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A Revolução na Construção Naval no início do século XX e o HMS Dreadnought (1906)

Profº. Dr. Ricardo Pereira Cabral

O HMS Dreadnought foi um navio de guerra construído pela Marinha Real Britânica cujo design revolucionou a construção naval do seu tempo. 1906, quando foi lançado ao mar representou um avanço tão grande na tecnologia naval que seu nome passou a ser associado a toda uma geração de navios de guerra, os “dreadnoughts”, bem como à classe de navios que leva seu nome. Da mesma forma, a geração de navios anterior se tornou obsoleta e ficaram conhecidos como “pré-dreadnoughts”.

O HMS Dreadnought, apesar de revolucionário, foi um conceito construído a partir de uma série de inovações que começaram no fim do século XIX, que irei resumir para vocês:

–  a partir de 1801, a introdução do vapor com propulsor

– A partir de 1839, a adoção das granadas desenvolvidas por Paixhans;

– a partir de 1843,  introdução do hélice como propulsor;

– a partir de 1855, a colocação de placas de ferro forjado, sobre a estrutura de madeira dos navios;

– a partir de 1855, a disseminação do canhão com carregamento pela culatra, inventado por William G Armstrong;

– a partir de 1856, surgimento dos primeiros navios de guerra combinado casco de ferro, couraça e propulsão a vapor. O deslocamento dos navios aumenta consideravelmente (acima de 9 mil toneladas e a couraça 4.5 polegadas de espessura);

– a partir de 1856, adoção do sistema La Hitte (ranhuras no interior do tubo do canhão), dando mais precisão a granada;

– o design revolucionário do USS Monitor (1862) com uma grande inovação a introdução de uma torre blindada rotativa com dois canhões de 11’’ (os maiores já embarcados em um navio);

– a partir de 1867, a invenção do torpedo autopropulsado (torpedo Whitehead, 1870) e o uso dos motores a vapor para gerar energia elétrica nos navios;

– a partir de 1871, aperfeiçoamentos nas caldeiras a vapor tornam as máquinas mais eficientes;

– a partir de 1881, foi introduzido o projetil de aço fundido.

Nos último quarto de século verificamos um duelo entre couraças cada mais vez mais espeças e/ou resistentes contra canhões. As couraças se aproveitam do desenvolvimento tecnólogico da metalurgia, com novos métodos de produção de aço, introdução de ligas, a conteirização dos navios entre outros aperfeiçoamentos nas técnicas de construção naval. Os canhões seguem rumo semelhante, canhões com calibres e tubos cada vez maiores, capazes de atirar a longa distância, com uma cadência de tiro mais rápida (adoção de mecanismo a vapor/hidráulicos) e granadas utilizando explosivos químicos mais poderosos. Ao mesmo os sitemas de controle de tiro e comunicação se aprfeiçoam.

Na década de 1880, surgem os cruzadores protegidos e os cruzadores encouraçados. Os primeiros não dispunham de couraça lateral, enquanto que os encouraçados a possuíam.  Essa diferença na blindagem fazia com os protegidos fossem mais velozes e com uma cadência de tiro mais rápida em relação aos encouraçados, que podiam (ou não) terem canhões mais potentes.

https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Contratorpedero_Destructor.jpg

Influenciado pela francesa Jeune École, que defendia que navios pequenos, velozes e bem armados poderia destruir os navios couraçados, surgiram as Torpedeiras. As maiores marinhas como a britânica, a alemã, a italiana e a norte-americana seguiam a escola clássica. O que não quer dizer que estas marinhas não tivessem torpedeiras. A batalha naval do rio Yalu, na Guerra Sino-Japonesa, só ajudou a consolidar estes conceitos.

Nos últimos anos do século XIX, foi introduzido o submarino que conferiu uma nova dimensão a guerra naval. Outras invenções que foram incorporadas aos navios de guerra foram o telégrafo sem fio e o rádio, aumentando as capacidades de comando e controle antes, durante e depois da batalha.  

https://naval-encyclopedia.com/ww1/italy/regina-elena-class-battleships.php

No início do século XX, surgiu o couraçado-cruzador, navios que sacrificavam parte da proteção fornecida pela couraça, mas que mesmo assim deslocavam mais de 12 mil ton, canhões de 12 polegadas e velocidades de 22 nós.

As duas batalhas da Guerra Russo-Japonesa, a do Rio Amarelo e a de Tsushima, confirmam as expectativas de vários projetistas navais, em especial, o italiano, Vittorio Cuniberti, que defendia a construção de navio armado com grandes canhões, acima de 17 mil ton e com uma velocidade superior a 20 nós.

Japoneses e norte-americanos lançaram navio muitos semelhantes, mas que são considerados pré-dreadnought

No entanto para o almirante John “Jacky” Fisher, 1º Lorde do Mar, do Almirantado britânico, as especificações de Cuniberti não eram o bastante. Para ele o navio de batalha deveria combater na distância considerada ideal para usar plenamente seus canhões, para tanto deveria ter uma velocidade superior e ser capaz de sustenta-la por longos períodos de tempo, com uma espessa couraça protetora, armado com canhões pesados e de grande calibre. O HMS Dreadnought, deslocava 18 mil ton, foi o primeiro navio de capital a ser movido por turbinas a vapor, tornando-o o navio de guerra mais rápido do mundo no momento de sua conclusão, sua velocidade era 21 nós, dez canhões de 305 mm em cinco torres. A blindagem que envolve a lateral do navio era de 102-279, os decks de 102-279 mm, as torres de 76-303 mm, a torre de comando de 279 mm e as anteparas no interior do navio eram de 203 mm. Durante muito pouco tempo foi o mais moderno navio de guerra do mundo.

O lançamento do HMS Dreadnought colaborou para desencadear uma corrida de armamentos navais com a Marinha Imperial Alemã, que se esforçaram par asuperá-lo antes da eclosão Primeira Guerra Mundial.

No entanto, HMS Dreadnought foi rapidamente superado por outros navios recém-construídos. Em 1916, já não fazia parte da linha de batalha e não participou da Batalha de Jutlândia, sua única ação significativa foi afundar o submarino alemão SM U-29, tornando-se o único navio de guerra confirmado que afundou um submarino. Também não participou de nenhuma das outras batalhas navais da Primeira Guerra Mundial. Em maio de 1916, ele foi relegado para funções de defesa costeira no Canal da Mancha, não retornando à Grande Frota até 1918. 1919, foi para a reserva e vendido para sucata dois anos depois.

Imagem de Destaque: https://en.wikipedia.org/wiki/HMS_Dreadnought_(1906)

Os livros e o artigo indicado pela bibliografia são referências sobre o tema.

Bibliografia

– GARDINER, Robert; LAMBERT, Andrew. Steam, Steel and Shellfire: The Steam Warship, 1815–1905. London: Conways, 2001

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– KENNEDY, Paul M. The Rise and Fall of British Naval Mastery. Macmillan, London: Penguin, 1983

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– MASSIE, Robert K. Castles of Steel: Britain, Germany and the Winning of the Great War at Sea. New York: Ballantine Books, 2003.

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– SONDHAUS, Lawrence. Naval Warfare 1815–1914. London: Routledge, 2001

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– VIDIGAL, Armando A. F. A evolução tecnológica no setor naval na segunda metade do século XIX e as consequências para a Marinha do Brasil. Revista Marítima Brasileira. V. 138. Suplemento. Setembro 2018. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha, 2018.

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