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A relação Ucrânia e Alemanha: O Governo Colaboracionista na Segunda Guerra Mundial

Prof. Esp. Pedro Silva Drummond

Introdução

A Segunda Guerra Mundial teve início em 1 de setembro de 1939, quando a Alemanha invadiu a Polônia. Esse acontecimento é considerado o estopim para que as nações como Inglaterra e França, declarassem guerra à Alemanha.

A invasão ao território polonês é o marco de um acontecimento que já vinha provocando conflitos antes mesmo desse fato. A Itália em 1935 enfrentou uma guerra para a anexação da Etiópia, conflito que ocorreu entre 1935-1936, e conquistou a Albânia em 1939. O Japão desde 1937 confrontava-se com a China, na Segunda Guerra Sino-Japonesa, que durou de 1937 até 1945. A Alemanha através de invasões, como na Áustria e a Checoslováquia e, diplomaticamente, através do Acordo de Munique (1938)¹, que possibilitou a anexação dos Sudetos.

Antes da invasão na Polônia pelos alemães, a Alemanha assinou o Pacto Nazi–Soviético, também conhecido como Pacto Molotov–Ribbentrop, assinado pelos Ministros da Alemanha, Joachim von Ribbentrop e da URSS, Viatcheslav Molotov, que consistia em um Tratado de Não-Agressão e esferas de influência em diversas regiões.

O Pacto de não agressão entre Alemanha e URSS perdurou até o início da Operação Barbarossa, em 22 de Junho de 1941, quando os alemães cruzaram a fronteira para o território soviético, como cita Gilbert, “Passavam quinze minutos das quatro horas da manhã de 22 de junho de 1941. Começou, nesse momento, a invasão alemã à União Soviética. Nas primeiras horas da guerra, os bombardeiros alemães atacaram 66 aeródromos soviéticos, destruindo muitos aviões. Ao mesmo tempo, cinco cidades soviéticas previamente escolhidas eram sujeitas a bombardeamentos aéreos: Kovno, Minsk, Rovno, Odessa e Sebastopol. Outro grupo de bombardeiros atacou, em Libava, uma entre as principais bases navais soviéticas do Báltico. Então, enquanto a população soviética despertava ao som das bombas, o exército alemão iniciava seu avanço ao longo de uma frente de 1.500 quilômetros.” (GILBERT, 2014, p. 333)

A Operação Barbarossa nos primeiros dias de guerra tiveram grandes avanços. Quanto ao território que hoje conhecemos como a Ucrânia, as Forças Armadas Alemães, foram enviadas antes mesmo de se preparar uma operação que pudesse atacar Moscou, o próprio Hitler, acreditava que antes de chegar a capital russa, era necessário conquistar outras regiões como Kiev, como explica Beevor: “A maioria – da qual o general Heinz Guderian era o que falava mais sem rodeios – desesperava-se com os desvios de Hitler. Moscou era não apenas a capital da União Soviética, diziam, mas também um importante centro de comunicações e de indústria de armamentos. Um ataque a Moscou também levaria os exércitos soviéticos à destruição final mais rápido. O Führer, contudo, mantinha os generais em ordem explorando suas rivalidades e desentendimentos. Dizia-lhes que não sabiam nada de assuntos econômicos. Leningrado e o Báltico tinham de ser conquistados para proteger o comércio essencial com a Suécia, enquanto a agricultura da Ucrânia era vital para a Alemanha.” (BEEVOR, 2016, p.48-49)

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A chegada das tropas alemãs à região teve início em meados de agosto, iniciando o controle de alguns territórios, e em meados de setembro tinham conquistado Kiev, no que ficou conhecido como Kesselschlacht de Kiev (Cerco de Kiev), onde “os grupos panzer de Kleist e Guderian se encontraram em Lokhvitsa e aprisionaram mais de 700 mil homens no cerco. Kirponos, muitos oficiais do comando e outros 2 mil homens foram mortos pela 3ª Divisão Panzer que estava por perto. O VI Exército do marechal de campo Von Reichenau avançou pelas ruínas de Kiev após o bombardeio. A população civil que ficara para trás estava condenada à fome. Os judeus enfrentaram morte mais rápida pelos pelotões de fuzilamento… O Kesselschlacht de Kiev foi o maior na história militar” (BEEVOR, 2015, p.201).

Mapa da Operação Barbarossa e os avanços dos grupos de exércitos da Alemanha entre Junho-Setembro de 1941
BEEVOR. Antony. A Segunda Guerra Mundial.1. ed. – Rio de Janeiro :Record, 2015. P.160

Participação Ucraniana na Invasão Alemã

Os soviéticos ucranianos foram importantes na defesa da região contra as forças armadas alemãs, mas também existiram aqueles que contribuíram com a invasão como esclarece Beevor: “ao sul, nacionalistas ucranianos também haviam sido enviados para criar confusão e insuflar um levante contra os senhores soviéticos.” (BEEVOR, 2015, p.193).

Após a conquista da região pela Alemanha, grupos de voluntários e antissemitas locais, contribuíam com os alemães, como elucida Beevor: “os massacres se espalharam pela Ucrânia, muitas vezes com a participação de homens locais recrutados como auxiliares. O antissemitismo crescera muito durante a grande fome ucraniana porque agentes soviéticos haviam espalhado rumores de que os judeus eram os principais responsáveis por ela, de modo a desviar a responsabilidade das políticas stalinistas de coletivização e “deskulakização”. Voluntários ucranianos também foram empregados na vigilância de prisioneiros do Exército Vermelho.” (BEEVOR, 2015, p.213).

Reichskommissariat (Comissariado do Reich)

Após a conquista de parte do território soviético pela Alemanha, como a atual da Ucrânia, foi criado um Reichskommissariat, órgão responsável por administrar o local em nome do governo central. Essa denominação também usada pelo Império Alemão na Primeira Guerra Mundial é frequentemente usada em países ou regiões ocupados na Segunda Guerra Mundial. Os Reichskommissariat eram administrados por grandes autoridades alemães, representando o Terceiro Reich, fora do território alemão.

Reichskommissariat da Ucrânia – Mapa administrativo, setembro de 1942
https://pt.wikipedia.org/wiki/Reichskommissariat_Ukraine#/media/Ficheiro:ReichskommissariatUkraineMap.png

O território soviético conquistado, como a Ucrânia, foi administrado pelo Ministério do Reich para os Territórios Orientais Ocupados, que tinha como maior autoridade Alfred Rosenberg, dentro do organograma do Ministério estava o Reichskommissariat da Ucrânia, liderado por Eric Koch. Os soviéticos ucranianos ficaram sob a administração desse órgão de 1941, quando foi ocupada pela Alemanha até 1944, período da sua expulsão.

Erich Koch (direita) e Alfred Rosenberg (centro) em Kiev.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Reichskommissariat_Ukraine#/media/Ficheiro:Bundesarchiv_Bild_146-1994-006-30A,_Kiew,_Alfred_Rosenberg.jpg

Ucranianos ao lado das tropas Nazistas

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Na Segunda Guerra Mundial diversos territórios foram conquistados pela Alemanha, e muitos desses locais acabaram criando governos colaboracionistas, esse foi o caso da Ucrânia.

No território atual da Ucrânia, muitas pessoas entendiam como benéficas a invasão alemã na União Soviética. A região tinha sido incorporada a URSS, na década de 1920, motivo de insatisfação de parte da população que desejava a independência do País.

Com a Segunda Guerra Mundial e consequentemente à invasão alemã ao território soviético, parte do povo da região ucraniana eram favoráveis ao ataque alemão, como esclarece Beevor: “na Ucrânia, muitos aldeões a princípio deram as boas-vindas às tropas alemãs com o presente tradicional de pão e sal. O ódio aos comunistas era generalizado, depois da coletivização forçada das fazendas por Stalin e da terrível fome de 1932-1933, que se estima tenha matado 3,3 milhões de pessoas². Ucranianos anciãos e religiosos sentiram-se encorajados pelas cruzes pretas nos blindados alemães, por pensar que representavam uma cruzada contra o bolchevismo sem Deus.” (BEEVOR, 2015, p.207).

Com a anexação territorial integrantes da Wehrmacht, acreditavam que existia a necessidade de incorporar ucranianos na defesa e luta contra os soviéticos russos, como explica Beevor: “Os oficiais da Abwehr perceberam que, diante das vastas áreas a serem conquistadas, a melhor estratégia para a Wehrmacht seria recrutar um exército de ucranianos de um milhão de homens. A sugestão foi rejeitada por Hitler, que não queria armar Untermenschen³ eslavos, mas pouco depois a sua opinião foi discretamente ignorada tanto pelo exército quanto pela SS, que começaram a recrutar.” (BEEVOR, 2015, p.207).

Nesse aspecto foram criadas alguns grupos que colaboraram com a Reichskommissariat da Ucrânia, algumas delas foram: a 14ª Divisão de Granadeiros Waffen das SS (1ª Galega) e a Ukrainische Hilfspolizei.

Insígnia da 14ª Divisão de Granadeiros Waffen das SS
https://pt.wikipedia.org/wiki/14.%C2%AA_Divis%C3%A3o_de_Granadeiros_da_Waffen_SS_Galizien_(1.%C2%AA_Ucraniana)#/media/Ficheiro:Dyvizia_Galychyna-rukav.svg

A Ukrainische Hilfspolizei foi uma polícia colaboracionista da Ucrânia criada pelo Terceiro Reich após a Operação Barbarossa e a conquista do território ucraniano. Os integrantes dessa polícia eram voluntários oriundos de diversas milícias nacionalistas ucranianas. Enquanto a 14ª Divisão de Granadeiros Waffen das SS (1ª Galega)4, foi uma divisão militar alemã composta predominantemente por voluntários de origem ucraniana da área de Galiza. Estiveram em combate na própria Ucrânia, Polônia, Eslováquia, Iugoslávia e Áustria.

Distintivos de manga dos oficiais de batalhões do Ukrainische Hilfspolizei na Reichskommissariat da Ucrânia.
https://en.wikipedia.org/wiki/Reichskommissariat_Ukraine#/media/File:Ukr-polizei_oficer.svg

Conclusão

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A região da atual da Ucrânia desde os primórdios da região, com os povos eslavos, são motivos de conflitos, o que hoje consideramos ucranianos, é um povo que em diversos momentos lutaram pela independência da região e, foram conquistados por diferentes grupos.

Após a Primeira Guerra Mundial, a Ucrânia lutou pela sua independência, porém, alguns anos depois acabaram integrados a URSS, provocando uma insatisfação dos nacionalistas ucranianos.

Com o início da Operação Barbarossa e consequentemente a invasão ao território soviético ucraniano, grupos nacionalistas acabaram contribuindo com a Alemanha no momento inicial da conquista e posteriormente na administração e segurança do território. Com o avanço da guerra no território soviético, houve a criação de uma divisão militar que participou de diversos conflitos fora da Ucrânia conquistada, como a 14ª Divisão de Granadeiros Waffen das SS (1ª Galega).

Durante todo o período soviético no território ucraniano, existiram grupos nacionalistas que desejavam e lutavam pela independência do território, enquanto outros grupos estiveram do lado dos soviéticos russos tanto na Segunda Guerra Mundial, quanto nos períodos anteriores e posteriores da guerra.

Notas

[1] Acordo entre as principais potências europeias, com o objetivo de discutir a anexação da Checoslováquia pela Alemanha.

[2] fato conhecido como Holodomor, quando diversos soviéticos ucranianos acabaram mortos de fome entre 1932-1933.

[3] conceito para descrever povos inferiores, de acordo com a ideologia nazista especialmente os povos do Leste.

[4] a utilização do termo Galiza era importante porque Heinrich Himmler determinava que a divisão seria composta somente por galegos, que na sua visão eram “mais arianos”, por terem uma herança imperial do Império Austro-Húngaro.

Bibliografia

– BEEVOR. Antony. A Segunda Guerra Mundial.1. ed. Rio de Janeiro :Record, 2015.

– __________. Stalinngrado: O Cerco Fatal (1942-1943). 1. ed. Rio de Janeiro. BestBolso, 2016.

– GILBERT, Martin. A Segunda Guerra Mundial: os 2.174 dias que mudaram o mundo. 1. ed. – Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2014.

– 14th Waffen Grenadier Division of the SS (1st Galician). Acessado em: <https://en.wikipedia.org/wiki/14th_Waffen_Grenadier_Division_of_the_SS_(1st_Galician)>

– Reichskommissariat Ukraine. Acessado em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Reichskommissariat_Ukraine>

5 comentários em “A relação Ucrânia e Alemanha: O Governo Colaboracionista na Segunda Guerra Mundial”

  1. Orlando de Lira Carneiro

    Então existe uma história de colaboracionismo de parte da população ucraniana, durante a invasão da União Soviética na Segunda Guerra Mundial, pelos alemães!

    1. Sim, o colaboracionismo nos territórios conquistados pela Alemanha aconteceram em diversos Países, o mais conhecido foi na França (Vichy), mas na imagem inicial do texto é indicado todas as regiões ocupadas e colaboracionistas.

  2. O colaboracionismo ucraniano é um fato, embora eu ache que esse texto reforça algumas inconsistências históricas, como o tal do “Holodomor”. O Holodomor foi um mito criado pelos próprios propagandistas nazistas, a fim de se apoderar do território ucraniano. A coletivização do período Stalin vem no sentido de que a URSS era cerceada por praticamente todo o mundo e não tinha como obter alimentos e insumos. Nesse sentido, a coletivização serviria para garantir certa autonomia à União Soviética na produção desses alimentos e insumos. Daí se inicia uma guerra civil entre o governo soviético e os kulaks, os donos de terra da região. Esses acabam por boicotar o governo soviético, prejudicando a produção de alimentos e contribuindo para a fome na região da Ucrânia. O governo nazista acabou de completar o plano, quando junto com o William Hearst, dono de uma cadeia de comunicação dos Estados Unidos, começou a espalhar esse mito de que Stalin estava deliberadamente e conscientemente matando o povo ucraniano, imputando à ele o número de 6 milhões de mortos (número esse que nem o autor desse texto reconhece). Daí depois de um tempo, esse mito que estava restrito aos Estados Unidos, começou a se espalhar mundo afora e foi sendo usado por vários organismos de forma oportunista pra atingir o governo soviético.

    A maior parte dos historiadores hoje não reconhece esse mito do “holodomor”, alguns poucos continuam reproduzindo essa mentira. Se quiseres, tem um artigo muito bom do Mário Sousa chamado “Mentiras sobre a história da União Soviética. De Hitler e Hearst a Conquest e Solzjenitsyn” que você encontra facilmente na internet e aborda esse tema.

    1. Jeferson Lima, agradeço o seu comentário e sua indicação do artigo, sugestões como a sua sempre enriquecem o debate. Quanto a questão sobre Holodomor, ela aparece no texto somente através de uma citação. O texto retrata o período da invasão da Alemanha na URSS, no contexto da Operação Barbarossa (1941), o fato conhecido como Holodomor aconteceu em 1932-1933.
      A citação sobre Holodomor é feito através do livro sobre Segunda Guerra Mundial do Antony Beevor, que é reconhecidamente como um dos grandes autores da Segunda Guerra Mundial.
      Mas o debate trazido por você sobre o assunto é interessante e merece uma maior análise, aceitarei como uma sugestão para um artigo futuro.

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