Quanto mais cedo os ex-amigos dos EUA perceberem que a velha ordem global acabou, mais cedo eles podem se organizar para recuperar o poder – a única linguagem que Trump entende
A ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos trouxe consigo uma nova abordagem à política externa, marcada por transações, pragmatismo e a rejeição de conceitos tradicionais como “soft power”. É o que diz a colunista do The Guardian, Nesrine Malik. Para ela, enquanto muitos ainda relutam em atribuir coerência às ações de Trump, uma doutrina clara está emergindo, especialmente no que diz respeito às relações internacionais.
A Doutrina Trump: Transação, Financeirização e Rejeição do Soft Power
A política externa de Trump é guiada por três características principais:
- Transacionalidade: Para Trump, conflitos e alianças não têm história ou moralidade intrínseca. Tudo se resume a negociações imediatas, onde o objetivo é encerrar disputas enquanto extrai benefícios tangíveis para os EUA. Na Ucrânia, por exemplo, Trump propôs compensar a assistência americana com direitos sobre minerais ucranianos, tratando o conflito como uma empresa em dificuldades a ser reestruturada.
- Financeirização: Trump reduz a política a números. Ele avalia conflitos e assistência internacional com base no custo-benefício, buscando maximizar o retorno para os EUA. Essa abordagem é evidente em sua visão sobre a guerra em Gaza, onde ele vê oportunidades para negócios imobiliários, em vez de uma crise humanitária.
- Rejeição do Soft Power: Para Trump, o conceito de soft power — a capacidade de influenciar outros países por meio de cultura, valores e diplomacia — é um mito caro e ineficaz. Ele vê as intervenções dos EUA em Gaza e na Ucrânia como atoleiros, onde os recursos americanos foram desperdiçados sem resultados concretos.
Essa doutrina, embora muitas vezes expressa de maneira desorganizada e narcisista, reflete uma consistência subjacente: Trump está determinado a redefinir o papel dos EUA no mundo, priorizando interesses materiais imediatos em detrimento de alianças históricas e valores compartilhados.
O Impacto na Europa e nos Aliados Tradicionais
A abordagem de Trump deixou os aliados europeus em uma posição desconfortável. Acostumados a uma relação baseada em valores comuns e compromissos de segurança, os países europeus agora se veem tratados como parceiros menores, cujas preocupações são irrelevantes. A exclusão da Europa das negociações sobre a Ucrânia e a insistência de Trump em encerrar conflitos em seus próprios termos são exemplos claros dessa mudança.
Para a Europa, há duas opções:
- Aceitar a Subordinação: Abandonar noções de solidariedade europeia e aceitar um papel secundário na ordem global, com vulnerabilidades de defesa e dependência política dos EUA.
- Mapear um Novo Poder: Embarcar em um esforço coordenado para construir uma alternativa à liderança americana, demonstrando que a Europa pode agir como um bloco coeso e desafiador.
A segunda opção exigiria uma transformação rápida e profunda, com investimentos maciços em defesa, diplomacia e integração política. No entanto, a Europa parece relutante em enfrentar essa realidade, preferindo acreditar que Trump pode ser “gerenciado” ou que a antiga ordem pode ser restaurada.
A Ilusão da Reconciliação
Muitos líderes europeus ainda esperam que Trump possa ser persuadido a reconsiderar suas posições. Keir Starmer, líder do Partido Trabalhista britânico, é frequentemente visto como uma possível “ponte transatlântica” que poderia mediar entre os EUA e a Europa. No entanto, essa visão pressupõe que Trump compartilha noções tradicionais de julgamento histórico e fraqueza, o que não é o caso.
Trump opera em um sistema de valores diferente, onde conceitos como “apaziguamento” e “capitulação” não se aplicam. Para ele, a força é medida em termos financeiros e estratégicos, não morais. Tentar apelar para seu ego ou convencê-lo de que ceder a Putin o faz parecer fraco é um exercício fútil.
Um Novo Mundo em Formação
A doutrina Trump representa o fim da ordem global pós-Segunda Guerra Mundial, baseada em alianças estáveis, valores compartilhados e soft power. Em seu lugar, emerge um mundo mais fragmentado e transacional, onde os EUA priorizam seus interesses imediatos acima de tudo.
Para os aliados tradicionais dos EUA, como a Europa, o desafio é aceitar que as estradas de volta ao passado estão fechadas. A única maneira de evitar que o novo mundo seja moldado inteiramente nos termos de Trump é agir com rapidez e determinação, construindo uma alternativa viável à liderança americana.
Enquanto muitos ainda esperam que Trump “não queira dizer o que diz”, a realidade é que sua doutrina está em pleno efeito. Quanto mais cedo os líderes políticos aceitarem isso, maior será a chance de moldar um futuro que não seja inteiramente definido por Trump. O mundo como o conhecemos acabou — e o novo está apenas começando.
Conteúdo original: https://www.theguardian.com/commentisfree/2025/feb/24/donald-trump-doctrine-usa-reshape-the-world