A América do Sul na Guerra da Coréia: O Batalhão Colômbia no conflito

de

Profº. Esp. Pedro Silva Drummond

Contexto do Período

Após a Segunda Guerra Mundial, dois países saíram como os grandes vitoriosos do conflito, Estados Unidos e União Soviética. Após os anos seguintes a Guerra Mundial, estas duas Nações acabaram se tornando as principais potências mundiais, e estiveram envolvidas no que ficou conhecido como a Guerra Fria.

Durante a Guerra Fria, o mundo ficou dividido entre áreas de influência sob a égide dos Estados Unidos (mundo capitalista) e União Soviética (mundo socialista). Nesse contexto a península coreana também esteve presente na disputa entre as duas potências, EUA e URSS, acabaram dividindo a região a partir do paralelo 38 como o marco entre suas áreas de ocupação.

A passividade do território coreano com a divisão entre Coréia do Norte e Sul permaneceu por cinco anos após a Segunda Guerra Mundial, em 1950, a Coréia do Norte invadiu o território da Coréia do Sul, dando início a Guerra da Coréia (1950-1953). A invasão da Coréia do Norte no sul da península coreana provocou a reação dos Estados Unidos, que buscaram e obtiveram o apoio da ONU contra o ato. Nesse sentido, nações integrantes da ONU foram instigadas a contribuírem com o envio de tropas para o conflito.

O envio de tropas colombianas para a Guerra da Coreia acontece no momento que a ONU está recrutando militares de todas as regiões do planeta. A participação da Colômbia no conflito acabou se tornando uma exceção dentro do Continente, como explica William Stueck: “O resultado escasso no recrutamento de tropas latino-americanas aconteceu por diversos motivos. O continente era uma região pobre e sem tradição em envolvimento direto em conflitos distantes de suas fronteiras. Apenas Brasil e México enviaram tropas ao exterior na Segunda Guerra Mundial e, nos primeiros anos após a guerra, a região permaneceu na periferia da nova ordem internacional. Os EUA direcionaram pouca ajuda aos seus vizinhos do sul e esta negligência causou ressentimento. Cansados do tratamento norte-americano, sem uma economia forte para manter exércitos modernos e tendo que reembolsar a assistência para equipar suas tropas, os países latino-americanos recusaram o pedido de se aventurar nessa cruzada em uma terra distante e desconhecida”. (apud AMARAL e ALVES, 2015, p. 5).

A decisão da Colômbia de envias tropas para a Guerra da Coreia e ser uma exceção entre as Nações latino-americanas aconteceu principalmente por dois motivos, o primeiro, foi a boa relação do País com os Estados Unidos desde o início do século XX, como explica Marcelo Santos: “o fato é que, desde a perda do Panamá, no início do século XX, a Colômbia tem uma relação muito próxima aos norte-americanos. Um capítulo fundamental dessa história está sintetizado na formulação da doutrina Respice Polum, que teve início no governo de Marco Fidel Suarez (1918-1922) e predominou na diplomacia colombiana ao longo do século XX. Segundo essa doutrina, o país deveria adotar um alinhamento incondicional às diretrizes dos EUA em matéria de política externa, sob a convicção de que, além de pertencer à esfera de influência da “estrela polar do norte”, a Colômbia poderia tirar grande proveito dessa associação.” (SANTOS, 2010, p. 2)

A segunda motivação está relacionada com a visão do Ministro das Relações Exteriores e do Presidente colombiano, sobre o comunismo, como é explicado por Pedro Amaral e Vagner Alves: “Um ator importante nas negociações sobre a contribuição militar colombiana na Coréia foi o embaixador colombiano Eduardo Zuleta, nomeado Ministro das Relações Exteriores após o Bogotazo. Ele era conhecido por seu forte sentimento anticomunista e apoio aos EUA… O histórico de aversão ao comunismo do presidente, por outro lado, era impecável. Ele era conservador, anticomunista e religioso. Gómez, ao que tudo indica, acreditava que a Colômbia e o mundo participavam de um sério confronto, uma batalha entre o comunismo e o cristianismo. A Colômbia deveria, então, participar ativamente na luta contra os comunistas para defender o mundo livre.”

Nesse contexto, o governo colombiano autoriza o envio de uma fragata e de um batalhão do exército para o conflito. A fragata Almirante Padilla e o Batalhão Colômbia, sob o comando da ONU, iniciaram a sua participação no conflito durante o ano de 1951.

Escudo do Batalhão Colômbia
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Batalhão Colômbia

Entre os anos de 1951 até 1953, a Colômbia enviou para Coréia 5.100 homens, como integrantes das Forças da ONU. O Batalhão Colômbia, participou dessas tropas da ONU, com um efetivo de 1080 homens.

Durante a Guerra da Coréia, o Batalhão ganhou destaque na Batalha de Old Baldy, quando os militares colombianos integravam integram o 4º batalhão do 31º Regimento liderado pelo Coronel William Kern. No período da Batalha o Coronel, determina que o Tenente-Coronel Alberto Ruiz Novoa, comandante colombiano, substituísse o 1º Batalhão do regimento em Old Baldy.

Na Batalha de Old Baldy, em 1953, os colombianos “suportariam contínuas barragens de artilharia em preparação para a ofensiva chinesa. Em 20 de março, toda a linha do 31º Regimento foi bombardeada continuamente. Em 21 de março, os chineses expuseram os corpos de 5 soldados da ONU (4 colombianos e 1 americano) em uma tentativa de atrair soldados para o resgate. A missão foi concluída com a entrada nas linhas inimigas por uma patrulha de homens voluntários da Companhia C. O Soldado Alejandro Martínez Roa alcançou a crista, desativou uma mina sob um dos corpos, desceu com um dos cadáveres, escapou do fogo inimigo e quando encontrou outras tropas colombianas, voltou à crista com o Cabo Pedro Limas Medina e a patrulha e resgatou os outros. A ação heróica foi recompensada com quatro Estrelas de Prata no campo de batalha.” (MONTEIRO, 2021).

Monumento de um soldado colombiano na Coréia do Sul
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Durante o dia 22, os bombardeios chineses continuaram ocorrendo, até que no dia seguinte tem início o ataque chinês. Durante todo o dia 23, os colombianos resistiram fortemente à tentativa da ofensiva chinesa, como explica o Tenente Alfredo Forero Parra, comandante da Companhia B: “Quarenta minutos após o ataque a Dale e Pork Chop Hill, artilharia tremendamente pesada e morteiros caíram sobre Old Baldy. A terra tremeu como se em um terremoto acompanhado de explosões ensurdecedoras e relampejantes em toda a posição da Companhia B. As silhuetas fugazes dos homens, armas e fortificações enfraquecidas pareciam fantasmas dentro das rajadas do inimigo. Gritos de angústia e agonia se misturavam com o barulho da nossa própria metralhadora e do inimigo. A batalha era travada a cada momento. Podíamos ouvir a uma curta distância os tiros dos morteiros 60 e 82mm inimigos. As comunicações foram perdidas, ninguém respondeu, nem mesmo os comandantes de esquada. De repente, foi relatado a morte do meu sargento de pelotão substituto, Azael Salazar Osorio, então o comandante da terceira esquadra, Cabo José Narvaez Moncayo, que perto de morrer ele gritou para ser levantado para aliviar seu sofrimento porque ele havia sido cortado na cintura e nada poderia ser feito por ele. Em meu posto de batalha, a morte do Cabo Ernesto Gonzalez Varela, comandante da segunda esquadra, foi atroz. Estávamos quase tocando os cotovelos. Ele disparou sua metralhadora contra um ataque de chineses que vieram sobre nós quando um projétil de bazuca o atingiu no rosto, deixando sua cabeça pendurada nas costas. Achei que estava vivendo um pesadelo ou um filme de terror até que novas explosões no meu bunker me trouxeram de volta à realidade. Eu encorajei meus homens e continuei a me comunicar com metralhadoras e dei instruções para um cabo tirar o lança-chamas e se preparar para atirar no inimigo quando eles aparecessem. Em poucos minutos, dois soldados chegaram à casamata gritando: ‘Os chineses, os chineses!’ Com certeza, os chineses se lançaram sobre nossa posição com uivos estridentes, disparando rajadas de metralhadoras e lançando granadas.” (MONTEIRO, 2021)

O ataque chinês acabou não sendo bem sucedido, e durante os dias subsequentes aconteceram novas tentativas. Durante todo o período no qual, os chineses tentaram conquistar Old Baldy, o Batalhão Colômbia resistiu enquanto puderam, mas com as dificuldades em receber reforços e a superioridade adversária, os colombianos acabaram evacuando as tropas da região, permitindo a conquista chinesa.

Após a Batalha em Old Baldy, o Batalhão Colombia participou da Batalha de Triangle Hill, na recaptura de Geumseong e na defesa do rio Han.

Manequim de um soldado colombiano no Memorial da Guerra da Coréia https://www.warfareblog.com.br/2021/10/soldados-colombianos-na-coreia.html

Conclusão

A Guerra da Coréia foi um dos conflitos, entre tantos que ocorreram no período da Guerra Fria, que envolveram Estados Unidos, União Soviética e tropas da ONU. A participação de países latino-americanos, mas especificamente da Colômbia é que não ocorria frequentemente.

Na Segunda Guerra Mundial somente Brasil e México enviaram tropas para o conflito. No caso da Colômbia, o País declarou guerra ao Eixo, mas limitou a sua participação na defesa dos seus navios na costa da América.

A mudança ocorrida cinco anos após a Segunda Guerra Mundial tem como motivação a decisão de integrantes do governo e do próprio presidente da Colômbia, além da forte relação entre os colombianos e norte-americanos. Essa visão é corroborada pela dificuldade de obter ajuda de outras nações latino-americanas, inclusive do Brasil e México, que lutaram na Guerra Mundial anos antes.

Durante a Guerra da Coreia o Batalhão Colômbia saiu prestigiado, principalmente pelo ocorrido na Batalha de Old Baldy, onde os colombianos foram vencidos pelos chineses, mas os militares colombianos resistiram até quando foi possível, conseguiram segurar as tropas chinesas por dias e causar diversas baixas ao seu adversário, como explica Filipe Monteiro: “e não fosse a heroica resistência das tropas colombianas em Old Baldy, a força chinesa poderia ter rompido a Linha Principal de Resistência da 7ª Divisão e entrado nas profundezas do território aliado com consequências muito graves, pois na estrada poderia conduzir as tropas e blindados inimigos diretamente a Seul.” (MONTEIRO, 2021). O número de baixas do Batalhão Colômbia no conflito de Old Baldy foram: 95 mortos, 97 feridos e 30 desaparecidos.

O Batalhão Colômbia esteve na Guerra da Coréia até o último ano do conflito, e durante todo o período que participou da Guerra a perda de militares foi a seguinte: 63 mortos em combate, 448 feridos, 60 desaparecidos, 30 capturados.

Bibliografia

AMARAL, Pedro Accorsi; ALVES, Vagner Camilo. O Processo Decisório em Política Externa: A decisão da Colômbia de enviar tropas à Guerra da Coréia. XXVIII Simpósio Nacional de História. Florianópolis, 2015.  

MONTEIRO, Filipe do A. Soldados Colombianos na Coréia. Disponível em: <https://www.warfareblog.com.br/2021/10/soldados-colombianos-na-coreia.html>. Acessado em 13/07/2022.

SANTOS, Marcelo. Passado e presente nas relações Colômbia-Estados Unidos: a estratégia de internacionalização do conflito armado colombiano e as diretrizes da política externa norte-americana. Revista Brasileira de Política Internacional, Vol. 53, nº 1, 2010, p.67-88.

Pedro Silva Drummond

Sobre o autor

Pedro Drummond

Especialização em História Militar pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), Graduação em História (Bacharel e Licenciatura) pela Universidade Gama Filho (UGF), autor de Artigos em História Militar.

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