diante dessa diretriz, as brigadas mecanizadas sírias mais avançadas e próximas aos acessos ao vale do Jordão estacionaram e começaram a se preparar posições defensivas. 

É importante apontar para o fato de que a inteligência norte-americana afirma que os soviéticos se preparam para fornecer armas nucleares para egípcios e sírios, a fim de que estes pudessem realizar um ataque de retaliação. Mas tais armas permaneceram de posse dos soviéticos em navios em frente aos portos de Alexandria (Egito) e Latakia (Síria) e só seriam entregues para retaliar um ataque.

O comandante da 188ª brigada, coronel Shoham, foi morto no segundo dia da batalha, juntamente com seu subcomandante e o oficial de operações, enquanto os sírios tentavam desesperadamente avançar em direção ao mar da Galiléia e Nafah. Nesse ponto, a Brigada Barak não era mais uma força coesa, embora os tanques e tripulantes sobreviventes continuassem lutando de forma independente. Os sírios estavam perto de alcançar os defensores israelenses em Nafah, no final da tarde, inesperadamente, os sírios pararam o seu avanço nos arredores de Nafah. A pausa durou a noite toda, permitindo que as forças israelenses se reagrupassem e formassem uma linha defensiva. Supõe-se que os sírios calcularam os avanços estimados e os comandantes em campo não queriam ou não tinham autonomia tática e deveriam seguir o planeado.

Israel retoma o sul de Golã

A partir de 8 de outubro, com o emprego das reservas nos combates, os israelenses começaram a empurrar os sírios de volta às linhas de cessar-fogo do pré-guerra, causando grandes perdas de tanques. A maré no Golã começou a virar à medida que as forças de reserva israelenses que chegavam foram capazes de conter o avanço sírio. A destruição do cinturão de baterias de mísseis SAM, a FAI atacou o quartel-general do Estado-Maior da Síria em Damasco e passou a ter o dominio do ar.

Em 9 de outubro, mísseis superfície-superfície sírios FROG-7 atingiram a base da Força Aérea Israelense de Ramat David, matando um piloto e ferindo vários soldados. Mísseis adicionais atingiram assentamentos civis. Em retaliação, sete F-4 Phantoms israelenses atingiram o Quartel General do Estado-Maior e do Comando da Força Aérea Síria em Damasco, que ficou bastanet danificado. Os jatos atacaram do espaço aéreo libanês para evitar as regiões fortemente defendidas ao redor das Colinas de Golan e destruíram uma estação de radar libanes. No ataque a Damasco, além das instalações militares foram gravemente danificados um centro cultural soviético, uma estação de televisão e outras estruturas. Nestes ataques, a FAI perdeu apenas um F-4 Phanton. O ataque levou os sírios a transferir unidades de defesa aérea das Colinas de Golã para o front doméstico, permitindo à FAI maior liberdade de ação.

Ainda em 9 de outubro, enquanto as últimas unidades sírias estavam sendo expulsas das Colinas de Golã, os sírios ainda lançaram um contra-ataque ao norte de Quneitra. Como parte da operação, eles tentaram desembarcar tropas transportadas por helicópteros nas proximidades de El Rom. O contra-ataque foi repelido e quatro helicópteros sírios foram abatidos com perda total de vidas.

Em 10 de outubro, a última unidade síria no setor central foi empurrada de volta pela Linha Roxa, a linha de cessar-fogo pré-guerra. Após quatro dias de combate intenso e incessante, os israelenses conseguiram expulsar os sírios de todo o Golã.

https://en.wikipedia.org/wiki/Valley_of_Tears#/media/File:1973_Yom_Kippur_War_-_Golan_heights_theater.jpg

Avanço israelense em direção a Damasco

No dia 10 de outubro, ficou claro que os sírios não tinham mais condições de continuar atacando Israel, devido ao pesado número de perdas que tiveram. A situação estratégica mudara, as reservas e os recursos israelenses disponíveis poderiam ser enviadas ao Sinai. Mas a coisa, não era tão simples assim. O Alto Comando tinha que tomar outra decisão: parar na Linha Roxa (fronteira pós-1967) ou continuar avançando para o território sírio, vamos avaliar:

– o esforço se limitaria a expulsar os sírios e restabelecer o status quo, nas linhas do avanço de 1967, sem nenhuma vantagem ou punição aos sírios pelo ataque de surpresa ou

– continuar o ataque em direção a Damasco, não só para tirar a Síria da guerra, mas também restaurar a posição de Israel como a principal potência militar no Oriente Médio, status que daria a Israel uma vantagem nas negociações diplomáticas no pós-guerra.

Uma decisão difícil já que a Síria tinha fortes defesas – fossoss antitanque, campos minados, pontos fortes e bateria de mísseis SAM – e que seria melhor combater nas posições defensivas das Colinas de Golã, em vez do terreno plano, no caso de outra guerra contra os sírios.

O que pessou na decisão de Golda Meir foi a questão estratégica: se a guerra terminasse durante este período, resultaria em uma perda territorial para Israel no Sinai e nenhum ganho no norte, configurando uma derrota absoluta. Meir decidiu pelo ataque à Damasco.

Em 11 de outubro, as FDI lançaram o seu ataque em direção a Damasco, tendo como principal eixo de progressão a estrada Quneitra-Damasco. A ofensiva prosseguiu até 14 de outubro. Os sírios ofereceram uma forte resistência em suas defesas preparadas. Mesmo assim, três divisões israelenses romperam a primeira e a segunda linhas defensivas perto de Sasa e conquistaram mais 50 quilômetros quadrados de território na saliência de Bashan. De lá, eles conseguiram bombardear os arredores de Damasco, a apenas 40 km de distância, usando artilharia pesada do blidados M107, com canhões de 175 mm.

Em 12 de outubro, o Sayeret Tzanhanim lançou a Operação Gown, infiltrando-se profundamente no território sírio e destruindo uma ponte na área da tríplice fronteira da Síria, Iraque e Jordânia. Esta operação interrompeu o fluxo de armas e tropas para a Síria. Durante a operação, os comandos pára-quedistas destruíram vários transportes de tanques e mataram vários soldados sírios.

Os Árabes intervem na luta

Com a deterioração da situação militar na Síria, a Jordânia (só para salvar sua imagem de amistosa para com Israel) enviou uma força expedicionária à Síria. O rei Hussein, que estava sob intensa pressão para entrar na guerra, e informou a Israel de suas intenções por meio de intermediários dos EUA, na esperança de que Israel aceitasse sua posição e que isto não era um casus belli que justificasse um ataque à Jordânia. Moshe Dayan, ministro da Defesa, recusou-se a oferecer qualquer garantia, mas afirmou  que Israel não tinha intenção de abrir outra frente.

O Iraque enviou uma força expedicionária, composta pela 3ª e 6ª Divisões Blindadas, com cerca de 30.000 homens, 250–500 tanques e 700 APCs. A Força Aérea israelense atacou as forças iraquianas assim que chegaram à Síria. As divisões iraquianas se constituíram em uma surpresa estratégica para as IDF, que esperavam que o Mossad os alertasse com antecedência (outra falha da inteligência, coberta pelos norte-americanos). Os iraquianos atacaram o flanco sul da força blindada israelense, obrigando as unidades mais avançadas a recuar alguns quilômetros para evitar o cerco. Os contra-ataques coordenados da Síria, do Iraque e da Jordânia impediram ganhos israelenses adicionais, que mesmo assim chegaram a 30 km de Damasco. No entanto, as forças árabes foram incapazes de expulsar os israelenses das posições situadas na retaguarda da saliência de Basã e sofreram pesadas perdas em seus confrontos com os israelenses. Em 20 de outubro, as forças árabes lançaram um novo ataque, perdendo 120 tanques.

Em 22 de outubro, a Brigada Golani e os comandos Sayeret Matkal recapturaram o posto avançado no Monte Hermon, após uma dura batalha que envolveu combate corpo a corpo e ataques de franco-atiradores sírios. Este ataque custou a vida de 55  e 79 feridos. Um número desconhecido de sírios também foi morto e alguns foram feitos prisioneiros. Uma força de pára-quedistas israelenses realizando um assalto aeromóvel tomou os postos avançados sírios no Monte Hermon. Sete MiGs e dois helicópteros sírios transportando reforços foram abatidos quando tentavam interceder.

A Força Aérea Síria atacou colunas israelenses, mas suas operações eram limitadas devido a superioridade aérea israelense, e também sofreram grandes perdas nos combates aéreos contra os pilotos israelenses. Em 23 de outubro, uma grande batalha aérea ocorreu perto de Damasco,  os israelenses abateram 10 aeronaves sírias. Com a destruição do sistema de defesa antimísseis da Síria, a FAI passou a atacar alvos estratégicos em toda a Síria, incluindo importantes usinas de energia, suprimentos de petróleo, pontes e estradas principais. Os ataques enfraqueceram o esforço de guerra da Síria, interromperam os esforços soviéticos de transporte aéreo de equipamento militar para a Síria e interromperam a vida normal dentro do país.

O fim da guerra nas Colinas de Golã

Os sírios estavam prepararam contra-ataque para expulsar as forças israelenses. Para tanto empenharam cinco divisões sírias, reforçadas pelas forças expedicionárias iraquianas e jordanianas. Os soviéticos substituíram a maioria das perdas que as forças blindadas da Síria sofreram durante as primeiras semanas da guerra. O dia D estava marcado para 23 de outubro.

Em 22 de outubro, ou seja, um dia antes do início da ofensiva árabe no Setor Norte, as Nações Unidas, com a concordância de Israel e do Egito, anunciaram um cessar-fogo. Tal fato deixou a liderança síria diante de uma decisão: prosseguir na luta ou aceitar o cessar-fogos. O cessar-fogo não incluiu os sírios, portanto Damasco tinha liberdade de ação, mas suas implicações não podiam ser ignoradas. Se os sírios não aceitassem, os egípcios se sentiriam obrigados a continuar lutando também. Neste caso, Israel destruiria o cercado 3º Terceiro Exército Egípcio, a infraestrutura da Síria e atacando Cairo e Damasco.

Em 23 de outubro, dia do início da ofensiva, a Síria anunciou que aceitava o cessar-fogo, em consequência, Jordânia, Iraque, além de outros países ordenaram que suas forças voltassem.

No entanto, mesmo após o cessar-fogo da ONU, houve constantes trocas de artilharia e escaramuças, e as forças israelenses continuaram a ocupar posições no território sírio. Os constantes ataques de artilharia da Síria e confrontos aéreos eram parte de uma guerra de desgaste deliberada destinada a paralisar a economia israelense e tinham como objetivo pressionar Israel a ceder o território ocupado.

Na primavera de 1974, os sírios tentaram retomar o cume do Monte Hermon. A luta durou mais de um mês e ocorreram pesadas baixas de ambos os lados, sem alteração no status quo e situação continuou assim até o Acordo de Desenganjamento de maio de 1974.

No fim da campanha, o Exército israelense avançou até 30 km de Damasco. Uma grande virada!!!

Por que Israel ganhou?

Vamos apontar algumas razões:

– A topografia, em grande parte da região favorecia a defesa, além disso as FDI preparam posições para os blindados, escavaram fossos anti-tanques, lançaram campo de minar e posições fortificadas para maximizar suas possibilidades;

– O alto nível do Estado-Maior israelense, sua capacidade de adaptação as mudanças constantes na situação e a flexibilidade no planejamento;

– A liderança, em todos os escalões, mas, principalmente, no campo de batalha, a capacidade de improvisação, de iniciativa e o alto nível de adestramento das FDI;

– A rápida mobilização das reservas e os depósitos de material completos em sua dotação de guerra;

– As Colinas de Golã são muito pequenas para atuar como uma zona tampão eficaz, ao contrário da Península do Sinai no sul, mas provaram ser uma fortaleza estratégica e foi uma região chave crucial para impedir que os sírios de bombardearem as cidades israelenses.

– A coordenação entre assaltos aeromóveis, unidades blindadas e mecanizadas, apoiadas pela artilharia de longo alcance, aviação de caça e helicópteros. Esta concepção tática será a base para a US Airland Battle Doctrine;

– Um ponto interessante foram as seguidas falhas do Mossad, não em coletar os dados, mas em realizar a análise e enviar a informação aos decisores a tempo, como aconteceram em vários momentos durante a guerra, nas duas frentes, e apesar disso, Israel conseguiu vencer.

– Com relação aos sírios constatou-se uma rigidez muito grande na execução do plano de campanha, o baixo nível de adestramento das tripulações de blindados que não foram capazes de explorar com eficiência os seus tanques e isso se estende aos pilotos de caças, a falta de liberdade tática e operacional dos comandantes de campo.

Imagem de Destaque: MBT Centuriom israelense

Quer saber mais sobre o assunto, leia o post sobre a mini-série Vale das Lágrimas

Quer saber mais sobre as Guerras no Século XX, leia o post sobre a Batalha de Tsushima (1905)

Bibliografia

AKER, Frank.  October 1973. The Arab-Israeli War. E-book edition. Hamdem (Conn.): Archon Book, 1985.

CHAIM, Herzog. A Guerra do Yom Kippur. Rio de Janeiro: Bibliex, 1977.

_____________. The War of Atonement: The Inside Story of the Yom Kippur War. London: Greenhill Books, 2003.

Sites consultados

– O’BRIEN, Browne. The Arab-Israele War of 1973: Honor, Oil and Blood. Disponível no sítio eletrônico: https://www.historynet.com/the-arab-israeli-war-of-1973-honor-oil-and-blood.htm. Consultado em 13/10/21.

– SIKMA, Brian. 4 lessons for leaders from the Heights of Courage. Disponnível no sítio eletrônico: https://medium.com/coffee-and-camouflage/4-lessons-for-leaders-from-the-heights-of-courage-1aaaaa71a6ca. Consultado em 13/10/21.

https://en.wikipedia.org/wiki/Yom_Kippur_War

https://en.wikipedia.org/wiki/Valley_of_Tears

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