BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DO CONFLITO RUSSO-UCRANIANO

de

Amanda Marini1

As hostilidades e desentendimentos entre a Rússia e a Ucrânia são anteriores ao início da “Operação Militar Especial” em 24 de fevereiro de 2022. Apesar de serem Estados com profundas raízes históricas, sociais e culturais compartilhadas, desde o desmantelamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) no Natal de 1991, quando a Ucrânia retomou a sua independência, o país vem tendo um intuito e comportamento de afastamento do seu vizinho do Leste. A partir do século XXI as instabilidades geopolíticas entre os dois Estados passaram a se agravar de fato, com destaque a eclosão da Revolução Laranja, em 2004. Neste episódio histórico que se alastrou pelo território ucraniano, a população civil se organizou em várias manifestações contra a corrupção local e posicionamentos a respeito de fraudes no sistema eleitoral, especialmente, na eleição presidencial daquele ano. Uma das bandeiras da causa popular dizia sobre manipulações feitas a mando da Rússia e que Moscou mantinha ingerência no país, mesmo que desde 1991 a Ucrânia fosse independente. Neste cenário, existia uma parcela da população, principalmente, no centro e oeste do país, que se via contrária à influência russa frente ao Estado ucraniano.

Nos anos 2010, a Ucrânia manifestou o seu desejo e interesse de fazer parte, integrar a União Europeia. Entretanto, esta ação não seguiu adiante, devido a posicionamentos da instituição supranacional a respeito que o país do Leste Europeu não era de fato uma “democracia plena”, devido a vários aspectos, dentre os quais se destacam prisões arbitrárias de opositores ao governo e ingerências russas na política nacional. Ademais, no final de 2013 e início de 2014, uma série de manifestações se espalharam pela Ucrânia, com críticas generalizadas ao governo da época, sua política econômica, além de interesse civil por uma maior integração com o resto do continente europeu, com ênfase à Europa Ocidental. Neste episódio, mesmo após uma década, as pautas da Revolução Laranja como combate à corrupção e contenção das ingerências russas continuaram ativas e densas. Por fim, as manifestações aumentaram, ao mesmo passo da repreensão e violência política e policial. Além do mais, um dos ápices deste cenário foi a destituição do presidente na época, Viktor Yanukovych, de cunho pró-Rússia. Vale ressaltar que todo este episódio histórico ficou conhecido como Euromaidan e é contemporâneo ao conflito pela região da Crimeia.

O início da tensão da Crimeia resume-se ao fato de que uma porção da população ucraniana, especialmente, residentes da faixa de fronteira com a Rússia, se opuseram às manifestações que estavam ocorrendo, especialmente, ao fato de uma possível maior integração com a Europa Ocidental em detrimento de Moscou. Em outras palavras, esta população, que se autodeclara como etnicamente russa, apesar de viver no que é Estado ucraniano, queria ter maior autonomia sobre suas províncias e territórios, o que estava sendo questionado pelo Parlamento Ucraniano no meio de todas estas tensões e agitos resultantes dos protestos do Euromaidan. Ao longo destas hostilidades, as tropas russas começaram a se aproximar, territorialmente, desta região que é muito importante geoestrategicamente, visto sua posição de destaque no Mar Negro e também para a passagem de gasodutos. Neste ensejo, militares russos começaram a tomar e a deter acesso de significantes posições estratégicas e IC’s (infraestruturas críticas) dentro da Crimeia. No decorrer dos meses de 2014, a Rússia, violando a soberania ucraniana, realizou um referendo local, criticado internacionalmente, e anexou a Crimeia ao Estado russo, ação esta que se mantém até os dias de hoje.

Desde este período até o começo da década de 2020, Kiev vem passando por várias transformações sociais e políticas, sendo que a possibilidade e interesse de entrada na OTAN foi um dos momentos que mais contribuiu para a intensificação das instabilidades com Moscou. Resumidamente, de um lado há a Ucrânia que gostaria de ter uma maior Inserção Internacional, e do outro, a Rússia com preocupação em relação a sua Segurança e Defesa, em virtude de uma possível “expansão dita ocidental”, na sua fronteira. Desse modo, com base no observado, compreende-se como a Guerra Russo-Ucraniana possui raízes muito mais densas do que apenas o início da fase terrestre no final de fevereiro de 2022. Isto posto, ao analisar o cenário histórico e geopolítico entre a Rússia e a Ucrânia, nota-se que o começo das operações militares e hostilidades no teatro de operações nunca é sem maiores prerrogativas, sempre há diversas variáveis e escaladas de tensões por trás, bem como narrativas e retóricas sendo construídas – como neste caso, em específico, o exemplo do reconhecimento russo da independência das províncias ucranianas de Donetsk e Lugansk – que vão se aglutinando até o embate no campo de operações iniciar-se de fato.

Ademais, Carl von Clausewitz, em uma das suas sentenças mais notórias, afirma que a guerra é a continuação da política com a entremistura de outros meios, estes que podem vir a ser violentos. Ao longo da obra Da Guerra, ele elucida que o conflito é um ato violento de impor a vontade ao adversário, o enfraquecendo e desarmando, que, em outras palavras, se traduzem em aniquilar, desarmar o oponente, para impor sua vontade, o que muitas vezes se converge em conquistas territoriais, anexações e imposições políticas. E ao analisar o conflito no Leste Europeu, observa-se que tanto a Rússia quanto a Ucrânia estão ambicionando o mesmo fim. Com as ações em terra, quando os militares russos adentraram o território ucraniano a partir de suas bases militares próximas, observou-se vários fenômenos, como que a compreensão veiculada pela acadêmica Mary Kaldor de que as guerras interestatais estavam obsoletas, se encontrava defasada. O continente europeu voltou a ser palco de embates entre as Forças Armadas regulares de dois Estados em prol das suas sociedades, e ao mesmo tempo passava a contar com um aumento expressivo de tropas de mercenários lutando em ambos os lados da disputa, com destaque para o Grupo Wagner de orientação pró-Rússia. Também destaca-se a presença de muitos militantes radicais e que beiram ao extremismo, além da expansão de grupos paramilitares e milícias que se formaram nos dois pólos da guerra, o que dialoga com o que Clausewitz elucidou na compreensão da sua Trindade Notável, da paixão e violência estar relacionada ao povo, mas também, podendo estar presente nas tropas militares.

Apesar da Rússia ter um maior e mais sofisticado arsenal militar que a Ucrânia e um dos maiores investimentos mundiais em Defesa, além de uma sólida Base Industrial de Defesa, o conflito se alastra há anos, e também já se configura como sendo a principal e maior guerra interestatal na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Uma das variáveis por trás deste cenário é o envio maciço de recursos econômicos e militares, como forças especiais, dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha, Polônia e Reino Unido para a Ucrânia. Em um primeiro momento, houve o envio de muitos armamentos e materiais bélicos de última geração, contudo, não ocorreu preparo e treinamentos adequados para os militares ucranianos manuseá-los, configurando-se um desafio no teatro de operações e requerendo, cada vez mais, o encaminhamento de forças especiais. Além do mais, esta ação de doação de equipamentos militares possibilita uma visão e interpretação de que se trata de uma guerra entre dois pólos opostos de poder, uma compreensão de que a Ucrânia seria como uma espécie de “última fronteira”. Em outras palavras, vislumbra-se um embate entre uma ótica de mundo “ocidental” com os Estados Unidos, OTAN e União Europeia e do outro a Rússia com o seu expansionismo que ganhou uma nova era no governo Putin. Outrossim, a grande mídia de massas desempenhou um papel crucial, especialmente, no Ocidente e América Latina, propagando uma leitura pró-Ucrânia, sem maior entendimento dos motivos que levaram à ação militar por parte do Kremlin. Os veículos de informação passaram a construir uma imagem da Ucrânia tida como “boa” e a Rússia como “má”, papéis estes que não cabem quando se fala e analisa política internacional. Cada vez mais, torna-se primordial compreender os aspectos históricos e geopolíticos por trás de todas as investidas bélicas, bem como interpretar que a eclosão da guerra é constituída por diversos entes que vão além da divisão entre política, estratégia e tática.

Em relação às consequências internacionais deste conflito, no último biênio houve um aumento considerável do gasto bélico em todo o mundo, resultado este impulsionado pelo conflito no Leste Europeu, uma vez que, como visto, vários países enviaram recursos militares para a Ucrânia. Outro aspecto é que grande parcela dos países do Norte Global impusera sanções econômicas a Moscou, estas que acabam sendo contornadas pelo regime de Putin, principalmente, pelo aumento do seu comércio internacional com países parceiros do Sul Global e dos BRICS. A Rússia, mesmo isolada de certos fóruns internacionais, continua sendo um ator de peso na geopolítica mundial, e mesmo em conflito com a Ucrânia, manifestou interesse em mediar soluções para a Guerra em Gaza e vem recebendo integrantes dos grupos paramilitares do Oriente Médio, como do Hamas e da Jihad, além de se dedicar também pelo fim do conflito civil na Síria. Ou seja, apesar do intuito das potências ocidentais no isolamento diplomático e econômico da Rússia, Moscou tem conseguido executar, conduzir e criar parcerias relevantes, em outras regiões, especialmente, quando se trata dos países do Sul, dentre os quais se destaca a China, Índia e Irã, este que vende veículos aéreos não tripulados do tipo Shahed-131/136 que são usadas na Guerra Russo-Ucraniana.

Em pouco mais de oitocentos dias desde o início das hostilidades, em caráter tático e operacional, o governo de Kiev não caiu, ou seja, não ocorreu a coerção para objetivos políticos, e o avanço e o controle das tropas russas se concretizaram e estabilizaram mais na porção russófila da Ucrânia, ao leste e o sul do país. Com base no que foi apresentado, anteriormente, o atual conflito, apesar de ter impactos internacionais e atores estatais de outros territórios envoltos, indiretamente às operações bélicas, se configura como um conflito limitado, em termos de porções territoriais e teatro de operações no Leste Europeu. Entretanto, continua sendo um dos maiores confrontos bélicos do século, só que com as batalhas e operações limitadas geograficamente. Por fim, o panorama desta guerra apresenta como que uma guerra convencional continua em voga no século XXI, e dialoga com os ensinamentos não apenas de um velho prussiano do século XIX, mas também com Sun Tzu, quinhentos anos antes de Cristo, de que a guerra é de notoriedade incontestável para o Estado, visto que delibera sobre a sua segurança ou ruína, ressaltando a importância de estudá-la.

1 Professora de Relações Internacionais. Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestra e doutoranda em Ciências Militares.

REFERÊNCIAS

BAUD, Jacques. Ukraine between war and peace. Paris: Max Milo, 2023.

HOWARD, M. Clausewitz: a very short introduction. Oxford: Oxford University

Press, 2002.

PARET, Peter. Construtores da estratégia moderna: de Maquiavel à era nuclear/

Editado por Peter Paret com colaboração de Gordon A. Graig e Felix Gilbert, traduzidopor Joubert de Oliveira Brízida. – Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 2001.

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