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Uma tragédia europeia: A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648)

Prof. Dr. Ricardo Cabral

Resumo

A Guerra dos Trinta anos foi o conflito mais destruidor da Europa até o século XIX. As suas causas estão ligadas a rivalidades religiosas e políticas e provocou milhões de mortes e devastou a região central do continente europeu.

Introdução

A Guerra dos Trinta Anos foi um conflito entre diversos Estados, da Europa, cujas causas tem origem em rivalidades políticas e religiosas, questões de equilíbrio de poder entre as grandes potências do período (Império Habsburgo, Espanha, França, Dinamarca, Suécia e Espanha) e disputas comerciais.  A guerra foi bastante destrutiva, principalmente, na região que hoje conhecemos como a Alemanha, provocando sérios problemas econômicos e demográficos, com alta mortalidade devido a disseminação de doenças provocadas pelas destruições, violência contra a população, o roubo da produção agrícola, quebras de safra e saques das cidades e propriedades. Tamanha violência contra população provocou uma série de revoltas camponesas contra os exércitos que lutavam na região, tendo como causa primária as catástrofes que estes provocavam. A guerra instalou o caos na região central da Europa com ampla repercussão em todo o continente.

A Guerra dos Trinta Anos

A Guerra dos Trinta Anos ocorreu e se interligou com uma série de conflitos que envolviam os países que lutavam nela, direta ou indiretamente, e às vezes lhe eram anteriores, como a Guerra de Independência da Holanda ou a Guerra dos Oitenta anos (1568-1648), a Guerra Luso-Holandesa (1595-1663), Guerra da Restauração Portuguesa (1640-1668) e a Guerra Franco-Espanhola (1635-1659).

A Casa Habsburgo governava diretamente uma grande parte do Sacro Império Romano-Germânico, a Áustria, a Boêmia e parte do que hoje é a Hungria. Os Habsburgos também governavam a Espanha, o e outras sul da Itália, Países Baixos católicos, Filipinas e possuíam amplos territórios nas Américas. Seus maiores rivais eram os Bourbons, da França.  No Sacro Império a autoridade do Imperador era apenas nominal e para governar exigia alianças e complexas negociações, podemos dizer que o Habsburgo só comandava diretamente seus territórios hereditários. Daí o interesse em reforçar sua autoridade e ampliar os seus poderes dentro do Império, impondo governantes aliados, na maioria das vezes pela força, em cada caso onde a sucessão não estava bem definida ou que poderia ser contestada.

A causa imediata do conflito foi o crescimento do calvinismo. A Paz de Augsburgo (1555) que deu fim ao conflito entre católicos e luteranos, não resolveu a tensão e a rivalidade entre os dois grupos religiosos. O quadro se agravou com a ascensão de uma nova seita religiosa, o calvinismo, que alterou o status quo e as relações políticas dentro do Sacro Império Romano-Germânico. A contrarreforma promoveu uma reação do catolicismo que se juntou ao projeto expansionista Habsburgo dentro do Sacro Império, no sentido de ampliar os poderes do Imperador.

Os imperadores Habsburgos do Sacro Império tomaram uma série de medidas visando limitar a expansão e a liberdade de culto dos luteranos. Estes reagiram e formaram a União Protestante (1608) como uma aliança defensiva. Em 1609, os católicos, então criaram a Liga Católica. Diante desse quadro de crescentes rivalidades a guerra tornou-se inevitável para a solução do impasse.

A guerra começou com uma disputa na sucessão do trono da Boêmia (atual República Tcheca). Os católicos contando com o apoio dos Habsburgos, dos Estados germânicos católicos e do Papa conseguiram derrotar os protestantes, o que provocou a revolta da população protestante (a Defenestração de Praga, 1618).

A Guerra dos Trinta Anos, para fins didáticos, pode ser dividida nas seguintes fases: I – A Revolta Boêmia (1618-1620); II – A Campanha do Palatinato (1620-1624); III – A Intervenção da Dinamarca (1625-1629); IV – A Intervenção da Suécia (1630-1635) e V – A Intervenção Francesa (1635-1648).

I – A Revolta Boêmia (1618-1620)

As tropas protestantes da Liga evangélica tiveram sucessos iniciais, mas foram derrotadas na Batalha de Montanha Branca, comandadas pelo General Johann Tserclaes von Tilly. A repressão aos protestas revoltados foi violenta, o que provocou viva resistência.

Batalha da Montanha Branca (1620)

II – A Campanha do Palatinato (1620-1624)

Após a derrota a União Evangélica foi desmobilizada, mas Frederico V, do Palatinato, uma das lideranças evangélicas, continuou com a luta no seu território. No final, Fernando II, da Áustria, com ajuda da Espanha e da Baviera, conquistam o Palatinato, tornando o território novamente católico. Esta situação vai provocar a reação dos Estados protestantes e da França.

Batalha de Fleurus (1622)

III – A Intervenção da Dinamarca (1625-1629)

Após os eventos no Platinato, os evangélicos buscam apoio no exterior entre as  lideranças da mesma seita religiosa e de países que tinham rivalidade com os Habsburgo da Áustria e da Espanha.

O rei Cristiano IV, da Dinamarca, protestante e príncipe do Império, interviu no conflito em apoio de príncipes germânicos luteranos e calvinistas. As forças imperiais, reforçadas pelo exército mercenário, comandado por Albrecht von Wallestein (1583-1634), obtiveram uma série de vitórias.

Batalha de Lutter am Baremberge (1626)

IV – A Intervenção da Suécia (1630-1635)

A França liderada pelo Cardeal Richelieu (1585-1642), ministro de Luís XII, preocupado com o poderio Habsburgo, convenceu o protestante rei Gustavo Adolfo (1594-1632), da Suécia, a intervir no conflito.

O Exército sueco era experiente, disciplinado e bem instruído, com táticas do uso de fogos, composto, basicamente, de camponeses e um pequeno número de mercenários. Gustavo Adolfo obteve uma série de vitórias sobre as tropas imperiais. Na Batalha Lützen (1632), o exército protestante obteve uma amarga vitória, devido as numerosas baixas e a morte de Gustavo Adolfo. A luta prosseguiu e a Polônia interviu contra os suecos, muito envolvidos na Alemanha, sofreram que uma grande derrota em Nördlingen (Baviera, Alemanha) frente as tropas imperiais e os levou a abandonar o conflito.

Rei Gustavo Adolfo

V – A Intervenção Francesa (1635-1648)

Com a saída da Suécia, a França resolveu intervir diretamente contra à Espanha. Entre 1642 e 1645 os Exércitos suecos interviram em aliança com a França. As tropas francesas lideradas Turenne (1611-1675) e Condé (1621-1686), os suecos liderados por Lennart Torstensson (1603-1651) obtiveram seguidas vitórias contra os Habsburgos, sendo as mais importantes Rocroi, Nördlingen e Jakau (1643). Apesar das derrotas os conflitos prosseguiram na Alemanha, no Luxemburgo, nos Países Baixos e na Espanha, até 1647. Os tratados de Münster e Osnabrück (consagrados como os Tratados de Westfalia) e os Tratados dos Pirineus (1659) e que vão estabelecer a paz na Europa e consagrar vários conceitos nas relações internacionais, em especial, o de soberania.

Batalha de Rocroi (1643)

As consequências

A garantia da liberdade de culto prevista no Tratado de Augsburgo (1555). Os Habsburgos foram obrigados a se concentrar nos territórios austríacos e voltaram para a conquista dos territórios otomanos na Europa. A França tomou o Rossilion, Alsácia, Lorena e reconhecimento de três bispados (Metz, Toul e Verdun). A Suécia recebeu a Pomerânia ocidental alemã. A Espanha foi uma grande derrotada, foi obrigada a reconhecer a independência dos Países Baixos, e perdeu a superioridade naval e a militar que detinha até então. A França passa a deter a hegemonia europeia e a Suécia passa a condição de grande potência europeia. Os Habsburgos se enfraquecem politicamente nos territórios de língua alemã e iniciam uma expansão contra as terras europeias pertencentes ao Império Otomoano. A região de língua alemã sofreu pesadas destruições como já mencionamos e com a fragmentação política imposta pelos vencedores vai atrasar a formação de um Estado nacional.

O impacto na conduta da Guerra

McNeil afirma que entre os séculos XIV e XVI desenvolveu-se um “complexo comercial-militar”¹. Este sistema está diretamente relacionado ao aperfeiçoamento do aparelho burocrático administrativos dos Estados e a formação dos estados Nacionais, ainda que não necessariamente, pois estados conseguiram se organizar. Tal estrutura responsável pela coleta de impostos, medidas como a consolidação da justiça real, a padronização de pesos, medidas e moedas proveram o Estado de recursos para formar exércitos de mercenários e tropas do governante, para atuarem com as milícias locais organizadas e comandadas por nobres (vassalos ou não). O fato dos soberanos terem uma renda, facilitava o levantamento de empréstimos para investir na guerra.

¹McNEILL, WILLIAM H. Em busca do poder. Rio de Janeiro: Bibliex, 2014. Pág.139.

Outro ponto foi a burocratização da administração militar, que permitiu um certo nível de padronização dos armamentos, a construção de depósitos, fortalezas, recursos para o treinamento a fim de tornar o exército mais eficiente. A máquina militar garantia não só a segurança das fronteiras, mas também das comunicações permitindo o crescimento das atividades econômicas. Aos poucos o armamento vai sendo padronizado, a instrução militar vai tornando mais ágeis no combate e nas formações, tanto de ataque, quanto na defesa.

O uso cada vez maior de armas de fogo conjugados com formações de soldados dotados de lanças e alabardes, canhões construídos de forma que pudessem ser manobrados a fim de apoiar o ataque, cavalaria pronta a desferir cargas a fim de desorganizar o inimigo, entre outras inovações táticas só puderam ser adotadas a partir da estruturação de unidades bem adestradas, os regimentos.

Ao lado das milícias locais e do Exército real, existiam as tropas mercenárias. Os monarcas comissionavam nobres para formarem companhias e regimentos para lutarem ao lado das forças reais. Estas tropas podiam ter grandes qualidades militares, serem leais e disciplinadas, mas essa não era a regra, muito pelo contrário, mesmo com pagamentos em dia, podiam mudar de lado. Normalmente, eram violentas com a população civil, fazendo saques e depredações. Por outro lado, foram durante um bom tempo o principal instrumento militar dos soberanos na Europa Central e na Itália. Em “A Arte da Guerra”, Machiavel condenou veementemente as tropas mercenárias e advogou a formação de milícias e exércitos locais.

A Guerra dos Trinta Anos é um ponto sem retorno na superioridade dos Exércitos Nacionais, como o francês e o sueco, sustentados por Estados Nacionais dotados de um complexa estrutura burocrático-administrativa, e com capacidade de coletar imposto e levantar empréstimos para empreenderem suas guerras. A guerra financiava a guerra, pois a expansão permitia arrecadar impostos e agregando a produção econômica e alistar homens nos novos territórios.

Neste período identificamos que os Estados, em especial os dotados de maiores capacidades econômicas, se preocupavam de construir redes de informações dedicada a coletar dados sobre as intenções e as capacidades dos inimigos, a movimentação de suas tropas, estavam atentos às encomendas de armas, munições, forragens, compra de cavalos entre outros indícios de que o inimigo se preparava para uma ação. Estas redes também promoviam muita desinformação, estimulavam intrigas, dissidências, sabotagens entre outras ações. Um ponto interessante, era que o desenvolvimento da imprensa permitia uma circulação cada vez maior de informações a partir dos livros dedicados à temática militar, tais como tratados sobre grande tática, tática, formas de treinamento e emprego da infantaria, cavalaria e artilharia, análises de batalhas, memórias entre tantos outros assuntos.

O principal responsável pelo desenvolvimento das rotinas de adestramento e das reformas na organização dos exércitos, não lutou na Guerra dos Trinta Anos. Maurício, de Nassau (1567-1625), príncipe de Orange, ao estudar as legiões romanas em busca de modelos para treinar e organizar seu exército e encontrou nos antigos autores romanos como Vegetius, Aelianus Tacticus entre outros, seu método foi apropriado e difundido pela Europa.

Wallestein foi um dos mercenários contratados por Fernando II, dos Habsburgos e do Sacro Império Romano-Germânico. O nobre boêmio se destacou nas lutas contra as forças protestantes em diversas batalhas. O seu sucesso nas batalhas, foi recompensado pelo imperador com novas terras, as quais juntou às suas propriedades, que depois de unidas formaram o Ducado de Friedland. A posse dessas terras, os saques que realizava durante as diversas campanhas militares que participou (1618-1634), lhe permitiram levantar empréstimos para a contratação de um grande exército de mercenários que, no seu auge, contava com um efetivo de 50 mil homens. Caso clássico da guerra sustentando a guerra e proporcionando lucros vultuosos ao vencedor e em especial ao comandante das tropas mercenárias. Suas forças eram conhecidas pela violência contra a população civil e de devastar as regiões por onde passava se apossando de todos os bens de valor.

Conclusão

No final da Guerra dos Trinta Anos pode-se afirmar que a forma de travar a guerra estava em plena transformação, com unidades disciplinadas e bem treinadas dotadas de vários tipos de armamento e equipamento, treinados para combater em diversas formações e capazes de efetuar manobras às vistas do inimigo, sempre que as circunstâncias da batalha ou do terreno assim o exigissem. O desenvolvimento tático, a evolução tecnológica havia incrementado exponencialmente as capacidades dos Exércitos. No entanto, os Exércitos ainda conviveriam por um bom tempo com tropas mercenárias, principalmente as especializadas, entre suas unidades combatentes.

Quer saber mais sobre a Idade Moderna, leia o artigo sobre A Guerra da Orelha de Jenkins (1739-1748), A Batalha de Cartagena das Índias (1741)  e os posts sobre Falklands/Malvinas: Origem do Conflito, Raid on the Medway (2ª Guerra Anglo-Holandesa – 1667)Navio de Linha na Era da Vela Robert Blake (um dos fundadores da Marinha inglesa), você pode navegar por este link, no nome do texto ou pelas categorias do site.

Bibliografia

  • BOONEY, Richard. The Thirty Years’ War 1618–1648. Wellingborough Worthants (UK): Osprey Publishing, 2002.
  • CORVISIER, André. História Contemporânea. São Paulo: Difel, 1983.
  • McNEILL, WILLIAM H. Em busca do poder. Rio de Janeiro: Bibliex, 2014
  • PARKER, Geoffrey. The Thirty Years’ War. London: Routledge, 1984.
  • WILSON, Peter H. Europe tragedy; A History of tge Thirty Years War. Peguin Books: New York, 2009.

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