Israelenses e Palestinos: vítimas de uma Guerra Híbrida

de

Dr. Márcio Pragana

Introdução

Quando o Hamas atacou Israel, no dia 07 de outubro de 2023, a primeira pergunta que me veio à mente foi: por quê?

Minha dúvida não estava relacionada aos motivos históricos, religiosos ou ideológicos, pois esses são amplamente conhecidos. Eu buscava uma resposta racional para o emprego de uma força predominantemente de infantaria irregular, contra um dos exércitos mais experientes do mundo, com efetivo cerca de 7,5 vezes maior, e com equipamentos e armamentos muito superiores em poder de combate e quantidade.

Analisando os acontecimentos, mesmo considerando que poderia haver motivos internos aos palestinos para levar ao ataque, como disputa de poder entre grupos extremistas da região, concluí que a ação do Hamas não fazia sentido isoladamente, mas como parte de algo maior. Não seria racional que o Hamas se lançasse contra civis, em Israel, e depois fugisse ou fosse destruído pelas tropas israelenses. Tampouco faria sentido atrair a fúria de Israel contra os palestinos na Faixa de Gaza, em troca de civis israelenses mortos, e mais nada. Faltavam peças nesse quebra-cabeça.

Dias antes do ataque do Hamas a Israel, os Estados Unidos da América (EUA) vinham intermediando um acordo entre Arábia Saudita e Israel. Ao que tudo indica, a Arábia Saudita passaria a reconhecer o Estado de Israel em troca de um acordo de segurança com os EUA. Isso reforçaria a posição de Israel, contribuindo para legitimar sua condição de Estado junto aos demais Estados muçulmanos.

Esse acordo, entre Arábia Saudita e Israel, caso consumado, seria um duro golpe nas pretensões iranianas. A República Islâmica do Irã não reconhece o Estado de Israel, apoia a causa palestina integralmente e deseja a destruição do Estado judeu¹. Além disso, o Irã apoia diversos grupos extremistas muçulmanos, pelo fornecimento de dinheiro, treinamento, armamentos e equipamentos. Dentre esses grupos, encontram-se o xiita Hezbollah e o sunita Hamas.

O ataque do Hamas a Israel teve o efeito imediato de paralisar as negociações entre Arábia Saudita e Israel, contribuindo com os objetivos do Estado iraniano. As peças começavam a se encaixar. As evidências indicam que as ações do Hamas favoreceram seu patrocinador, o Irã, caracterizando o seu emprego como proxy em uma guerra híbrida conduzida pelos iranianos. Mas o que é um proxy? O que é uma guerra híbrida?

Origens da Guerra Híbrida

O que se chama vulgarmente de Guerra Híbrida é um conceito que varia conforme o entendimento de cada Estado. Tampouco é algo novo. Na verdade, quando se encontra o assunto nas mídias, trata-se de algo muito antigo, utilizado sob uma nova roupagem.

Também não devemos confundir Guerra Híbrida com ameaças híbridas. Guerra Híbrida é o emprego sistematizado, lógico, das ameaças híbridas. Portanto, entender as ameaças híbridas, por si só, não garante o entendimento necessário para traçar defesas contra seu emprego sistematizado – a Guerra Híbrida. Quem focar nas ameaças, ao invés da sistematização de seu emprego, estará sujeito a se tornar meramente reativo, assim como ter o seu ciclo decisório comprometido. Por outro lado, ao se compreender como se empregam tais ameaças metodicamente, torna-se possível traçar estratégias visando evitar, ou mitigar, as ações de Guerra Híbrida contra si.

Tendo em vista as diferentes denominações, vamos considerar a expressão “Guerra Híbrida” para designar, genericamente, as ações hostis, realizadas por um Estado, uma organização ou um grupo, contra um outro ator, estatal ou não, utilizando-se de todos os meios disponíveis, e não apenas os meios militares, de forma encoberta. Em breve, expandiremos esse conceito, para o seu entendimento amplo.

Realizar atos hostis contra um determinado alvo, de forma encoberta, não é novidade. No clássico “A Arte da Guerra”, escrito por Sun Tzu, seu suposto autor afirma que “…a glória suprema consiste em quebrar a resistência do inimigo sem lutar…” (TZU, p.25), mostrando que se deveria conhecer profundamente o inimigo para poder vencê-lo pelo uso da diplomacia, da propaganda, do suborno ou por meios mais obscuros.  

Outros exemplos desse tipo de ação podem ser encontrados em registros com mais de dois mil anos na Índia, assim como na história da República Fiorentina do século XIV. Também há exemplos na Segunda Guerra Mundial, nas ações dos EUA contra a Nicarágua, em 1979, na anexação da Criméia pelos russos, em 2014, e em outras tantas situações.

Em 1999, dois coronéis chineses escreveram um livro inovador cujo título foi traduzido, para nossa língua, como “Guerra Irrestrita”. Esse título, ao contrário do que pode nos fazer pensar, não significa que a guerra perdera seus limites.

Os autores procuram mostrar que a evolução tecnológica fez com que as armas alcançassem tamanho poder de destruição, particularmente com o advento da arma nuclear, que foi necessário retroceder e investir em tecnologias de menor poder destrutivo, reservando o papel de dissuasão ao armamento nuclear (LIANG e XIANGSUI, 2017, p.26). Além disso, o avanço das tecnologias de comunicação permitiu que as cenas de guerra, antes restritas aos campos de batalha, pudessem alcançar as massas rapidamente, por vezes em tempo real.

Expor o sofrimento do campo de batalha ao cidadão comum tem o efeito de mover a opinião pública, nacional ou internacional, contra os conflitos e contra quem os causou. Assim, qualquer governante, que insistisse em fazer uso de guerras, estaria condenado a pagar um alto preço político. Fazer a guerra abertamente, portanto, havia deixado de ser algo interessante politicamente.

O ponto de vista dos autores chineses era de que a guerra deveria romper com os limites da guerra convencional, porém mantendo limites racionais. Esse rompimento, em sua visão, ocorreria por meio de combinação dos diversos recursos ao alcance do Estado. Desta forma, o Estado poderia desencadear suas ações contra seus alvos minimizando as chances de reações contrárias para si.

Outros fatores surgiram para dificultar mais ainda a condução de guerras abertamente. A globalização econômica, onde uma economia nacional, ao ser atingida por um conflito, gera reverberação negativa na economia de outros Estados; o advento do Direito Internacional, onde se passa pelas limitações à guerra impostas pelo pacto da Liga das Nações² e pelo pacto Briand-Kellog³, em 1928, chegando até a Carta das Nações Unidas, em 19454; o desequilíbrio de poderes militares entre Estados, que impede que um Estado militarmente mais fraco atinja o Estado militarmente mais forte sem consequências; e a posse de armas nucleares, as armas de dissuasão por excelência.

Modelo do Iceberg

Em meu artigo “A Terceira Guerra Mundial já começou – e nós nem percebemos”5, procuro mostrar que a quantidade de ações hostis declaradas abertamente, entre Estados, vem diminuindo, em detrimento de uma tendência crescente às ações hostis não declaradas. Como em um Iceberg (figura 1), as ações hostis vêm ocorrendo de forma encoberta, abaixo do nível da percepção do cidadão comum (“nível da água”), enquanto as ações declaradas, aquelas que escapam ao controle por algum motivo, surgem acima do nível da percepção.

Esse nível de percepção do cidadão comum é denominado “nível de aceitabilidade da reação armada”. Isso significa que, em tese, as ações hostis encobertas podem ocorrer sem reações armadas, por parte de quem sofre tais ações, enquanto tal nível não for atingido.

Fig. 1 – Modelo do Iceberg.
Fonte: autor

Outro aspecto importante é que cada Estado possui seu próprio limiar de aceitabilidade da reação armada. Um exemplo hipotético desse limiar seria a guerra, ora em andamento, na Ucrânia. Vamos considerar que os EUA e a Rússia venham se atingindo, há décadas, com ações hostis não declaradas, em diferentes domínios: diplomático, informacional, cibernético, econômico etc. Quando uma ou mais dessas ações – vamos considerar a expansão da OTAN para o leste – são consideradas como inaceitáveis para a Rússia, ela se vê obrigada a reagir militarmente. Nesse momento, as ações encobertas de um ator atingem o limiar de aceitabilidade armada do outro ator, rompendo a superfície e dando origem a ações hostis declaradas – a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Ações Hostis não declaradas

Às diferentes formas de ações hostis não declaradas, que ocorrem abaixo do limiar de aceitabilidade da reação armada, proponho que denominemos “Guerra Híbrida”. Também propomos um modelo para mostrar, teoricamente, como pode funcionar, sistematicamente, a Guerra Híbrida (figura 2). Trata-se de uma concepção nacional, própria, que engloba as diferentes práticas e teorias sobre o tema. O modelo serve para que possamos entender esse fenômeno de forma ampla e, assim, sermos capazes de traçar estratégias de defesa contra esse tipo de ameaça.

Fig. 2 – Modelo conceitual de Guerra Híbrida.
Fonte: autor

Resumidamente, a lógica do modelo conceitual se inicia com o Estado “A”, que precisa alcançar seus objetivos políticos e estratégicos. Para tal, precisa atingir o Estado “B”. Como “A” não pode atacar “B” diretamente, terá de aplicar ações hostis não declaradas. Desta forma, “A” deverá estudar as vulnerabilidades de “B”, partindo desde seus aspectos culturais até seus aspectos geopolíticos e econômicos. O ambiente onde “B” se encontra também deverá ser estudado, para que se encontrem pontos a explorar.

Uma vez encontradas as vulnerabilidades de “B”, pode-se identificar em qual domínio essas vulnerabilidades se encontram: legal, diplomático, econômico etc. Uma vez identificados os domínios, buscam-se os instrumentos adequados a cada domínio, para que se possa ter resultados eficazes contra as vulnerabilidades de “B”: guerra jurídica, campanhas informacionais etc.

Para entender detalhadamente sobre os domínios e os instrumentos, aqui exemplificados na figura 2, sugere-se consultar meu artigo, já mencionado, que detalha esse modelo.

Um ponto importante, sobre o emprego dos instrumentos híbridos, é que se pode perder o controle das ações, principalmente quando se utilizando a guerra por procuração (proxy) ou a Revolução Colorida, levando a resultados inesperados ou indesejados.

O modelo conceitual proposto busca aproveitar conceitos existentes nas ideias da obra “Guerra Irrestrita”, já mencionado; na Guerra Política6, como proposto por George Kennan em 1948; assim como na Gibridnaia Voina, ou Guerra Híbrida, empregada inicialmente pelos soviéticos e, hoje, pelos russos (FRIDMAN, p.70 a 72 ).

A Guerra Híbrida na Palestina

Há diversos aspectos relacionados à Guerra Híbrida que podem ser encontrados no Oriente Médio, particularmente na região da Palestina.

O Irã e a Arábia Saudita, os dois Estados que lideram as duas principais vertentes do Islã, o sunismo e o xiismo, disputam a liderança do mundo islâmico e, também a liderança regional no Oriente Médio.

O Irã, na qualidade de república islâmica, tem suas leis e governo guiados pelo livro sagrado dos muçulmanos, o Corão, inclusive com os seus três poderes (Legislativo, Executivo, Judiciário) supervisionados por autoridades religiosas7. Essa república nasceu da Revolução Islâmica, em 1979, liderada pelo Aiatolá Khomeini. O Aiatolá, que seria descendente direto do profeta Maomé (PARHAM; TAUBMANN, 2009, p.115), expressou seu desejo de que Israel fosse erradicado do mapa (IRAN INTERNATIONAL, 2020). A própria formação do Hezbollah libanês ocorreu por ordem de Khomeini, em 1982 (PARHAM; TAUBMANN, 2009, p.48 e 49).

Já o Reino da Arábia Saudita é o local de nascimento do profeta Maomé e abriga os dois locais considerados como mais sagrados pelos muçulmanos. Ele foi fundado em 1932 pelo rei Abdulaziz, tendo se aproximado dos EUA por interesses econômicos e de defesa. Seu governo é uma monarquia absolutista, com seu sistema de leis baseado na sharia8 e em alguns códigos seculares (CENTRAL INTELLIGENCE AGENCY, 2023). Ao contrário do Irã, não possui uma autoridade religiosa acima da autoridade secular.

Durante a criação do Estado de Israel, em 1948, os países muçulmanos tomaram partido em favor dos palestinos, inclusive Irã e Arábia Saudita, enquanto os EUA passaram a apoiar Israel. Isso levou a guerras e tensões constantes na região.  O Irã, conforme já exposto, assumiu uma postura abertamente radical contra o Estado de Israel, buscando sua destruição.

O Irã, porém, nunca teve poder militar suficiente para tomar uma postura bélica direta contra Israel, tampouco contra os EUA, cujos poderes econômico e militar são em muito superiores. Assim, a única forma de tentar algo contra esses dois Estados seria pela via indireta, utilizando-se de outros recursos que não exclusivamente o militar.

Para o Irã, portanto, não é desejável um enfrentamento direto com os EUA. É nesse contexto que o Irã elabora sua estratégia de Defesa em Mosaico. Essa estratégia utiliza meios não convencionais e possui uma vertente ofensiva, incluindo a dimensão política, assim como uma dimensão defensiva (PARSI, 2021).

Um dos instrumentos utilizados pelo Irã, em sua estratégia híbrida de defesa, é a guerra por procuração, ou guerra proxy. A guerra por procuração é a utilização de terceiros para atingir os seus propósitos – no caso, lutar as suas guerras em seu lugar. A vantagem do uso de proxies é que se torna um desafio atribuir a culpa ao seu patrocinador, assim como as perdas são todas terceirizadas.

Ao longo dos anos, o Irã foi desenvolvendo o que se pode considerar como seus proxies. Ele apoia esses grupos geralmente sob a forma de recursos econômicos, armamento, equipamento e treinamento. O primeiro deles, o Hezbollah, foi criado em 1982, opera no Líbano, e é uma organização híbrida: atua como partido político, como força militar paralela ao exército libanês e como entidade de assistência social aos libaneses. Outro proxy é o Hamas, grupo paramilitar palestino que atua, com ações de terrorismo, contra Israel. Na mesma região, atua o grupo Jihad Islâmica, de características semelhantes ao Hamas.

Outro proxy relevante são os Houthis, ou Hutis, no Iêmen. Apoiados pelo Irã, esse grupo paramilitar tomou a capital do Iêmen, Sana, em 2014. Depois de resistir a uma coalizão liderada pela Arábia Saudita, os Hutis controlam grande parte do norte do Iêmen.

O arsenal dos Hutis inclui mísseis anticarro, minas marítimas, veículos aéreos não tripulados (aéreos e marítimos), lançadores múltiplos de foguetes, mísseis antiaéreos portáteis, foguetes e mísseis, alguns com alcance de cerca de 1.200 milhas9 (cerca de 2.000 quilômetros) de alcance. Segundo a mídia especializada10, esse armamento é fornecido pelo Irã, incluindo mísseis desenvolvidos pelos próprios Hutis, com apoio dos persas. Desta forma, além de proxy do Irã, os Hutis servem como laboratório para testes reais dos armamentos desenvolvidos pelo Estado xiita.

É nesse contexto que os Hutis alegam ter lançado, em 18 de outubro, um ataque de drones e mísseis contra Israel, que teriam sido interceptados por navios da marinha dos EUA no Mar Vermelho11.  

Em 2020, foram assinados uma série de acordos, chamados Acordos de Abraão, para normalizar as relações entre Israel e diversos Estados muçulmanos, como Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Marrocos. Isso gerou especulações de que tais acordos pudessem reduzir as pressões políticas a favor dos palestinos12.

Portanto, quando os EUA conseguem intermediar um acordo de paz13 entre Arábia Saudita e Israel, em troca de garantias de defesa estadunidense ao reino saudita, surge uma nova ameaça às pretensões iranianas contra Israel. O “Grande Satã”, conforme os EUA foram chamados por Khomeini (IRAN PORTAL DATA, 2023), estariam dividindo o povo muçulmano quanto à questão da existência do Estado judeu, assim como enfraquecendo as pressões políticas, contra Israel, em favor dos palestinos. Faz sentido, portanto, que o Irã tomasse alguma atitude, principalmente de forma indireta.

Assim, retornando à questão original que deu origem a este artigo, mencionada nos três primeiros parágrafos, passa a fazer sentido que a ação do Hamas, longe de uma ação isolada, tenha feito parte de uma estratégia iraniana.

Um resultado marcante dessa ação foi a paralização do processo de acordo de paz entre Arábia Saudita e Israel, o que seria desejável ao Irã. Além disso, a situação forçaria a Arábia Saudita a se posicionar, colocando-a em um dilema: apoiar os palestinos, ficando bem aos olhos dos Estados muçulmanos; ou condenar o ataque do Hamas, ferindo a legitimidade de sua busca pela liderança regional e dos muçulmanos.

Na dimensão informacional, o Hamas pode explorar a ofensiva israelense em Gaza, uma vez que o combate terá de ser travado dentro de cidades. O combate urbano, um dos maiores desafios militares para as tropas terrestres, costuma causar considerável destruição e efeitos colaterais, principalmente quanto a baixas civis.

Assim, além do choque causado na opinião pública, com a respectiva divulgação mundial de sua causa pelo uso do instrumento “terrorismo”, o Hamas poderá utilizar as diversas redes sociais para divulgar imagens do conflito urbano. Esse uso das redes sociais, como instrumento de Guerra Híbrida, pode ser útil para divulgar a sua causa; para transformar simpatizantes em combatentes, pelo recrutamento; e para atrair a opinião pública a seu favor, utilizando-se da questão humanitária envolvida, dentre outros aspectos. Portanto, quando Israel, direta ou indiretamente, interrompe os serviços de telefonia celular e de internet em Gaza14, está agindo para se contrapor a essa vantagem que pode ser explorada pelo Hamas.

Na dimensão política, o Irã vem criando desafios para Israel e para os EUA, sem que sua atuação esteja ostensivamente clara. Isso favorece os seus objetivos políticos, particularmente o de destruir o Estado judeu e atingir os EUA, mas também favorece outros atores internacionais, como Rússia e China.

A Rússia defende o advento de um mundo multipolar, onde, em tese, os Estados possam se relacionar e negociar livremente, sem estar sob o jugo de uma única potência. Assim, qualquer ação que enfraqueça os EUA, os quais incorporavam a unipolaridade entre 2003 e 2011 (KORYBKO, 2015, p.19), será benéfica ao objetivo político da multipolaridade. Além disso, o envolvimento dos EUA no conflito do Oriente Médio divide suas atenções quanto ao conflito na Ucrânia, criando um desafio adicional e consumindo recursos materiais, humanos e econômicos que poderiam ser utilizados em prol do esforço de guerra ucraniano.

Portanto, é normal que Alexander Dugin, considerado como o Rasputin do século XXI e suposto mentor do presidente russo, Vladimir Putin, declare apoio aos palestinos e incite os demais países muçulmanos a se juntarem à causa palestina15. Na verdade, Dugin, busca o enfraquecimento dos EUA, ainda que o faça por meio do enfraquecimento de Israel, e não necessariamente estaria buscando ajudar os palestinos. A questão palestina, nesse caso, seria apenas um meio para que ele possa atingir seu propósito.

A China é outro ator que tira proveito do envolvimento dos EUA no conflito entre Israel e palestinos. Israel é o ponto de apoio geopolítico dos EUA no Oriente Médio. Se Israel desaparecer, a região passará a ser dominada pelo Islã, e a disputa por influência e liderança passará a ocorrer, possivelmente, entre Irã e Arábia Saudita. Isso poderia significar a redução da resistência ao aumento da influência chinesa na região. Portanto, ainda que a China não esteja envolvida diretamente na questão palestina, alguns fatos indicam que ela esteja atuando, nos domínios diplomático e informacional, para enfraquecer Israel e os EUA no Oriente Médio.

No domínio diplomático, podemos constatar que a China vem ganhando protagonismo na região, principalmente após intermediar a reconciliação entre Arábia Saudita e Irã, em março de 2023, e afirmar o apoio aos assuntos de interesse do Irã, como o desenvolvimento de seu programa nuclear16. Na prática, isso mostra ganho de influência local pela China, com a respectiva perda de espaço por outros atores, particularmente os EUA.

No domínio informacional, pode-se constatar que o sítio para buscas “Baidu.com”, utilizado pelos chineses, não mostra o nome de Israel em seu mapa. Trata-se de um sítio de buscas criado pelos chineses e que funciona na internet sob o controle do governo chinês, assim como todo o conteúdo de internet disponível na China. Esses sítios existem porque os equivalentes ocidentais, como os aplicativos do Google, incluindo o Google Earth, não funcionam na China.

Fig. 3 – Site Baidu.com17 .
Fonte: autor

Acessando o sítio Baidu.com, nos mapas, e digitando o nome de “Israel” no local para busca de lugares, em mandarim tradicional, conforme mostrado no canto superior esquerdo da figura 3, aparecem diversos nomes de Estados locais, incluindo a ilha de Chipre. O mapa é automaticamente centralizado na região onde se localiza Israel, mas seu nome não aparece.

Por outro lado, o Ministério de Relações Exteriores da China reafirma o reconhecimento do Estado de Israel, inclusive citando o Estado judeu em sua página oficial18, incluindo uma seção específica para tratar das Relações China-Israel19, que aparecem como normais e amistosas.

Essa incoerência entre o que diz o Ministério das Relações Exteriores da China, que reconhece Israel, e o que mostra o sítio Baidu, que omite o nome do Estado judeu e é supervisionado pelo governo chinês, pode ter ocorrido de forma involuntária, por um erro no gerenciamento do sítio de buscas. Porém, pode também se tratar de uma manobra para atuar no domínio cognitivo de quem acesse esse sítio, induzindo à ideia de que a China não reconhece Israel ou que o Estado e Israel não exista oficialmente. Nesse caso, a opinião pública chinesa, principalmente, poderia estar sendo manipulada contra Israel.

O uso da geopolítica também se faz presente como instrumento de guerra híbrida na Palestina. Essa região é o que Saul Cohen classifica como Shatterbelt, que são “regiões dilaceradas por conflitos internos, cuja fragmentação é aumentada por intervenção de potências externas” (COHEN, 2015, p.25 e 733).

As divisões internas relacionadas a religião, etnias, secularistas e fundamentalistas, dentre outras, contribui para que a integração regional se torne um imenso desafio. Na verdade, pode ser de interesse de algumas potências que a região se mantenha fragmentada, tendo em vista ser mais fácil, dessa forma, obter vantagens competitivas, junto aos governos locais, para a exploração de recursos existentes, como petróleo e gás. Portanto, disputas de poder pela região, por Estados extra regionais, poderão envolver a exploração dessas diferenças, caracterizando uma forma híbrida para obter e consolidar poder.

Quanto ao domínio cibernético, o Irã já foi vítima, assim como também é capaz de aplicar ações cibernéticas contra seus adversários.

Uma das ações contra o Irã foi o episódio conhecido como “Stuxnet”, onde um vírus de computador teria causado a aceleração exagerada de centrífugas nucleares iranianas, danificando-as e paralisando o programa nuclear iraniano, em 2010. Outro episódio, mais recente, ocorreu em 2021, quando as vendas de combustíveis foram interrompidas, em todo o Irã, devido a um ataque cibernético que desabilitou o sistema iraniano para o uso de cartões, emitidos pelo governo, para a compra subsidiada de combustíveis.20

Quanto à capacidade de realizar ataques cibernéticos, as ações iranianas teriam evoluído de atividades anônimas de roubo de informações para formas mais sofisticadas, como ações para uma tentativa de sequestro e ações voltadas à desestabilização de das relações entre Arábia Saudita e Israel21.

Quanto ao domínio legal, o instrumento utilizado tem sido a guerra jurídica (“lawfare”), particularmente o uso da Organização das Nações Unidas. Isso não é novidade, pois ocorreu diversas vezes no passado.

O Conselho de Segurança da ONU é o órgão responsável por decidir sobre o emprego da força em prol das decisões da referida organização. Ele possui cinco membros permanentes, com poder de veto para as propostas das resoluções. Isso faz com que o emprego da força sempre atenda aos interesses desse seleto grupo. Assim, basta que um dos membros permanentes vete uma proposta de resolução da ONU, sobre emprego da força em prol da paz, para que a organização fique de mãos atadas.

O uso do Conselho de Segurança por esse “grupo VIP”, em seu próprio interesse e desconsiderando os interesses da maioria, vem causando desgaste à própria existência da ONU, fazendo com que ela perca credibilidade e legitimidade em suas ações. Recentemente, o diretor do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Craig Mokhiber, pediu demissão pela incapacidade da organização em atuar no conflito entre Israel e palestinos22.

O uso político do Conselho de Segurança da ONU pode ser enquadrado no conceito de Guerra Centrada em Redes, conforme definido por Alexander Dugin23. Segundo ele, a Guerra Centrada em Redes opera na dimensão informacional. De acordo com Dugin, é um risco aderir a redes sobre a qual não se tenha controle. Uma vez que se passa a participar de uma rede, coloca-se seus recursos para trabalhar em prol dessa rede, perdendo-se o controle de seu uso. Assim, outros utilizarão seus recursos sem que você tenha controle sobre eles, mesmo que seu uso ocorra contra os interesses de quem cedeu os recursos (FRIDMAN, p.77-80). Um exemplo seria a ONU, onde 193 países colocam tropas e outros recursos à disposição da organização, e que acabam sendo manobrados para atender ao interesse de 5 membros permanentes do Conselho de Segurança.

Conclusão

Atualmente, fazer a guerra tem elevado custo político. Por isso, apesar de pouco conhecida e pouco difundida (talvez intencionalmente), a chamada Guerra Híbrida vem ganhando espaço em detrimento dos conflitos abertos. Ela também serve como instrumento para que um Estado mais fraco tome ações contra um Estado mais forte, servindo para amenizar a diferença relativa de poder entre eles, assim como para desbordar os obstáculos para a realização de ações hostis.

O Oriente Médio se configura como um local de tensões latentes, que tem alternado momentos históricos de integração temporária e divisões. Além disso, devido à sua localização estratégica e aos recursos lá existentes, vem sendo palco de disputas, por parte de potências extra regionais. Nesse contexto, fomentar as divisões regionais facilita que essas potências expandam sua influência sobre a região, uma vez que as disputas internas geram oportunidades para que as potências extra regionais estendam suas mãos “para ajudar”. Mas nada é de graça.

O emprego, cada vez mais eficientes, de meios híbridos por Irã, China, Rússia e os próprios EUA, apontam na direção de uma repolarização mundial. Talvez, por estarmos em meio a esse processo de multipolarização, estejamos presenciando disputas regionais – Palestina, Ucrânia – até que os polos de poder estejam definidos e, possivelmente, voltemos a vivenciar o frágil equilíbrio de uma nova Guerra Fria.

Israelenses e Palestinos são alvos de interesses externos à região. O ataque do Hamas, em 7 de outubro, não aparenta ter um fim em si próprio, mas parece atender a interesses de terceiros – no caso, o Irã. Por outro lado, Israel se torna alvo também do interesse de China e Rússia, uma vez que um ataque direto a Israel pode significar um ataque indireto aos EUA.

Os palestinos são vítimas, igualmente, dessa Guerra Híbrida. Uma organização como a ONU, que deveria zelar pela paz e segurança internacionais, encontra-se de mãos atadas pelo interesse dos membros permanentes do seu Conselho de Segurança. Assim, quando um desses membros veta qualquer proposta de resolução em favor da paz, torna-se solidariamente responsável pelas consequências. Porém, quem sofre as consequências, via de regra, é a população civil, em ambos os lados do conflito.

As ações de Guerra Híbrida devem continuar a desestabilizar a região, infelizmente. Enquanto o diálogo não substituir as certezas inflexíveis de judeus e de muçulmanos, dificilmente haverá integração e paz na região da Palestina.

Talvez fosse o momento do BRICS se consolidar como organização política, e não apenas econômica,24 e buscar uma posição de protagonismo global, preenchendo o vácuo deixado pela ONU. Isso poderia ocorrer por meio de intermediação do conflito, seguido de um processo de paz onde uma nova autoridade palestina, legítima, pudesse dialogar com Israel. O BRICS poderia, também, coordenar a presença de uma força multinacional, constituída por tropas de Estados muçulmanos, na região da Palestina, particularmente na Faixa de Gaza. Os grupos armados, como o Hamas, deveriam passar por um processo semelhante ao chamado DDR (desarmamento, desmobilização e reintegração), utilizado pela ONU. Esses grupos poderiam prosseguir com seus pleitos, mas na forma de partidos políticos. Além disso, o surgimento do BRICS, como protagonista político, pode acabar por forçar a ONU a rever a sua forma de funcionamento, particularmente de seu Conselho de Segurança, tornando-a uma organização mais eficiente e confiável.

Por mais que possamos sugerir soluções, sempre haverá interesses contrários à paz. Enquanto judeus e palestinos não assumirem a convicção de que são irmãos, descendentes de Abraão e crentes no mesmo Deus, e que são vítimas dos interesses de terceiros, eles continuarão a ser manipulados, como peões, no tabuleiro geopolítico da Guerra Híbrida.

Notas

1 Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2019/11/15/interna_internacional,1101376/ira-deseja-desaparecimento-de-israel-nao-do-povo-judeu-afirma-khamen.shtml. Acesso em: 1 nov 2023.

2 Com esse pacto, buscava-se que a guerra se tornasse um assunto meramente jurídico.

3 Também conhecido como Tratado de Renúncia à Guerra em Paris.

4 Em seu § 4, ela prescreve que “todos os membros deverão evitar em suas relações internacionais a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a dependência política de qualquer Estado, ou qualquer outra ação incompatível com os Propósitos das Nações Unidas” (ONU, )

5 Disponível em: https://www.marinha.mil.br/egn/sites/www.marinha.mil.br.egn/files/Artigo%20-%20A%20Terceira%20Guerra%20Mundial%20j%C3%A1%20come%C3%A7ou%20-%20CMG%20%28RM1-FN%29%20PRAGANA.pdf

6 “Political Warfare is the employment of all the means at a nation’s command, short of war, to achieve its national objectives.” (UNITED STATES OF AMERICA, 2023)

7 Artigo 57 da Constituição da República Islâmica do Irã. Disponível em https://brazil.mfa.gov.ir/pt/generalcategoryservices/11668 . Acesso em 31 out 2023.

8 Sistema legal islâmico

9 Disponível em: https://www.nytimes.com/2023/10/31/world/middleeast/yemen-houthi-militia-israel.html. Acesso em: 1 nov 2023.

10 Disponível em: https://www.csis.org/analysis/iranian-and-houthi-war-against-saudi-arabia . Acesso em 1 nov 2023.

11 Disponível em: https://www.jpost.com/middle-east/article-771066. Acesso em 1 nov 2023.

12 Disponível em: https://www.britannica.com/topic/Abraham-Accords. Acesso em: 31 out 2023.

13 Disponível em: https://www.reuters.com/world/us-saudi-defence-pact-tied-israel-deal-palestinian-demands-put-aside-2023-09-29/. Acesso em: 31 out 2023.

14 Disponível em: https://noticias.r7.com/internacional/corte-conexao-telefone-internet-gaza-01112023. Acesso em: 1 nov 2023.

15 Disponível em: https://twitter.com/Agdchan/status/1710607550326943989. Acesso em 1 nov 2023.

16 Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2023/8/21/china-brokered-saudi-iran-deal-driving-wave-of-reconciliation-says-wang. Acesso em 1 nov 2023.

17 Disponível em: https://map.baidu.com/search/%E4%BB%A5%E8%89%B2%E5%88%97/@4035688.7334237983,3639799.1180762965,7.52z?querytype=s&da_src=shareurl&wd=%E4%BB%A5%E8%89%B2%E5%88%97&c=70102&src=0&pn=0&sug=0&l=6&b=(-1917215.2200000049,359513.36999999546;8568544.779999996,5745753.369999995)&from=webmap&biz_forward=%7B%22scaler%22:1,%22styles%22:%22pl%22%7D&device_ratio=1 .Acesso em: 1 nov 2023.

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21 Disponível em: https://www.atlanticcouncil.org/blogs/iransource/iran-cyber-warfare-kidnappings/. Acesso em : 1 nov 2023.

22 Disponível em: https://sputniknewsbr.com.br/20231031/genocidio-em-gaza-diretor-do-alto-comissariado-da-onu-para-direitos-humanos-pede-demissao-31182685.html . Acesso em 1 nov 2023.

23 O conceito de Guerra Centrada em Redes, para Dugin, difere do conceito vigente no ocidente, o qual considera o emprego de meios tecnológicos para integrar sistemas e para criar sinergia na resposta militar. Enquanto o ocidente considera as redes ao nível tático e operacional, Dugin enxerga as redes como algo mais amplo, que envolve instituições dos níveis político e estratégico.

24 Disponível em: https://www.gov.br/planalto/pt-br/assuntos/reuniao-do-brics/historia-do-brics. Acesso em: 1 nov 2023.

Autor

Capitão de Mar e Guerra (RM1-FN), Mestre e Doutor em Ciências Navais pela Escola de Guerra Naval. (mestrado e doutorado profissionais)

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