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Shogunato: o regime marcial dos samurais

Prof. Esp. Douglas Magalhães Almeida

O Shogunato é um fenômeno político e militar japonês, fruto de seu contexto histórico com a ascensão dos samurais no final do século XII. Ele pode ser entendido como um regime marcial controlado por um general samurai que passa a reger os interesses políticos, econômicos e marciais do Império Yamato enquanto ao Imperador fica relegado apenas uma característica de administrador religioso, como um grande sacerdote.

Esse governante que comanda um Shogunato se chama Seii Tai-Shôgun, simplificado como Shôgun, e tem seu posto e privilégios garantidos por hereditáriedade, tendo havido três longos períodos de Shogunato na história do Japão, o governado pelo Clã Minamoto (1192-1333), o pelo Clã Ashikaga (1338-1573) e por fim pelo Clã Tokugawa (1603-1867).

A tradução do termo Seii Tai-Shôgun já foi relacionada a diversos conceitos inadequados que caem em noções orientalistas de interpretação do oriente a partir de preconcepções do ocidente. Por exemplo, já foi traduzido como Ditador Militar, logo interpretando equivocadamente o Shogunato como uma Ditadura Militar, o que é um conceito-constructo ocidental imposto a uma realidade de experiência totalmente diferente.

O governo respeitava mesmo que solenemente e tradicionalmente à autoridade da Casa Imperial, ampliando ou reduzindo sua atuação conforme os momentos históricos, sendo caracterizado por ser um poder cedido pelo imperador que tinha a característica de ser bastante dinâmico historicamente, e não estático. O próprio poder de um Shôgun poucas vezes fora absoluto, sempre submetido a constantes trocas de autoridades e sendo bastante ambíguo na balança de poder. Assim, retomamos essa ideia de que o Shogunato é um fenômeno único de própria característica nipônica.

A administração do Shogunato regulava as terras do Império Yamato através de uma rede que legitimava cargos públicos cedidos a samurais que representavam diretamente o Seii Tai Shogun nos territórios, sendo eles de Jitô, um mandatário provincial para manter a ordem, além de julgar e solucionar questões civis; e o Shugô, um comissário representante do próprio Shogunato na província afim de assuntos militares e responsável por legitimar e fiscalizar as atividades de samurais locais. Ambos os cargos de oficiais respondiam ao Bakufu, a cidade onde estava centrada a administração do Shogunato.

Bakufu ao pé-da-letra significa a tenda do general em um acampamento, mas nesse caso é o centro do poder do Shogunato, o que entretanto não pode ser confundido com a capital, a qual se manteve em Kyoto durante todo o período feudal. Os Bakufus foram Kamakura, no período do Clã Minamoto; O bairro de Muromachi, em Kyoto, no período do Clã Ashikaga; e na cidade de Edo, no período do Clã Tokugawa.

Os governos de Shogunato foram bastante dinâmicos, no sentido que assumiram aspectos bem próprios. O primeiro, residido em Kamakura pelos Minamotos, teve uma troca de poder após uma conspiração do clã aliado a eles, os Hôjô, levando esses últimos ascenderem ao poder de facto como regentes Shikken Seiji. Foi um período em que o status guerreiro de samurai era legitimado pelo Estado com uma grande burocratização da atividade marcial, a exemplo que todos os conflitos, de pequenas escaramuças até à resistência às Invasões Mongóis (1274, 1281), são marcados por uma grande produção de relatórios oficiais informando a atuação de cada guerreiro.

O Shogunato de Muromachi provém com a queda de Kamakura em 1333, derrubada após eventos resultantes do descontentamento de muitos samurais com o governo dos Hôjô, levando a uma tentativa de restauração do poder imperial pelo Imperador Gô-Daigo com apoio de Ashikaga Takauji, futuro primeiro Seii Tai-Shôgun de seu clã. Apesar da restauração ter sido concretizada, durou 3 anos apenas, sendo derrubada para instaurar o Bakufu em Muromachi. Os Ashikaga foram responsáveis no início de seu período pela aproximação dos samurais com a alta aristocracia cortesã, assumindo características do Budismo Zen para o status Samurai. Entretanto, também foi responsável por um governo frágil que aos poucos fragmentou o poder central até a descentralização em 1467 da Rebelião de Onin que levou ao Período das Províncias em Guerra (Sengoku Jidai) e o declínio da burocracia do Shogunato.

Por fim, após a Batalha de Sekigahara (1600) e o cerco ao Castelo de Osaka (1615), Tokugawa Ieyasu estabeleceu seu poder com o terceiro Bakufu em Edo, por onde seu clã governou até o advento da contemporaneidade em 1868, quando os samurais descontentes com os últimos Shôguns se uniram aos interesses de restauração do poder imperial e dos estrangeiros para derrubar o regime marcial e estabelecer a nova era da modernização do Japão.

Tokugawa Iemitsu

Imagem de Destaque: Pintura por Impressão de Madeira, “Tokugawa Iemitsu recebe os Daimyôs em audiência” (1875), por Tsukioka Yoshitoshi (1839-1892). Da série “Pequenas Biografias dos 15 Shoguns Tokugawas”.

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