Suécia na Segunda Guerra Mundial: Neutralidade?

de

Profº. Esp. Pedro Silva Drummond

Introdução

A Segunda Guerra Mundial foi um acontecimento que atingiu todo o Continente Europeu, com a participação da maioria dos Países da região. Durante o conflito, algumas Nações tiveram um maior ou menor protagonismo no evento, e outras se mantiveram neutras.

O presente texto pretende analisar justamente essa visão sobre a neutralidade, principalmente no caso da Suécia. Realmente alguns Países foram neutros? Suécia, Suíça, Portugal, Espanha, são algumas das Nações que indicaram uma postura neutra no conflito, mas que em diversos momentos do evento participaram do conflito através de comércios e permissões de utilização do espaço territorial ou aéreo em relação aos países envolvidos na guerra em ambos os lados.

Outra questão a ser analisada, é o conceito de Neutralidade. Um País neutro é somente aquele que não entra no conflito armado com seus militares ou uma Nação só pode ser considerada neutra, se realmente não tiver envolvimento com nenhum dos participantes?

Desde as Guerras Napoleônicas, a Suécia mantinha uma postura de neutralidade em relação aos conflitos envolvidos no Continente. A eclosão da Segunda Guerra Mundial foi um dos grandes momentos, onde essa postura sueca foi posta em “prova”, durante os mais de cem anos, com os conflitos russos e finlandeses e as conquistas da Alemanha, na Noruega e Dinamarca.

Mapa da Região
https://en.wikipedia.org/wiki/Sweden_during_World_War_II

Durante a Segunda Guerra Mundial mesmo a Suécia se declarando neutra, o País teve alguns envolvimentos no conflito. A Nação permitiu que a Wehrmacht (Forças Armadas da Alemanha) usasse ferrovias suecas para transportar soldados para URSS no período da Operação Barbarossa (invasão da Alemanha na URSS), manteve o comércio de minério de ferro com os alemães. Com os Aliados os suecos compartilharam inteligência militar e ajudaram no treinamento de soldados dinamarqueses e noruegueses para a libertação dessas Nações.

Conceito de Neutralidade

Desde o momento que iniciaram os conflitos militares no planeta, surgiram aqueles que se mantiveram Neutros durante uma guerra. Nesse sentido, o que seria a Neutralidade?

Segundo Franco Mosconi, “o termo Neutralidade serve para designar a condição jurídica em que, na comunidade internacional, se encontram os Estados que permanecem alheios a um conflito bélico existente entre dois ou mais Estados… Estados neutralizados são os que, geralmente mediante um tratado, assumiram como seu programa de ação generalizada o compromisso de se manterem alheios, neutrais, com relação a toda possível guerra futura (sem, logicamente, abrir mão do direito de defesa quando agredidos) e que receberam dos Estados contraentes o compromisso de nunca atacá-los e considerá-los, justamente, como neutrais..” (MOSCONI, p. 821 e 823, 1998)

Mosconi, ainda esclarece qual é o papel dos territórios no período das Guerras, “a eclosão do estado de guerra não implica qualquer renúncia ao princípio da inviolabilidade do território dos Estados que permanecem alheios ao conflito; origina, porém, no que diz respeito a estes Estados, o dever de zelar com todos os meios por esta inviolabilidade e de impedir que seu território venha a ser usado, desta ou daquela maneira, por qualquer um dos beligerantes como ponto de partida ou de apoio para operações militares. É expressamente reconhecido o poder que os Estados neutrais têm para receber no seu território formações militares ou indivíduos pertencentes às forças armadas em luta, prisioneiros de guerra fugitivos, feridos e doentes; porém, ao mesmo tempo, é definida sua obrigação de mantê-los e vigiá-los de modo que não possam participar mais das operações de guerra… As principais normas do direito de Neutralidade, de acordo com o que se encontra nas Convenções, dizem respeito ao território dos Estados neutrais, ao direito de asilo, à não emissão de atos capazes de influenciar o desenvolver-se das operações militares, ao comércio e à navegação de embarcações e aeronaves neutrais.” (MOSCONI, p. 822, 1998).

De acordo com Franco Mosconi, no Dicionário de Política a neutralidade acontece quando um Estado permanece alheio a um conflito bélico e quando o território não possa ser usado por nenhum dos beligerantes em operações militares. O caso da Suécia não se enquadra nesse conceito abordado por Mosconi, mesmo a Suécia não enviando formalmente, militares para o conflito, tanto os alemães, como os Aliados utilizaram do território sueco para seus esforços de guerra. A Alemanha usou ferrovias suecas para transportar soldados para URSS, enquanto os Aliados obtiveram dos suecos ajuda no treinamento de soldados dinamarqueses e noruegueses para a libertação desses Países.

Participação da Suécia na Guerra

Com o início da Segunda Guerra Mundial, a Suécia se declara um País Neutro, e poucos meses depois, com o conflito entre Rússia e Finlândia, conhecida como Guerra de Inverno, os suecos reafirmam a sua não beligerância em relação às disputas entre os dois países.

Essas declarações oficiais indicadas pela Suécia acabaram se tornando opostas as práticas do governo do País. O País durante boa parte da Segunda Guerra Mundial vendeu minério de ferros para a Alemanha, material importante para a campanha de guerra. Como explica Kaiya Rai: “A Alemanha usou esse minério em sua produção de armas, e o comércio da Suécia para a Alemanha acabou se tornando tão grande que dez milhões de toneladas de minério de ferro por ano eram enviadas para o Terceiro Reich. O governo não interferiu no comércio por causa de sua política oficial de neutralidade. A inteligência britânica havia identificado a dependência alemã dessa produção de minério e estimou que os preparativos da Alemanha para a guerra poderiam terminar em desastre se houvesse um atraso nas exportações. Portanto, os Aliados planejavam apreender os depósitos de minério de ferro usando o ataque soviético à Finlândia em novembro de 1939 como cobertura. Eles planejavam obter permissão norueguesa (o minério era embarcado por portos na Noruega para chegar à Alemanha) e sueca permissão para enviar forças expedicionárias para a Finlândia, sob o pretexto de ajudar os finlandeses, e uma vez lá, eles assumiriam o controle das cidades do norte para ganhar acesso ao minério e negar o acesso alemão a ele. No entanto, os noruegueses e suecos perceberam o perigo de permitir que uma força expedicionária fosse enviada através de suas nações e, portanto, se recusaram a permitir. Sir Ralph Glyn chegou a afirmar que, se as exportações de minério de ferro fossem interrompidas, o fim da guerra teria sido iminente, mostrando a crença dos Aliados na importância do comércio sueco para a Alemanha e, assim, iludindo a falta de neutralidade da Suécia durante a Segunda Guerra Mundial.” (RAI, History is now Magazine) 

Suécia se curva ao ultimato nazista
https://www.agefotostock.com/age/en/details-photo/nazi-invasion-of-norway-and-denmark-and-sweden-bows-to-nazi-ultimatum-during-the-second-world-war-as-reported-on-the-front-page-of-the-daily-sketch/MEV-10644418

No caso, do conflito entre Rússia e Finlândia, os suecos contribuíram ativamente com a Finlândia, através de ajudas de armamentos e financeiras.

Com a invasão da Alemanha na Noruega, os suecos permitiram o acesso das suas linhas telefônicas aos alemães e do telégrafo entre a Alemanha e a Noruega. Durante a ocupação alemã no território norueguês, a Suécia também permitiu que tropas alemãs pudessem ser transportadas de trem para o País vizinho.

Quanto ao conflito entre a Alemanha e a URSS, através da Operação Barbarossa, os suecos também permitiram o transporte de tropas, armamentos e equipamentos, da 163ª Divisão de Infantaria, que estava na Noruega, no que ficou conhecido como a Crise do Solstício de Verão. Posteriormente, alguns pesquisadores, analisam as controvérsias em relação ao evento, se realmente aconteceu uma crise ou a ideia de uma suposta crise foi somente para que a Suécia não fosse ligada a um apoio à invasão.

Após as derrotas militares e perdas territoriais da Alemanha, a Suécia iniciou uma mudança de postura, em relação à Alemanha e aos Aliados. Os desejos alemães começavam a sofrer resistência, enquanto os feitos pelos Aliados eram permitidos mais facilmente.

Essa mudança de postura, não significa que antes os suecos não vinham contribuindo também com os Aliados. Desde 1940, a contribuição sueca já vinha ocorrendo, com o aluguel de parte da marinha mercante aos britânicos e interceptação das mensagens enviadas pelos alemães através de telégrafos.

Durante o ano de 1943, as tropas de resistência norueguesas começaram a receber treinamento na Suécia, o mesmo ocorreu com dinamarqueses. Em 1945, aviões norte-americanos foram autorizados a utilizar bases militares suecas para a libertação da Noruega, foi permitido que espiões Aliados ouvissem sinais de rádio alemães de uma estação na Suécia, e um radiofarol foi estabelecido no País para militares britânicos se orientarem em relação ao bombardeio na Alemanha.

Castelo Sueco que serviu de academia militar norueguesa durante a Segunda Guerra Mundial
https://en.wikipedia.org/wiki/Sweden_during_World_War_II

Conclusão

A Suécia desde o primeiro dia de guerra indicava ao Mundo que se manteria Neutra, prática que sustentava desde as Guerras Napoleônicas. Com as primeiras batalhas próximas ao seu território, como a Guerra de Inverno, entre Rússia e Finlândia, e posteriormente, com as invasões da Alemanha na Noruega e Dinamarca, essa situação se manteve ameaçada, e durante toda a Segunda Guerra Mundial, a Suécia fez concessões para ambos os lados, como esclarece Kaiya Rai: “Em conclusão, acho que é seguro afirmar que a Suécia era apenas no nome, um país neutro durante o curso da Segunda Guerra Mundial. No entanto, ajudou os dois lados, o que talvez tenha levado ao debate em torno da realidade de sua neutralidade. Arne Ruth argumenta que “a Suécia não era neutra, a Suécia era fraca”, e Winston Churchill acreditava que a Suécia “ignorou as maiores questões morais da guerra e jogou os dois lados pelo lucro”, embora isso possa ser desacreditado devido às evidências que apontam à imensa ajuda do país para salvar tantas vítimas do regime nazista.” (RAI, History is now Magazine) 

No caso da Suécia, a Neutralidade é contestada por diversas situações. O conceito, contexto histórico, todos esses aspectos que possam ser analisados, é observado que a Nação não se enquadra na ideia de País Neutro. A Suécia se relacionou e permitiu o acesso ao seu território por ambos os lados beligerantes, além do comércio com a Alemanha que foi essencial para a sua máquina de guerra.

Nas últimas décadas, todos esses fatos voltaram a ser analisados com a abertura de novos arquivos e consequentemente, novas perspectivas e questionamentos. Nesse sentido, novas perguntas e respostas sobre a Neutralidade da Suécia na Segunda Guerra Mundial estão surgindo.

Imagem de Destaque: https://www.youtube.com/watch?v=6Osntnpq4qo

Bibliografia

– WIKLUND, Mats. Verdade obscura de como uma Suécia neutra encobriu sua colaboração com os nazistas. Disponível em:  <https://www.independent.co.uk/news/world/europe/murky-truth-of-how-a-neutral-sweden-covered-up-its-collaboration-with-nazis-5372299.html>

– RAI, Kaiya. History is now Magazine. Disponível em:  <http://www.historyisnowmagazine.com/blog/2017/12/18/was-sweden-really-neutral-in-world-war-two#.YolBIcPMLIV=>

– https://en.wikipedia.org/wiki/Sweden_during_World_War_II

 

Especialização em História Militar pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), Graduação em História (Bacharel e Licenciatura) pela Universidade Gama Filho (UGF), autor de Artigos em História Militar.

5 comentários em “Suécia na Segunda Guerra Mundial: Neutralidade?”

  1. Os «nazis» tinham um considerável apoio na Suécia, sobretudo através de Goering. A primeira mulher deste, Karin, era sueca, e uma nacional-socialista fanática. Falecida antes dos «nazis» chegarem ao poder, esteve inicialmente sepultada num cemitério sueco, mas a sepultura foi profanada por dísticos anti-nazis. Goerting construiu um palácio a que chamou «Karinhall» e levou para lá os restos mortais. As «viagens» dos ossos de Karin não acabaram aí, mas não quero tornar este comentário demasiado extenso.

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    • Prezado João Mendes Pinto,
      Muito obrigado pelo seu comentário!!!
      O objetivo do ensaio é colocar a questão da colaboração de alguns países considerados neutros com o regime nazista.
      Continue acompanhando nossas postagens!!!
      Equipe HMD

      Responder

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