Joaquim Marques Lisboa, Marquês de Tamandaré

de

Prof. Dr. Ricardo Pereira Cabral

O futuro Patrono da Marinha do Brasil entrou para a Marinha Imperial Brasileira como voluntário aos 16 anos de idade. Joaquim Marques de Lisboa teve participação ativas em todos os grandes conflitos do período, o combate contra os portugueses na Guerra de Independência, contra os insurretos da Confederação do Equador, aos rebelados da Guerra da Cisplatina, as rebeliões do Período Regência, a argentinos e uruguaios na Guerra contra Oribe e Rosas e da Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai.

Tamandaré ao longo da sua longa carreira acompanhou a modernização da Esquadra na transição da vela para o vapor exercendo vários comissões de acompanhamento da construção de navios de guerra para a Marinha Imperial no exterior.

Joaquim Marques Lisboa nasceu em 13 de dezembro de 1807, na cidade do Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Desde jovem esteve envolvido nas lides navais.

Em 4 de março de 1823 deu início a sua carreira como voluntário da marinha Imperial, incorporando na fragata Niterói, sob o comando de John Taylor participando da Guerra da Independência. Marques de Lisboa tomou parte nas operações navais em Salvador e Itaparica. A fragata Niterói perseguiu diversas embarcações portuguesas e conquistou uma grande vitória.

Em 19 de janeiro de 1824, foi matriculado na Academia Imperial da Marinha. Ao tomar conhecimento que a Esquadra seria enviada a Pernambuco combater a Confederação do Equador, solicitou o seu embarque ao Almirante Cochrane, que foi concedido pelo Imperador em 27 de julho de 1824.

Na Guerra da Cisplatina (1825-1828), Lisboa teve participação ativa, embarcou na canhoneira Leal Paulista e participou do combate de Corrales. Em 1826, voltou a fragata Niterói, destacando-se nos combates. Em 31 de julho de 1826, foi designado para o comando da escuna Constança, Marques Lisboa tinha apenas 19 anos. No dia 6 de março, Participou da desastrosa expedição a Vila Carmem de Patagones, junto com 40 homens, ao tentar um ataque por terra, é preso e jogado no porão de um navio, onde ficou até 30 de março de 1826. Tamandaré liderou a tomada do navio-prisão e fugiu em direção à Montevidéu.

Em 1827, embarcou na corveta Maceió em nova expedição à Patagônia. Promovido a 1º Tenente, recebeu o comando da escuna Bela Maria com a missão de atacar os “corsários”, quando seu barco bateu contra os rochedos e naufragou na baía de São Brás. Nesta ocasião foi então resgatado pela fragata Príncipe Imperial.

Marques Lisboa participou do combate as seguinte rebeliões: Cabanagem, Sabinada, Balaiada, Farroupilha e Praieira.

Em 1851, esteve na Esquadra comandada pelo Almirante John Pascoe Grenfell na Passagem de Tonelero na Guerra contra Oribe e Rosas (1851-1852)

Em 1852, atingiu o almirantado ao ser promovido à Chefe de Divisão e em 1854, a Chefe de Esquadra e a Vice-Almirante, em 1856. Em 1862, foi nomeado Ajudante-de-Campo do Imperador D. Pedro II

Em 1860, D. Pedro II pelos seus serviços prestados recebeu o título de Barão de Tamandaré. A origem do nome de seu título está ligada aos eventos da Confederação do Equador, onde seu irmão, Manoel Marques Lisboa, foi mortalmente ferido em combate (em 1824). No porto da Vila de Tamandaré, Joaquim Marques Lisboa solicita a D. Pedro o translado dos restos mortais de seu irmão para o rio de Janeiro. Em 1860, quando D. Pedro II lhe concedeu o título de Barão lembrou do ocorrido e lhe deu o título em reconhecimento aos seus feitos e em memória ao seu irmão que lutou pelo Império.

Em 1864, participou da Guerra do Uruguai ou Guerra do Prata (10/8/1864 a 20/2/1865) no comando de uma força naval composta por uma fragata, seis corvetas e cinco canhoneiras, todas a vapor, nas operações contra o presidente Atanásio Aguirre, do Uruguai.

Em dezembro de 1864, começou a Guerra do Paraguai, o Vice-Almirante Joaquim Marques Lisboa foi nomeado Comandante das Forças Navais e deu início ao bloqueio dos rios Paraná e Paraguai. As Forças Navais do Brasil foram organizadas em três Divisões, uma permaneceu no Rio da Prata e as outras duas subiram o Rio Paraná para efetivar o bloqueio.

Em agosto de 1866, por razões políticas e de saúde, o então Visconde de Tamandaré solicitou o afastamento do cargo, sendo substituído pelo Almirante Joaquim José Inácio (futuro Visconde de Inhaúma).

A partir de então Tamandaré assumiu vários cargos como ajudante-de-campo do Imperador, Ministro do Supremo Tribunal Militar e membro do Conselho Superior Militar.

Em 1887, foi elevado a Conde e no ano seguinte a Marquês.

Mesmo com a proclamação da República, Tamandaré manteve-se fiel a D. Pedro II e a Monarquia. Quando da partida do Imperador para o exílio, fez questão de ir ao cais se despedir.

O Almirante Joaquim Marques Lisboa faleceu em 20 de março de 1897. 

A Carta Testamento do Marquês de Tamandaré

“Exijo que meu corpo seja vestido somente com camisa, ceroula e coberto com um lençol, metido em um caixão forrado de baeta, tendo uma cruz na mesma fazenda, branca, e sobre ela colocada a âncora verde que me ofereceu a Escola Naval em 13 de dezembro de 1892, devendo-se colocar no lugar que faz cruz a haste e o cepo um coração imitando o de Jesus, para que assim ornado signifique a âncora-cruz, o emblema da fé, esperança e caridade, que procurei conservar sempre como timbre de meus sentimentos. Sobre o caixão não desejo se coloque coroas, flores nem enfeites de qualquer espécie, e só a Comenda do Cruzeiro que ornava o peito do Sr. D. Pedro II em Uruguaiana, quando compareceu como primeiro dos voluntários da Pátria para libertar aquela possessão brasileira do jugo dos paraguaios que a aviltavam com a sua pressão; e como tributo de gratidão e benevolência com que sempre me honrou e da lealdade que constantemente a S.M.I. [Sua Majestade Imperial] tributei, desejo que essa comenda relíquia esteja sobre meu corpo até que baixe à sepultura, devendo ficar depois pertencente a minha filha D.M.E.M.L. [Dona Maria Eufrásia Marques Lisboa] como memória d’Ele e lembrança minha.

“Exijo que se não faça anúncio nem convites para o enterro de meus restos mortais, que desejo sejam conduzidos de casa ao carro e deste à cova por meus irmãos em Jesus o Cristo que hajam obtido o foro de cidadãos pela Lei de 13 de maio. Isto prescrevo como prova de consideração a essa classe de cidadãos em reparação à falta de atenção que com eles se teve pelo que sofreram durante o estado de escravidão; e reverente homenagem à Grande Isabel Redentora, benemérita da Pátria e da Humanidade, que se imortalizou libertando-os.
Exijo mais, que meu corpo seja conduzido em carrocinha de última classe, enterrado em sepultura rasa até poder ser exumado, e meus ossos colocados com os de meus pais, irmãos e parentes, no jazigo da Família Marques Lisboa.

Como homenagem à Marinha, minha dileta carreira, em que tive a fortuna de servir à minha Pátria e prestar alguns serviços à humanidade, peço que sobre a pedra que cobrir minha sepultura se escreva:

Aqui jaz o Velho Marinheiro.

M. de T.”

Imagem de Destaque: https://pt.wikipedia.org/wiki/Joaquim_Marques_Lisboa#/media/Ficheiro:Marquis_of_tamandare_1873.jpg

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Bibliografia

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Sites

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/a-pouco-lembrada-historia-do-almirante-do-brasil-imperio.phtml

https://www.marinha.mil.br/dphdm/historia/almirante-tamandare

https://en.wikipedia.org/wiki/Joaquim_Marques_Lisboa,_Marquis_of_Tamandar%C3%A9

https://pt.wikipedia.org/wiki/Fortifica%C3%A7%C3%B5es_do_Passo_do_Tonelero

Ricardo Cabral

Sobre o autor

Ricardo Cabral

Professor de História formado pela UGF. Mestrado e Doutorado em História pela UFRJ. Autor de artigos sobre História Militar e Geopolítica.

2 comentários em “Joaquim Marques Lisboa, Marquês de Tamandaré”

  1. Excelente texto descrevendo com clareza, lealdade, brio, honra, fé e glória, a coragem, a brasilidade, o patriotismo, a garra, a competência e, principalmente, a bravura de um grande guerreiro. Todos os loiros e vivas ao Marquês de Tamandaré. Bravo Zulu! Que os seus Feitos não caiam no esquecimento!

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