A ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos em 2025 trouxe consigo uma abordagem política que muitos comparam às lições de Niccolò Machiavelli, o filósofo e estrategista renascentista. Em um artigo publicado em 14 de fevereiro de 2025, intitulado “Donald Trump’s Machiavellian Instincts”, o autor James Holmes explora como o novo presidente parece aplicar dois princípios fundamentais do pensamento maquiavélico: a dificuldade de implementar mudanças profundas e a necessidade de agir rapidamente contra os inimigos. Este artigo analisa essas ideias defendidas por Holmes e como elas se refletem nas ações de Trump.
Maquiavel além do estereótipo
Antes de mergulhar nas estratégias de Trump, é essencial desconstruir a imagem popular de Maquiavel como um defensor amoral do “os fins justificam os meios”. Na realidade, Maquiavel era um pensador pragmático que buscava ajudar líderes a consolidar seu poder de forma a garantir a estabilidade e o bem-estar do Estado. Suas obras, como O Príncipe e Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, oferecem conselhos sobre como governar em um ambiente político turbulento, como a Itália renascentista, onde a sobrevivência dependia de astúcia e força.
Maquiavel defendia que um líder sábio deveria buscar o apoio do povo, garantindo sua lealdade ao tornar a vida sob seu governo segura e satisfatória. Essa visão contrasta com a caricatura do tirano implacável, mostrando que o pensador florentino tinha uma abordagem mais complexa e, em muitos aspectos, humana.
A dificuldade de implementar mudanças radicais
Um dos principais insights de Maquiavel que se aplica a Trump é a dificuldade de promover mudanças fundamentais. Em O Príncipe, Maquiavel alerta que “nada é mais difícil de lidar, mais duvidoso de sucesso, nem mais perigoso de administrar do que se colocar à frente da introdução de novas ordens”. Para ele, “ordens” referem-se a instituições ou à cultura predominante em um Estado. Mudar essas estruturas é arriscado porque as pessoas tendem a preferir o familiar ao desconhecido, mesmo que o status quo seja problemático.
Trump, que se vê como uma figura revolucionária ou contrarrevolucionária, busca desmantelar o que considera os excessos de administrações anteriores e restaurar uma suposta grandeza passada. Seu slogan “Make America Great Again” reflete essa missão. No entanto, como Maquiavel prevê, Trump enfrenta resistência feroz daqueles que se beneficiam da ordem estabelecida. Esses adversários agem com “zelo partidário”, enquanto os apoiadores das novas ideias tendem a ser mais hesitantes, duvidando do sucesso até que vejam resultados concretos.
Essa dinâmica coloca Trump em uma posição delicada. Ele precisa superar a inércia do sistema e a desconfiança de muitos, ao mesmo tempo em que enfrenta oposição organizada e bem-financiada. A lição de Maquiavel é clara: mudanças radicais são possíveis, mas exigem estratégia, determinação e, acima de tudo, velocidade.
A estratégia de Trump em promover ataques rápidos e precisos
O segundo princípio maquiavélico que Trump parece adotar é a necessidade de agir rapidamente e com força contra os inimigos. Maquiavel argumenta que, para consolidar uma nova ordem, um líder deve neutralizar seus oponentes de forma decisiva e no momento certo. Em Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, ele usa o exemplo da Roma antiga, onde os fundadores da República agiram com crueldade controlada para eliminar ameaças internas, como os filhos de Brutus, que conspiravam para restaurar a monarquia.
Trump, embora não recorra a métodos tão extremos, adota uma abordagem semelhante ao emitir uma série de ordens executivas logo no início de seu mandato. Essas ações visam desestabilizar os defensores da ordem anterior e manter os adversários em desequilíbrio. Ao agir rapidamente, Trump busca criar um senso de inevitabilidade em torno de sua agenda, forçando seus oponentes a reagir em vez de agir.
Maquiavel enfatiza que a crueldade, quando usada, deve ser breve e direcionada. Um líder que hesita ou age de forma prolongada corre o risco de perder o controle e gerar ressentimento entre a população. Trump, ao contrário de governantes que prolongam conflitos internos, parece entender a importância de resolver disputas rapidamente, mesmo que isso signifique tomar medidas impopulares no curto prazo.
Trump pode ser considerado como um “príncipe moderno?
A análise de Holmes sugere que Donald Trump opera com uma mentalidade maquiavélica, aplicando lições centenárias ao contexto político moderno. Sua abordagem reflete a compreensão de que mudanças radicais são difíceis de implementar e que a velocidade e a precisão são essenciais para superar a resistência.
No entanto, como Maquiavel alerta, o sucesso de um líder depende não apenas de sua capacidade de agir, mas também de garantir que suas ações resultem em estabilidade e apoio popular a longo prazo. Trump enfrenta o desafio de equilibrar sua agenda revolucionária com a necessidade de manter a coesão social e política. Se ele conseguirá consolidar uma nova ordem ou se sucumbirá às forças que resistem à mudança, só o tempo dirá.
Em última análise, a comparação entre Trump e Maquiavel serve como um lembrete de que a política, seja no século XVI ou no XXI, é um jogo complexo e implacável, onde a astúcia e a estratégia muitas vezes superam a ideologia.
Texto original: https://nationalinterest.org/feature/donald-trumps-machiavellian-instincts