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A Batalha do rio Yalu: a maior batalha naval da Guerra Sino-Japonesa

Prof. Dr. Ricardo Pereira Cabral

Em 17 de setembro de 1894, ocorreu a maior batalha naval entre países do Extremo Oriente e a maior da 1ª Guerra Sino Japonesa (1894-1895). A causa do conflito está ligada a posse da península coreana que era pretendida pelo Império Japonês. Além da batalha, neste ensaio vamos enfatizar a estruturação de esquadras por países com uma industrialização incipiente e sem muito recursos.

China

A Dinastia Qing vinha de uma série de derrotas: as duas Guerras do Ópio (1839-1842 e 1856-1860) para o Reino Unido e a Guerra Sino-Francesa (1884-1885). Tais derrotas levaram os chineses a modernizarem suas Forças Armadas. No entanto, a corrupção dos políticos e militares, o consumo do ópio, a logística precária, os baixos salários, a alimentação e a munição disponíveis para as tropas era de baixa qualidade, a falta investimentos, a liderança era frágil e os comandantes incompetentes. A inexistência de uma base industrial apenas agravava os problemas estruturais das Forças Armadas. A modernização era precária e a prontidão operacional das unidades eram baixas, mesmo com a contratação de conselheiros militares e dos recursos dispendidos.

A Marinha Chinesa

A Esquadra Beiyang era a principal das quatro esquadras chinesas modernizadas no final da dinastia Qing. No início da Primeira Guerra Sino-Japonesa essa Esquadra era percebida como dominante no Leste Asiático. Os próprios japoneses estavam apreensivos em enfrentar a esquadra chinesa, especialmente, devido aos dois navios construídos pelos alemães, os couraçados Dingyuan e Zhenyuan, para os quais os japoneses não tinham navios com as mesmas capacidades.

No entanto, as vantagens chinesas eram mais aparentes do que reais, já que a maioria dos navios de guerra chineses estavam obsoletos. Além disso, não tinham boa manutenção e as tripulações era indisciplinadas. Problemas comuns na maioria dos navios chineses.

A maior blindagem dos principais navios chineses, seria compensada pela cadência de tiro mais rápida da artilharia dos navios japoneses de primeira linha. Este foi um fator decisivo para a vitória japonesa. Outro fator eram os canhões dos couraçados chineses que tinham os tubos curtos, montados em dupla em duas torres giratórias, uma em cada bordo, ou seja, uma a bombordo e a outra a boreste, que só podiam disparar em ângulos restritos. Os canos curtos desses canhões significava que os projéteis tinham uma baixa velocidade de saída do tubo e um baixo nível de penetração. Além disso, sua precisão deixava a desejar a distância maiores, no limite do seu alcance.

https://en.wikipedia.org/wiki/Chinese_ironclad_Dingyuan#/media/File:Chinyen_Brassey’s.jpg

Em termos táticos, os navios da marinha chinesa entraram na guerra apenas com o conjunto de instruções, no mínimo, limitadas. Devido ao arranjo das armas a bordo, antes de entrar em combate, os navios deveriam formar em duas colunas e lutar ao lado do seu par, previamente, designados, deverendo se manterem juntos na formação enquanto durar a luta. A esquadra deveria seguir as manobras vindas da nau capitânia, aqui cabe uma pergunta por que não usavam bandeiras (como todas as marinhas da época), para indicar as manobras e ações a serem executadas pela esquadra? A resposta é que esse “arranjo” se fazia necessário porque o livro de sinais, usado pelos chineses, estava escrito em inglês, uma língua com a qual poucos oficiais da Esquadra Beiyang tinham conhecimento. No meu entendimento, a possibilidade de sucesso, em combate, de uma esquadra com esse “arranjo” era bem pequeno, como se constatou.

Japão

Quando confrontado pelo Ocidente, o Império do Sol Nascente tomou um caminho completamente diferente dos chineses. Durante a Era Meiji foram feitos esforços para modernizar as estruturas sócio-econômicas, o ensino e se estimulou a industrialização do país. O Exército, inicialmente, contratou duas missões francesas (1872-1880) e em 1874. A partir de 1885, o Japão adotou o modelo alemão. As reformas resultaram em uma nova organização militar: escolas militares, conscrição nacional, arsenais, a reorganização da estrutura de comando do exército em divisões e regimentos, reforço da logística e dos transportes (aumentando assim a mobilidade e a capacidade de se manter em ação), criação da artilharia e regimentos de engenharia com comandos independentes. Em 1890, o fruto da modernização era evidente, o Japão possuía dois exércitos, relativamente bem equipado, moderno, profissional e treinado no estilo ocidental. Os oficiais haviam estudado no exterior e tinham amplos conhecimentos a cerca da tática e estratégia moderna.

A Marinha Japonesa

A Marinha Japonesa foi modernizada tendo como base a Royal British Navy, a principal potência naval mundial da época. O Japão contratou conselheiros britânicos para treinar, aconselhar e educar a marinha japonesa. Oficiais foram enviados para o Reino Unido a fim estudar e se adestrar junto a Royal Navy. O resultado não demorou a aparecer. As tripulações dos navios da Marinha Imperial Japonesa eram disciplinadas e muito bem treinadas nas lides navais, tinham bons conhecimentos de máquinas e de técnica de tiro, os navios manobravam muito bem. Além disso, a esquadra praticava tiro e formações com frequência. Todos os seus manuais eram escritos em japonês, inclusive aqueles copiados dos ingleses.

No início da guerra, a Marinha Imperial Japonesa tinha uma esquadra de 12 navios de guerra modernos, oito corvetas, um couraçadoo, 26 torpedeiros e numerosos navios mercantes convertidos em cruzadores auxiliares. Um meio de grandes capaciddes, o cruzador protegido Izumi foi incorporado durante a guerra.

Os navios de guerra da Marinha Imperial Japonesa estavam distribuídos em três bases navais: Yokosuka, Kure e Sasebo. Após a mobilização, a Marinha seria composta por cinco divisões de navios de guerra de alto mar e três flotilhas de torpedeiros, uma quarta esquadra seria formada no início das hostilidades.

No final do século XIX, os japoneses tinham uma marinha mercante relativamente grande 288 navios. Destes, 66 navios pertenciam à companhia de navegação Nippon Yusen Kaisha, que recebia subsídios do governo japonês para manter os navios para uso da Marinha em tempos de guerra. Em consequência, a Marinha poderia mobilizar um número suficiente de auxiliares e transportes.

O Japão ainda não tinha muitos recursos para adquirir navios de guerra e planejava empregar a doutrina francesa Jeune École, proposta pelo almirante Théophile Aube, que prescrevia uma esquadra composta por navios de guerra pequenos e rápidos, especialmente, cruzadores e torpedeiros, mas com capacidade para destruir embarcações maiores. Antes da guerra eclodir, a liderança naval japonesa, ciente de suas limitações, era geralmente cautelosa e até mesmo defensiva. Tal atitude se devia, provavelmente, ao fato de que a marinha ainda não havia recebido os navios de guerra encomendados em 1893, particularmente, os couraçados Fuji e Yashima e o cruzador protegido Akashi. Em conseqüêcia, as hostilidades eclodiram em um momento considerado desfavorável, fazendo com que a Marinha Imperial estivesse menos confiante sobre o resultado de uma guerra com a China.

Como era comum na época, muitos dos principais navios de guerra da Marinha Imperal foram construídos em estaleiros britânicos e franceses (oito britânicos, três franceses e dois japoneses) e 16 dos torpedeiros foram construídos na França e montados no Japão.

A ordem de batalha

A Esquadra Combinada Japonesa consistia em duas formações. Um esquadrão leve, composto por quatro cruzadores leve Yoshino, Takachiho, Akitsushima e Naniwa, estava sob o comando do almirante Tsuboi Kōzō. O esquadrão principal consistia nos cruzadores Matsushima (nau capitânia), Chiyoda, Itsukushima e Hashidate, e os couraçados Fusō e Hiei, sob o comando do Almirante Itō Sukeyuki. Havia também dois navios de despacho, o mercante convertido Saikyō Maru e a canhoneira Akagi.

A Esquadra Beiyang, comandada pelo almirante chinês Ding Ruchang, era composta pelos couraçados Dingyuan e Zhenyuan, os cruzadores protegidos Jiyuan, Guangjia, Zhiyuan, Jingyuan, Laiyuan, Jingyuen, Chaoyong e Yangwei, estavam organizados em dois esquadrões, liderados pelos couraçados.

A batalha

A Esquadra Beiyang completou a escolta de um comboio até a foz do rio Yalu e estava retornando à sua base em Lüshunkou, quando foi atacada pela marinha japonesa. Teoricamente, como já dissemos, a Frota Beiyang tinha os navios superiores.

Tão logo avistou a esquadra japonesa, o almirante chinês Ding Ruchang tentou formar suas duas colunas em uma linha voltada para o sul, com os navios mais poderosos, os couraçados Dingyuan e Zhenyuan, formando pares no centro do dispositivo, os cruzadores Jiyuan, Guangjia, Zhiyuan, Jingyuan, Laiyuan, Jingyuen e na retaguarda os obsoletos cruzadores Chaoyong e Yangwei.  

Os japoneses formaram uma coluna, a linha de batalha, o esquadrão leve a frente e o principal a retaguarda.

O combate pode ser resumido da seguinte maneira: ouando o inimigo estava bem à vista, o Almirante japonês Sukeyuki Ito ordenou que o Esquadrão Leve atacasse o flanco direito da Frota Beiyang.  Os chineses abriram fogo a uma distância de 5 mil metros, que era muito longa para causar qualquer dano. Os japoneses seguraram o fogo enquanto se dirigiam diagonalmente pela Frota Beiyang com o dobro da velocidade. Ao sinal do almirante Ito, os esquadrões japoneses se dividiram. O Esquadrão Leve se dirigiu para o centro da formação chinesa. Virando-se ligeiramente para bombordo, o esquadrão leve então se moveu ao redor do flanco direito da formação chinesa para atacar as unidades mais fracas. Segurando o fogo até que estivessem em alcance efetivo, os cruzadores japoneses golpearam Chaoyong e Yangwei. O Esquadrão Leve então se moveu para o norte para enfrentar os reforços chineses vindos do rio Yalu, o couraçado Pingyuan, a canhoneira Guangbing e as torpedeiras Fulong e Zuo 1.

O Esquadrão Principal japonês, inicialmente, seguiu o mesmo curso do Esquadrão Leve em direção à esquerda chinesa, mas completou a volta para circular atrás da frota chinesa. Quando o esquadrão leve virou para o sul, a Frota Beiyang foi pega entre os dois esquadrões japoneses. Dingyuan e Zhenyuan resistiram ao bombardeio mais pesado devido a sua blindagem, mas sofreram vários danos e provocando baixas no comando da esquadra chinesa. Os disparos rápidos dos canhões japoneses dizimaram as tripulações chinesas em seus conveses.

Enquanto isso, o Esquadrão Leve afundou o cruzador Zhiyuan que havia tentado abalroar um dos cruzadores japoneses, em seguida, partiu em perseguição de um dos vários navios da Divisão Esquerda chinesa que estavam abandonando sua frota e fugiam em direção às águas rasas ao norte. O Esquadrão Leve perseguiu e destruiu o cruzador Jingyuan, mas permitiu que os outros navios chineses escapassem. A essa altura, o Esquadrão Principal japonês estava circulando o que restava da força chinesa, os principais navios japoneses dispararam seus canhões varrendo o convés dos navios chineses e destruíndo suas superestruturas. Muitos dos navios japoneses, sofreram grandes danos. Yoshino foi atingido e Akagi e Saikyō Maru estavam fora de ação. Os danos no Matsushima foram graves forçando o Almirante Ito a transferir o comando para o Hashidate.

No fim do dia, a Frota Beiyang estava perto do ponto de colapso total, a maioria dos navios da Esquadra havia fugido ou tinha sido afundada.

A esquadra japonesa teve cinco cruzadores protegidos e um couraçado danificado, além de 380 homens mortos ou feridos.

Já a esquadra chinesa teve afundados: um cruzador protegido, um cruzador blindado, dois cruzadores leves e um cruzador convertido. As baixas chinesas somaram 1.350.

Considerações finais

– A artilharia chinesa foi ineficiente, em todos os aspectos, em relação aos japoneses, tanto na cadência, quanto na precisão. Os japoneses souberam tirar proveito do alcance maior de suas armas e seu fogo além de provocar vários danos, afundaram os cruzadores Chaoyong e Yangwe;

– A superioridade da esquadra japonesa ficou evidenciada nas ações de comando e controle do comandante da Esquadra, a presteza na realização das manobras e do fogo de arilharia;

– Em que pese a blidagem menos espessa dos navios japoneses, o controle de danos foi eficiente e evitou danos ainda maiores. Outro ponto importante foi a qualidade da munição utilizada, que provocou grandes estragos nos navios chineses;

– A linha de batalha, adotada pelos japoneses, era a melhor formação que preservava a maior flexibilidade e simplicidade de movimento, minimizava a confusão tática e também maximizava o fogo lateral;

– A divisão da Esquadra em esquadrões, para que engajassem partes da esquadra inimiga aumento a flexibilidade tática e, conseqüentemente, ampliou as opções de manobra durante o caos da batalha;

Esta batalha foi muito estudada por todas as marinhas e influíram no desenvolvimento da construção naval. As lições aprendidas foram aplicadas na Guerra Russo-Japonesa e na Batalha de Tsushima.

Imagem de Capa: Hurrah for the Great Victory of the Navy of Great Japan at the Naval Battle of Incheon between Japan and Russia. Painel de Kobayashi Kiyochika (1904)

Bibliografia consultada

SONDHAUS, Lawrence. Naval Warfare, 1815–1914. London: Routledge, 2001.

Bibliografia indicada

OLENDER, Pioter. Sino-Japanese Naval War 1894-1895, disponível no formato kindle, no link: https://www.amazon.com.br/gp/product/B00M483XN2/ref=as_li_qf_asin_il_tl?ie=UTF8&tag=hmd2021-20&creative=9325&linkCode=as2&creativeASIN=B00M483XN2&linkId=511bee7134597f714d2b2d896fe41dbe

Sites consultados

https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_the_Yalu_River_(1894)

https://pt.wikipedia.org/wiki/Primeira_Guerra_Sino-Japonesa

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Map_of_Battle_of_the_Yalu_River_(1894).jpg

https://cimsec.org/the-decisive-fleet-engagement-at-the–of-the-yalu-river/

No You Tube tem um filmete sobre a  Batalha do rio Yalu, disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=ttfD4cVSKsw

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