Guerra Armênia e Azerbaijão: o conflito pela posse da região de Nagorno-Karabakh (2020)

de

Prof. Dr. Ricardo Pereira Cabral

Os conflitos ocorridos na região do Cáucaso nos últimos anos serviram para testar a eficiência de modernos sistemas combate como MANPADS (Man-portable air-defense systems), ATGM (Anti-tank guided missile) e UCAV (Unmanned Combat Aerial Vehicles) contra exércitos que combatem ou manobram durante a campanha de forma tradicional. Outro aspecto é a ampla utilização dos recursos cibernéticos seja de forma ofensiva, seja para dar aos estados-maiores uma consciência situacional, em tempo real, do Teatro de Operações.

Faremos uma primeira abordagem sobre o conflito de Nagorno-Karabakh.

O Conflito de Nagorno-Karabakh

A série de conflitos militares pela posse da região de Nagorno-Karabakh e seus arredores entre azeris e armêncios vem desde 1917, durante o colapso do Império Otomano, passando pela União soviética que, por intermédio de uma violenta repressão soviética que abafou o conflito por mais de 70 anos, ainda que continuasse latente a questão dos limites fronteiriços, pois a região em disputa é de maioria étnica arménia.

Em 1988, ocorreu a primeira guerra entre Arménia e Azerbaijão, uma guerra civil na União Soviética. O conflito não delarado entre forças azeris contra os separatistas de Nagorno-Karabakh, apoiado pela Armênia. Moscou interviu e buscou-se uma solução pacífica para o problema, com deslocamento de populações e autonomia administrativa da região.

A região de Nagorno-Karabakh foi anexada ao Azerbaijão durante a era soviética e, posteriormente, reconhecida internacionalmente como parte do Azerbaijão, mas é parcialmente governada por Artsakh, um estado separatista de maioria étnica armênia.

Em 1991, com o fim da União Soviética e a independência da Armênia e do Azerbaijão, levou este último a cassar a autonomia do governo local de Nagorno-Karabakh e impor sua soberania.

Em 1992, violentos combates ocorreram, com vantagem para os armênios. Em 1994, os russo mediaram um cessar-fogo e foram feitas várias tentaivas de se chegar a uma solução negociada do conflito.

A partir de então ocorreram uma séris de conflitos armados, de grande violência na região de fronteira em 2008, 2010-2011, 2012, 2013-2014 e 2020.

O conflito de 2020

Neste conflito pela posse de Nagorno-Karabakh e dos territórios circundantes, o Azerbaijão, de maioria mulçumana, foi apoiado pela Turquia e grupos mercenários estrangeiros, contra a autoproclamada República de Artsakh e a Armênia, de maioria cristã ortodoxa armênia, apoiada pela Rússia.

Os combates começaram na manhã de 27 de setembro de 2020 e se estenderam até 10 de novembro de 2020. A guerra começou com uma ofensiva do Azerbaijão ao longo da Linha de Contato Nagorno-Karabakh estabelecida após a Primeira Guerra Nagorno-Karabakh (1988–1994), com o objetivo de retomar os distritos ao sul de Nagorno-Karabakh, que eram mais fáceis de reconquistar do que o interior bem fortificado da região. Em resposta ao ataque, a Armênia e Artsakh iniciaram uma mobilização total. Já o Azerbaijão deu início a mobilização parcial, que acionou unidades que sequer chegaram a serem empregadas.

A guerra foi marcada pelo emprego de Unmanned Combat Aerial Vehicles (UCAVs – Veículos Aéreos de Combate Não Tripulados) armados e de vigilância, da artilharia autopropulsada, do emprego de blindados, unidades mecanizadas e ataques com mísseis, bem como pelo uso intensivo de operações psicológicas utilizando as mídias sociais.

O uso generalizado dos UCAVs pelo Azerbaijão foi visto como determinante para o resultado do conflito, pois atacavam concentrações de blindados, artilharia, baterias anti-aéreas de mísseis e tropas tanto na linha de frente, quanto na retaguarda provocando pesadas baixas nos armênios.

Os azeris também usaram o UCAVs israelense IAI Harop, como na imagem acima, para destruir blindados (T-72)e baterias de mísseis anti-aéreos (S-300) armênios.

Ambos os lados usaram munições cluster, foguetes e artilharia em áreas civis fora da zona de conflito.

O Azerbaijão fez uso pesado de drones em ataques contra as defesas aéreas armênias, derrubando 13 sistemas de mísseis terra-ar de curto alcance. As forças do Azerbaijão usaram UCAVs para isolar e destruir posições armênias/artsakh. A tática empregada era a seguinte, os UCAVs de reconhecimento localizariam uma posição militar nas linhas de frente e a colocação de forças de reserva, e transmitia os dados para a artilharia que bombardeava as posições, bem como estradas e pontes que poderiam ser usadas pelas reservas para chegar à posição atacada. Depois que a posição armênia/Artsakh era bombardeada e cortada a possibilidade do recebimento de reforço, os azerbaijanos se moviam com forças superiores para dominá-la. Esta tática foi utilizada repetidas vezes para tomar, gradualmente, as posições armênias e de Artsakh.

As tropas do Azerbaijão conseguiram obter ganhos limitados no sul nos primeiros três dias do conflito. Nos três dias seguintes, ambos os lados trocaram tiros de posições fixas. No norte, as forças armênias/Artsakh contra-atacaram, conseguindo retomar algum terreno. Seu maior contra-ataque ocorreu no quarto dia, mas os armênios sofreram perdas importantes, quando suas unidades blindadas e artilharia foram expostas aos UCAVs de ataque azeris. Os UCAVs de reconhecimento localizavam os alvos e informavam a artilharia azeri que manobrava em campo aberto para atacar os alvos, lançava mísseis, foguetes e unidades móveis dotadas de MANPADS e ATGM.

No sétimo dia de combate, os azeris lançaram uma grande ofensiva, obtendo alguns ganhos territoriais, mas foram detidos. A luta então foi para o sul em terreno relativamente plano e subpovoado em comparação com o norte montanhoso, de novo os azeris lançaram uma ofensiva rompendo as linhas armênias/Artsakh e recuperando parte do território perdido no conflito anterior.

Em 10 de outubro de 2020, a Rússia informou que tanto a Armênia quanto o Azerbaijão concordaram com um cessar-fogo humanitário. No entanto, o cessar-fogo rapidamente foi interrompido e o avanço azeri continuou com objetivo de isolar Artsakh da Armênia. O avanço azeri foi detido, em parte, por uma série de contra-aiaques armênios/Artsakh de pequenas unidades na linha de contato.  O ataque azeri prossegiu em direção a Artsakh.

Acordos de Cessar-fogo

Após a captura de Shusha, a segunda maior cidade de Nagorno-Karabakh, pelos azeris, e a pressão da comunidade internacional, o Azerbaijão e a Armênia, chegaram a um acordo de cessar-fogo que teve início em 10 de novembro de 2020.

O acordo estabelecia que cada país manteria o controle das áreas que detinham dentro de Nagorno-Karabakh no momento do cessar-fogo, e que a Armênia devolveria os territórios ocupados, desde 1994, ao Azerbaijão, que além disso obteve ainda uma linha de comunicação para seu enclave em Nakhchivan.

Os russos enviaram uma força de manutenção da paz ao longo do corredor Lachin que liga a Armênia e Nagorno-Karabakh, com um mandato de cinco anos.

Análise do conflito

As exportações de petróleo permitiram ao Azerbaijão aumentar seu orçamento militar de forma consistente por anos em relação a Armênia. Tais recursos foram utilizados para a compra de modernos sistemas de armas de Israel, da Rússia e da Turquia.

A grosso modo as Forças Armadas da Armênia e do Azerbaijão tem números parecidos. No entanto, quando comparados, o Azerbaijão possuía MBT (Main Battle Tank), veículos blindados de transporte de pessoal e veículos de combate de infantaria, mais atualizados e melhores. Além disso, os azeris adquiriram esquadrilhas de UCAVs turcos e israelenses. Já a Armênia construiu seus próprios UCAVs, mas estes eram muito inferiores em número e em capacidades quando comparados aos empregados pelos azeris. O Azerbaijão tinha uma vantagem quantitativa em sistemas de artilharia, particularmente canhões autopropulsados ​​e lançadores de foguetes múltiplos de longo alcance, enquanto a Armênia tinha uma vantagem em mísseis balísticos táticos. Tendo em vista a qualidade dos sistemas de defesa aérea de ambos os lados, a aviação tripulada foi pouco empregada durante o conflito. Um dado interessante é que o Azerbaijão empregou mercenários sírios. Essas tropas foram empregadas ​​como tropas de assalto que, normalmente, sofre um número maior de baixas.

Em termos técnicos, o Exército Armênio era superior ao Exército do Azerbaijão, no nível tático, os oficiais tinham uma formação e um treinamento melhor, a liderança era mais ágil e motivadora das tropas. No entanto, todas essas vantagens foram superadas pelo Azerbaijão.

O uso “inovador” de UCAVs (nem tanto assim) para descobrir posições avançadas e de reserva armênias seguidas do emprego da artilharia e dos mísseis balísticos/foguetes para isolar e destruir as forças armênias deu uma grande vantagem tática aos azeris, que permitiu uma estratégia mais agressiva e no final, vitoriosa. Por outro lado, evidenciou, uma falta de planejamento estratégico armênida, já que redundou na incapadidade da defesa aérea que não conseguiu neutralizar a ameaça dos UCAVs azeris.

O uso. em amplo espectro, dos UCAVs chamou a atenção dos analistas militares pela falta de sistemas aéreos e terrestres capazes de rastrear, interferir eletrônicamente e destruir esses equipamentos.

O Azerbaijão conseguiu infligir uma derrota devastadora e decisiva através do uso hábil de sistemas militares sofisticados em conjunto com meios mais convencionais (artilharia autopropulsada e baterias de foguetes) para obterem vantagem tática e evitarem uma guerra de desgaste que lhe era desvantajoso.

“O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos apresentou um resumo das análises de especialistas militares russos, que concluíram que a vitória do Azerbaijão não foi apenas resultado da guerra de drones e da assistência turca, mas poderia ser atribuída a vários outros fatores, como uma maior exército profissional com experiência recente no campo de batalha, emprego pela Armênia de táticas da era soviética contra a guerra moderna travada pelo Azerbaijão, uma forte vontade nacional de lutar por parte do Azerbaijão em comparação com a liderança armênia indecisa, acreditando em sua própria propaganda e subestimando o inimigo. Na opinião expressa pelo especialista militar russo Vladimir Yevseev após a guerra, por razões pouco claras, a Armênia parecia não ter executado a mobilização que havia anunciado e quase nenhum pessoal mobilizado foi enviado para a área de conflito”.

Guerra dos UCAVs

Os UCAVs do Azerbaijão, principalmente, o Bayraktar TB2, de fabricação turca, se destacaram pela precisão nos ataques e nas missões de reconhecimento, retransmitindo as coordenadas dos alvos para a artilharia do Azerbaijão. Analistas militares observaram que o emprego dos UCAVs permitem que potências médias e de pequenos poder possam conduzir campanhas antiaéreas eficazes, potencialmente tornando os conflitos de baixo nível muito mais mortais. O apoio aéreo aproximado fornecido por UCAVs suicidas, como o IAI Harop, de fabricação israelense, tornou os blindados mais vulneráveis ​​e sugerem a necessidade de mudanças na doutrina de guerra blindada. Outro UCAVs suicida, o STM Kargu, de fabricação turca, que também teria sido usado pelo Azerbaijão.

UCAVs suicida

Os UCAVs suicidas ou drones kamikases surgiram na década de 1980 para uso na função de Supressão de Defesas Aéreas Inimigas (SEAD) contra mísseis terra-ar (SAMs), e foram implantadas para o papel da SEAD em várias forças militares na década de 1990. A partir dos anos 2000, esses sistemas foram desenvolvidos para funções adicionais, desde ataques de longo alcance e suporte de fogo até sistemas de campo de batalha táticos de curto alcance, que cabem em uma mochila.

O UCAVs suicida ou drone kamikaze é uma categoria de sistema de armas na qual o UCAVs sobrevoa ao redor de uma determinada região, em espera passivamente, por algum tempo e ataca apenas quando um alvo é localizado. Os UCAVs suicidas permitem um tempo de reação mais rápido contra alvos ocultos ou que surgem por curtos períodos sem colocar plataformas de alto valor perto da área alvo em risco e também permitem uma segmentação mais seletiva do campo de batalha, pois o ataque pode ser facilmente abortado.

Os UCAVs suicida estão classificados entre mísseis de cruzeiro e veículos aéreos de combate não tripulados (UCAVs), compartilhando características com ambos. Eles diferem dos mísseis de cruzeiro, pois são projetados para vagar por um tempo relativamente longo ao redor da área-alvo, e dos UCAVs, pois só pode ser empregado em um ataque e possui uma ogiva embutida.

Conclusão

As táticas de guerra estão sempre mudando em função dos sistemas de armas e os exércitos que não se modernizam pagam o preço no campo de batalha. O uso inovador ou no limite das suas potencialidades de modernos sistemas de armas, combinado com o emprego judicioso de meios de combate tradicionais conferiram uma vantagem decisiva para os azeris na Guerra de Nogorno-Karabakh diante da superioridade numérica e do melhor posicionamento no Teatro de Operações das forças armênidas. Resumindo, os UCAVs foram importantes, mas não ganharam a guerra sozinhos.  Ressalto ainda, a falha no planejamento de força armênio que não se preparaou para o emprego dos sistemas UCAVs que estavam sendo adquiridos pelos azeris e que foram amplamente divulgados pela mídia. Outra falha foi no planejamento estratégico da campanha, pois os armênios utilizaram táticas de combate da era soviética contra um Exército que não estava combatendo exatamente pelo manual.

Imagem de Destaque: https://www.thediplomaticaffairs.com/2020/09/29/nagorno-karabakh-conflict/

Links consultados

https://www.nationthailand.com/in-focus/30397797

https://www.thediplomaticaffairs.com/2020/09/29/nagorno-karabakh-conflict/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_no_Alto_Carabaque_(2020)

https://en.wikipedia.org/wiki/2020_Nagorno-Karabakh_war

https://www.globalvillagespace.com/drones-a-game-changer-in-the-nagorno-karabakh-warfare/

https://defence-blog.com/azerbaijan-used-the-israeli-made-kamikaze-drone-against-the-armenian-military/

https://www.securityoutlines.cz/drone-warfare-over-nagorno-karabakh/

https://www.militarystrategymagazine.com/article/drones-in-the-nagorno-karabakh-war-analyzing-the-data/

Ricardo Cabral

Sobre o autor

Ricardo Cabral

Professor de História formado pela UGF. Mestrado e Doutorado em História pela UFRJ. Autor de artigos sobre História Militar e Geopolítica.

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