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Para além o sigilo das fontes: como fazer uma História da Espionagem

Prof. Dr. Thiago da Silva Pacheco

Como fazer uma História da Espionagem se estas atividades são secretas? Como ter acesso a fontes?

Esta é uma pergunta interessante. E que eventualmente ouço em minhas palestras e aulas.

Ora, o historiador (ou cientista político, ou sociólogo, etc) nunca terá acesso às atividades atuais de qualquer Agência que seja. Se tiver, é porque se trata de um militar, agente ou oficial a serviço de um órgão desta natureza. Neste caso, se valer desta posição para analisá-las fora do processo interno de Inteligência é antiético. Divulgar estes dados, mais graves ainda, é ilegal, além de antiético (e provavelmente colocaria em risco as vidas de agentes).

Ademais, quantos oficiais ou agentes de Inteligência são também historiadores? E, caso sejam historiadores, quantos tem justamente a espionagem e a Inteligência como objeto de pesquisa?

Se este fosse o pré-requisito, provavelmente não teríamos uma bibliografia de sequer meia página sobre o assunto. E, felizmente, há sim ampla possibilidade ética e legal para empreender este tipo de pesquisa.

Isso porque missões, investigações e análises de Inteligência que já ocorreram no passado não tem esta restrição legal ou ética. Nestes casos, podem e devem ser divulgadas, examinadas, criticadas, explicadas e comparadas!

Mas como analisar as fontes? É simples: os documentos oficiais dos órgãos de Inteligência se tornam acessíveis por meio de uma legislação de disponibilidade de tais fontes após determinado tempo transcorrido de sua produção (NAVARRO, 2009, pp.153-175).

De uma forma geral, esta documentação se torna disponível em dois casos.

  1. Países com Estados Democráticos de Direito consolidados tem normas que tornam públicos até mesmo documentos classificados como secreto e ultra secreto, passados 20 ou 30 anos. Importantes para consolidar a democracia, esta liberação possibilita pesquisas, teses monografias reportagens, etc.
  2. Estados com passado ditatorial preservam e disponibilizam ao público a documentação produzida por seus órgãos de repressão, o que permite uma reflexão do duro e recente passado destes países.

Como exemplo do primeiro caso, os Estados Unidos e a Inglaterra tem programas de disponibilização de acesso consolidados. Não por acaso, os países de língua inglesa oferecem ampla bibliografia sobre Inteligência e Espionagem. Documentos sigilosos da CIA, do MI-6, por exemplo, são disponíveis ao pesquisador que tenha interesse em adentrar nestes temas. A CIA inclusive tem um programa voluntário de abertura de documentos, o Freedom of Information Act Electronic Reading Room.

No segundo caso, países como Rússia, Alemanha e mesmo o Brasil disponibilizam ao público arquivos de órgãos como NKVD e KGB (Rússia), Gestapo e Stasi (Alemanha), Conselho de Segurança Nacional, SNI e DOPS (Brasil), permitindo ao pesquisador se aprofundar na máquina de Inteligência e espionagem construída em passados recentes destes países. Clicando aqui, você pode acessar, por exemplo, o fundo sobre o SNI no Arquivo Nacional.

Estas fontes permitem muitos tipos de análises diferentes: institucionais, comparativas, operativas, conceituais, discursivas etc. Contudo, podemos avançar ainda mais no repertório de fontes.

Notemos que documentos oficiais produzidos pelos órgãos de Inteligência refletem – e ocultam – a realidade conforme a ótica e os interesses tanto destas agências como dos governos aos quais serviram. É ingênuo e equivocado considerá-los como espelhos de sua época – equivoco, aliás, inerente a qualquer tipo de fonte.

Assim, é produtivo ao pesquisador tais dados com as biografias de ex-espiões e com as crônicas de espionagem, ampliando o leque de possibilidades e ajustando o foco de nossa análise do escritório de quem redige o relatório para a vida do agente de campo. Felizmente, este tipo de fonte é abundante, na forma de livros, reportagens e biografias acerca dos homens e mulheres que tomaram parte na espionagem. A guisa de exemplo, ver os trabalhos de Kathryn Atwood (2011, 2014), Shareen Blair Brysac (2000), Ben Macintyre (2020) e Gilles Perault (1970), entre muitos outros.

Mas, como no caso dos documentos oficiais, há um cuidado que deve ser tomado. Egocêntricos como tendem a ser, espiões aposentados douram a pílula, exageram, romantizam e inventam.
Aqui entra a função do historiador como detetive (sinônimo de historiador!): observar, pescar os detalhes, averiguar plausibilidades. Não se deve acreditar em tudo o que se relata. Ainda mais sendo redigido por alguém que trabalhou com espionagem.
De qualquer forma, as fontes estão ai, e são mais abundantes do que normalmente se pensa. Estamos diante de um campo rico de possibilidades e de questões relevantes para a sociedade. Não é uma Missão Impossível. Se me permitem o chiste…

Bibliografia

ATWOOD, Kathryn. Women Heroes of World War I.: 16 Remarkables Resisters, Soldiers, Spies and Medics. Chicago Review Press, 2014.

______ . Women Heroes of World War II: 26 Stories of Espionage, Sabotage, Resistance and Rescue. Chicago Review Press, 2011.

BRYSAC, Shareen Blair. Resisting Hitler: Mildred Harnack and the Red Orchestra. Oxford University Press, 2000.

CIA. Freedom of Information Act Electronic Reading Room. Disponível em: https://www.cia.gov/readingroom/historical-collections, acesso em 30 de outubro de 2021.

______ . CENTER FOR THE STUDY OF INTELLIGENCE. Disponível em: https://www.cia.gov/resources/csi/, acesso em 30 de outubro de 2021.

MACINTYRE, Ben. Agent Sonya. New York: Crown, 2020.

NAVARRO, Diego. Tres mil anos de informacion y secreto. Plaza y Valdes: Madir, 2009.

PERRAULT, Gilles. The Red Orchestra: the anatomy of the most successfull spy ring of World War II. Simon and Shuster, Nem York, 1970.

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