A importância estratégica da Batalha da Ilha da Serpente no Conflito do Leste Europeu

de

Ms. Rodolfo Queiroz Laterza

Na noite de 24 de fevereiro, quando as tropas russas cruzaram as fronteiras oeste e norte da Ucrânia, a atenção do mundo inteiro estava voltada para o destino de Kiev. É improvável que alguém tenha prestado atenção ao extremo sul do Mar Negro, a cerca de 140 km de Odessa, quando naquela noite, a frota russa atacou e capturou toda a guarnição ucraniana na Ilha da Serpente, um pequeno afloramento rochoso pouco conhecido e sem valor particular – apenas 46 acres rochas e grama.

Mas no início da manhã de 20 de junho, outra tentativa maciça das forças ucranianas de desembarcar tropas na ilha sinalizou que a operação russa na área enfrentava sérias dificuldades. Os russos dizem ter visto um Veículo aéreo não tripulado (VANT ou simplesmente drones) de vigilância e reconhecimento Northrop Grumman RQ-4 Global Hawk, da Força Aérea, dos EUA, em alta altitude perto da Ilha Serpente, que parecia estar transmitindo coordenadas para posições de combate ucranianas.

Em Moscou, o Ministério da Defesa publicou um extenso relatório em inglês sobre a Ilha Zmeiny (Serpente, em russo) durante um briefing diário do tenente-general Igor Konashenkov. A declaração dizia:

– “20 de junho, por volta das 05 h, o regime de Kiev fez uma tentativa de tomar a Ilha da Serpente.”

O plano da operação, elaborado pelo regime de Kiev, previa a aplicação de ataques aéreos e de artilharia maciços na ilha das Serpentes, o desembarque de tropas e sua captura. Mais de 15 veículos aéreos não tripulados (Unmanned Combat Aerial Vehicle, UCAVs) de ataque e reconhecimento ucranianos controlados por dois UCAVs Bayraktar-TB2 (de fabricação turca) participaram do ataque aéreo. Ativos russos detectaram um VANT, em missão de reconhecimento Global Hawk RQ-4, da Força Aérea, dos EUA em altas altitudes perto da Ilha da Serpente.

Os drones ucranianos foram apoiados no ar por sistemas de defesa aérea S-300 de suas posições de combate perto de Tuzla e Ochakov (na região de Odessa).

Os ataques de foguetes e artilharia na ilha de Zmeiny foram realizados por mísseis balísticos ucranianos Tochka-U, lançadores múltiplos de foguetes Uragan e obuses M777 155mm de suas posições de combate a oeste de Odessa e na ilha Kubansky.

Os sistemas de defesa aérea russos (o sistema de mísseis e armas antiaéreas Pantsir e o sistema de mísseis antiaéreos Tor) destruíram todas as armas inimigas lançadas na ilha de Zmeiny.”

Até que no dia 30 de junho de 2022, o Ministério da Defesa Russo declarou que as forças russas estariam se retirando da Ilha da Serpente como um gesto de boa vontade para a Rússia não ser acusada pela Ucrânia de impedir um corredor naval de exportação de grãos ucranianos.

A situação operacional, entretanto, é que o controle sobre a Ilha da Serpente é de importância estratégica. Situada ao largo da costa sul de Odessa, é um ponto de apoio necessário para a esperada operação russa contra a cidade portuária ucraniana mais importante no Mar Negro. Da mesma forma, a remoção do controle russo sobre a Ilha das Serpentes se torna importante para Kiev.

https://twitter.com/JominiW/status/1541582922771304448/photo/1

O Contexto Situacional

Preliminarmente é fundamental analisar em detalhes sobre o valor estratégico-militar da Ilha da Serpente. 

Trata-se de uma ilhota com quase características de um penedo, com área de apenas 0,205  km², sendo desprovida de árvores e localizada perto da fronteira marítima ucraniano-romena – daí ter uma localização estrategicamente importante no noroeste do Mar Negro. Oficiais de Estado-Maior russos e ucranianos (e da OTAN) ressaltam que o seu domínio é importante para controlar as linhas de comunicação marítimas nesta região, a partir do continente. Além disso, sua localização permite monitorar a aproximação de navios de deslocando por sudeste do Mar Negro, abrangendo as SLOC (Sea Lines of Communication ou linhas de comunicação marítimas) oriundas da Turquia em derrota para os portos de Odessa, Ochakov e Nikolaev.

Dominar a Ilha da Serpente permite também controlar a foz do Rio Danúbio e as águas costeiras ao sul de Odessa. Daquela ilha, pode-se rastrear o espaço aéreo e marítimo, detectar a penetração de aeronaves e navios.

Não é de surpreender que a URSS tenha montado uma infraestrutura de radares de defesa aérea ali. O controle das Forças Armadas da Ucrânia (FAU) sobre a ilha, pode se tornar uma ameaça para a Frota Russa do Mar Negro, devido à presença dos mísseis de cruzeiro antinavio Boeing AGM-84 Harpoon, com alcance de 280 km, de fabricação norte-americana.

Até 24 de fevereiro de 2022, uma guarnição militar ucraniana estava localizada na Ilha da Serpente (“Zmeiny”, em russo) como um posto avançado de fronteira , funcionando também como um posto de observação de defesa aérea, mantendo-se ali uma unidade do corpo de fuzileiros navais, com cerca de cem militares no total. No entanto, após um disparo de alerta de navios russos, os 82 militares simplesmente se renderam. Uma pequena guarnição do exército russo permaneceu localizada na ilha.

As operações de ataque ucranianas para recapturar a ilha foram de imediato planejadas e executadas. Neste contexto, entre os dias 7 a 9 de maio de 2022, tropas de assalto aéreo e marítimo das FAU foram lançadas para uma operação de reconquista, cuja ordem de ataque à Zmeiny teria sido dada pessoalmente por Zelensky, que exigia um resultado favorável até 9 de maio. Segundo informações, já confirmadas, Valery Zaluzhny e seu Estado-Maior eram contra essa operação, pois a consideravam suicida. Esta operação foi sugerida e estimulada por conselheiros britânicos. Caso houvesse sucesso na operação, uma declaração conjunta do primeiro-ministro britânico Johnson e Zelensky informariam sobre a retomada de Zmeiny.

A operação se desenvolveu da seguinte forma: a FAU criou uma força de assalto aeromóvel composta por dezenas de aeronaves, apoiadas por drones UAV Bayraktar TB2, helicópteros MI-8 Haze, da Aviação Naval das FAU, além de caças MiG-29 Fulcrum e Su-27 Flaker. As tropas desembarcaram nos últimos navios de assalto rápido, classe “Centauro”, da Marinha ucraniana. Como resultado desta tentativa, a Ucrânia perdeu 14 aviões e helicópteros, 30 drones, três barcos com tropas a bordo e cerca de 150 pessoas.

As Forças Armadas da Ucrânia entretanto, apesar do revés tático-operacional da operação do dia 07 de maio, não pararam nisso e, um mês depois, fizeram outra tentativa de retomar a Ilha da  Serpente.

As FAU realizaram ataques aéreos e de artilharia maciços na ilha. com subsequente operação de assalto. Mais de uma dúzia de drones de ataque e reconhecimento ucranianos participaram do ataque. Os drones de combate foram guiados por dois UAVs Bayraktar TB-2 fabricados na Turquia. A cobertura antiaérea dos UAVs ucranianos foi fornecida por sistemas de mísseis antiaéreos S-300 de posições de combate nas regiões de Tuzla (região de Odessa) e Ochakov (região de Mykolaiv). Havia assistência de ELINT e reconhecimento por parte de postos de comando e reconhecimento avançados de aeronaves da OTAN como P-8 a partir da Romênia.

Imagem com locais de desembarque e doca na Ilha da Serpente
https://www.defenceview.in/snake-island-russia-ukraine-battle-for-control-in-black-sea/

Os planos desta segunda operação de recaptura falharam entretanto, com cerca de 13 veículos aéreos não tripulados, quatro mísseis Tochka-U e 21 foguetes disparados de lançadores múltiplos de foguetes Uragan abatidos, sem danos significativos infligidos à guarnição militar russa.

https://bulgarianmilitary.com/2022/05/28/downed-bayraktar-tb2-of-snake-island-battle-was-found-in-romania/

Entretanto, com a incorporação às forças ucranianas de sistemas antinavio Harpoon e novos obuses autopropulsados, providos por países da OTAN, como o sistema Caesar e MLRS M-270, as forças russas previram a preparação de um ataque em grande escala contra as unidades russas que guarneciam a Ilha da Serpente, que seria difícil de repelir com as forças limitadas ali estabelecidas, para dificultar os russos perderam lanchas-patrulha e rebocadores de abastecimento durante os seguidos ataques ucranianos. Em um novo ataque, é provável, que os ucranianos empreguem os canhões autopropulsados CAESAR, pois este sistema de armas ​​foram implantados na ilha Kubansky, localizada na região de Odessa, perto da foz do Danúbio, a 36 km da ilha da Serpente. 

Dessa forma, após a transferência das baterias de autopropulsados CAESAR e mísseis Tochka-U para a região de Odessa, a densidade do fogo de artilharia a partir da costa de Odessa aumentou muitas vezes, razão pela qual, provavelmente, os russos decidiram evacuar o seu pessoal, focando-se em uma nova abordagem tático-operacional mais urgente e complexa: a destruição das tropas navais e aerotransportadas das FAU nos arredores, que ameaçam diretamente navios da Frota do Mar Negro. Em nosso entendimento, a Rússia, deverá impedir o desdobramento de uma guarnição das FAU na Ilha, sob ameaça ainda maior aos seus ativos navais.

Dois sistemas de armas norte-americanos podem mudar o jogo na batalha pela Ilha da Serpente e podem ser outro motivo que levaram os russos a fazer esta retirada tática:  as baterias de mísseis antinavio Harpoon e os sistemas de foguetes de artilharia MLRS HIMARS altamente móveis. Enquanto os mísseis antinavio Harpoon poderiam ajudar os ucranianos a isolar a ilha da Serpente dos suprimentos marítimos através de ataques constantes a rebocadores e lanchas de patrulha, o sistema M142 High Mobility Artillery Rocket System (HIMARS) poderia bombardear a ilha em ataques diversionistas altamente letais, ainda que a Frota do Mar Negro ainda o controle e os russos aparentemente tenham conseguido levar o sistema de defesa aérea Tor-M2E (alcance de 25 km), para a Ilha Zmeiny. Mas isso poderia mudar quando os carregamentos de lançadores montados em caminhões para mísseis antinavio Harpoon, que chegaram à Ucrânia semanas atrás, pois seu alcance é de 150 km, ao passo que sistema HIMARS pode lançar foguetes M30 a mais de 70 km, o que é mais do que suficiente para chegar à Ilha da Serpente.

https://www.naval.com.br/blog/2022/05/23/dinamarca-fornecera-misseis-antinavio-harpoon-e-lancadores-a-ucrania/

O mesmo risco permanece para as FAU futuramente, se Zelensky ou seus assessores exigirem que os militares ucranianos desembarquem na ilha, estes poderão ser destruídos por disparos de longo alcance direcionados das FAR. Assim, a ilha se encontra na chamada “zona cinzenta”, não havendo interesse tático imediato de tropas ucranianas ali desembarcarem, tal como afirmado na data de 30/06.

Se as forças armadas ucranianas recuperarem o controle sobre esta ilha e instalarem sistema de vigilância e baterias de mísseis, isso poderá garantir o controle de área marítima próximo de Odessa. Embora a área de “Snake Island” seja apenas uma fração de um quilômetro quadrado, sua importância para o controle das linhas de comunicação marítimas no oeste do Mar Negro não está em dúvida.

Se os russos instalarem seus sistemas de defesa aérea de longo alcance na ilha, serão eles que controlarão a área aérea e marítima e a porção continental no noroeste do Mar Negro e no sul da Ucrânia. Também possibilitaria às tropas russas a chance de invadir a Transnístria, um território separatista da Moldávia sob controle russo, ao lado da Ucrânia e não muito longe de Odessa.

Existem especulações na mídia que os EUA estão trabalhando febrilmente para criar “outra Ucrânia” dirigida contra a Rússia – na Moldávia, cujo presidente e altos funcionários têm dupla cidadania (com os EUA) e buscam a adesão à UE e à OTAN.

Outro ponto de crucial importância é que a Ilha da Serpente fica a apenas 40 km da costa da Romênia, país-membro da OTAN e onde se estima que a Aliança tenha mobilizado forças terrestres em torno de 4 mil soldados, oriundos dos EUA, Alemanha, França, Reino Unido, Polônia etc. O envolvimento dos EUA e do Reino Unido no planejamento e execução das repetidas tentativas da Ucrânia de recuperar o controle da Ilha da Serpente leva a crer que eles deram à Ilha um status ponto-chave no conflito. Qualquer desdobramento, pela Rússia, de baterias de mísseis S-400, na ilha de Zmeiny colocaria, por exemplo, ameaçaria o flanco sul da OTAN. Basta dizer que a presença permanente da OTAN no Mar Negro e a futura e eventual expansão da aliança militar nas regiões do Cáucaso, Cáspio e Ásia Central permanecerão problemáticas enquanto a Rússia controlar a Ilha da Serpente.

https://twitter.com/i/events/1524395740138725376

Outro ponto fundamental observado, dessa vez por analistas militares russos: a retirada das tropas russas da ilha de Zmeiny demonstra que os planos para estabelecer o controle sobre a região de Odessa foram adiados. Tal contexto gerou sérias sobre a perda de oportunidade de uma operação anfíbia no início de março, quando as guarnições ucranianas não estavam providas de avançados sistemas antinavio nem fortalecidas na região. Tal fato foi apontado como sério erro de avaliação e cálculo tático-operacional pelo comando militar russo, uma vez que qualquer operação anfíbia visando a conquista de Odessa, no futuro irá ser muito mais complexa e custosa em perdas, além de exigir a mobilização de maiores recursos navais e operacionais.

Especialistas militares russos consideraram ainda um presente para a propaganda político-militar ucraniana a mensagem de que as tropas russas deixaram a ilha de Zmeiny. O Ministério da Defesa da Federação Russa chamou o incidente de “passo de boa vontade”, que foi feito em conexão com a “conclusão das tarefas”, com a narrativa de que tal fato demonstra à comunidade mundial que “a Federação Russa não interfere nos esforços da ONU para organizar um corredor humanitário para a exportação de produtos agrícolas do território da Ucrânia”.

Entretanto, diversos comentaristas militares russos explicaram que a retirada da guarnição russa da ilha, decorreu mais como uma tentativa de se evitar mais perda de pessoal e de equipamentos, devido ao constante bombardeio das forças ucranianas e que manter a ilha não seria vantajoso em termos táticos. Outro motivo bem pragmático foi a falta de equipamentos de reconhecimento e designação de alvos em serviço com a frota marítima russa e nas Forças Aeroespaciais, que permitiria uma identificação mais eficaz de aeronaves intrusas e  para as baterias de mísseis de longo alcance, o Kalibr. Um UCAV como General Atomics o MQ-9 Reaper, um veículo aéreo não tripulado americano de ataque e reconhecimento capaz de realizar reconhecimento a uma profundidade de mais de 1000 km de uma altura de até 15 km por pelo menos 24 horas, usado sistematicamente por forças da OTAN na área.

Considerações Parciais

Dessa forma, em nosso entendimento, a conquista de Odessa, no médio prazo, parece altamente improvável, pois no contexto atual, levando em consideração de como a Rússia vem tentando tomar integralmente o território de Donbass, levando um período relativamente longo e está construindo linhas defensivas nas direções de Nikolaev e Krivoy Rog, é inapropriado falar sobre controle a médio prazo (até o final do ano pelo menos) sobre a região de Odessa. A situação tende a ficar ainda mais difícil em função das condições em que a OTAN inicia uma nova etapa de assistência militar à Ucrânia e prepara declaradamente uma contraofensiva no sul, já sendo um desafio substancial às tropas russas enfrentarem a tarefa de manter grande parte do controle da região de Kherson e parte das região de Zaporozhye.

Imagem de Destaque: https://www.thedrive.com/the-war-zone/ukrainian-strikes-on-russian-occupied-snake-island-confirmed-in-satellite-imagery

Fontes consultadas:

https://www.navyrecognition.com

https://www.economist.com › europe

https://news-front.info/

https://svpressa.ru/war21/

https://www.ng.ru/armies/

Autor: Delegado de Polícia, historiador, pesquisador de temas ligados a conflitos armados e geopolítica, Mestre em Segurança Pública

Sobre o autor

Rodolfo Queiroz Laterza

Mestre em Segurança Pública, historiador, pesquisador de geopolitica e conflitos armados.

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