Medidas Anti-dumping e a recuperação do parque industrial brasileiro: Estratégia de reindustrialização com ênfase na defesa

de

Análise de impacto econômico e projeções 2026-2033

Prof. MSc Jandir Passos

1 Introdução

A questão da reindustrialização brasileira emerge como desafio estratégico central em um contexto geopolítico multipolar caracterizado por competição tecnológica acirrada e vulnerabilidades nas cadeias de suprimento críticas. O processo de desindustrialização que marcou a economia brasileira nas últimas quatro décadas não é resultado de determinismos estruturais inevitáveis, mas de escolhas políticas e omissões estratégicas que permitiram a consolidação da dependência de commodities e importações manufaturadas[1].

Segundo Cano (2012), a desindustrialização brasileira representa um processo estrutural de perda de importância relativa da indústria na economia nacional, particularmente grave quando comparado ao desempenho de economias emergentes como China, Vietnã e Índia, que utilizaram a industrialização como principal vetor de desenvolvimento[2]. O Brasil passou de uma economia em processo de industrialização pesada, em 1980, para uma economia semiperiférica com crescente fragilidade de sua base produtiva.

O presente artigo oferece análise econômica e geopolítica de uma possível estratégia de recuperação da base industrial brasileira, articulada em torno da Base Industrial de Defesa (BID), com incorporação de dados empíricos recentes sobre impacto econômico, simulações de criação de empregos e projeções de crescimento do PIB até 2033. O estudo baseia-se em investigação multidisciplinar envolvendo economia política, relações internacionais, tecnologia industrial e gestão estratégica.

Os fatores estruturais internos que prejudicam a competitividade industrial brasileira merecem destaque: a carga tributária elevada e mal distribuída onera desproporcionalmente o consumo e a produção; a insegurança jurídica, resultante de alterações regulatórias frequentes e imprevisibilidade normativa, inibe investimentos de longo prazo; e o excesso de burocracia eleva custos de transação, atrasa projetos e reduz a agilidade empresarial. Esses obstáculos, combinados à competição predatória internacional, criam ambiente hostil à atividade industrial e dificultam a consolidação de cadeias produtivas nacionais competitivas.

2 Diagnóstico da desindustrialização brasileira (1980-2025)

A indústria brasileira de transformação representa um dos indicadores mais relevantes da capacidade produtiva nacional e da autonomia econômica do país. Segundo dados do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), a participação percentual da indústria de transformação no PIB brasileiro apresenta trajetória descendente ao longo de quatro décadas[3].

AnoParticipação (%)
198021,6
199020,2
200017,8
200815,6
201313,6
202011,2
202410,8
Tabela 1: Evolução da participação da indústria de transformação no PIB brasileiro (1980-2024)
Fonte: IEDI (2025)[1][3].

A contração acumulada de 10,8 pontos percentuais em 44 anos representa um processo contínuo de perda de capacidade produtiva. Monteiro (2017) identifica desindustrialização regional como componente crítico desse processo, com efeitos diferenciados conforme o grau de industrialização prévia de cada região[4][5]. Regiões como São Paulo e Santa Catarina mantêm setores especializados enquanto regiões periféricas experimentam desindustrialização acelerada, com perda de capacidade produtiva e êxodo de investimentos para regiões metropolitanas ou exterior.

3 Dumping chinês como instrumento de dominação geopolítica

Conforme a Organização Mundial do Comércio (OMC), dumping constitui a prática de exportação de um produto a preço inferior àquele praticado no mercado doméstico do país exportador ou a preço abaixo do custo de produção[6]. No caso chinês, o dumping não constitui mera distorção comercial esporádica, mas estratégia deliberada de Estado sustentada por mecanismos coordenados de subsídio, superprodução e financiamento estatal.

Conforme análise de Memoria e Sousa (2021), as investigações antidumping no Brasil revelam que a China responde por 33% das medidas antidumping implementadas[7]. Setores críticos como aço, painéis solares, turbinas eólicas e componentes de telecomunicações apresentam margens de dumping entre 36% e 99%.

O Brasil registrou déficit comercial com a China de aproximadamente USD 100 bilhões em 2025, com 70% desse déficit concentrado em produtos industrializados de média e alta complexidade[8]. Paralelamente, exportações brasileiras permanecem concentradas em commodities de baixo valor agregado: minério de ferro (70% das exportações para China), soja (20%) e petróleo[9].

SetorPenetração/MargemStatus
Aço e siderurgia36% antidumpingCrítico
Painéis solares80% do mercadoCrítico
Turbinas eólicas60% do mercadoCrítico
Eletrônica de potência70% importadoGrave
Telecomunicações90% componentes importadosGrave
Baterias/Lítio85% importadoGrave
Tabela 2: Penetração do dumping chinês em setores críticos brasileiros
Fonte: MDIC/SECEX (2025)[8]; CAMEX (2026)[20].

Esse padrão de inserção internacional consolida a condição do Brasil como exportador de bens primários e importador de bens manufaturados intensivos em tecnologia, fragilizando a base industrial e limitando a autonomia tecnológica.

4 Base Industrial de Defesa como vetor de reindustrialização

A Base Industrial de Defesa (BID) brasileira compreende aproximadamente 120 empresas privadas, 40 institutos de pesquisa vinculados às Forças Armadas e universidades com programas de pesquisa e desenvolvimento (P&D) orientados para defesa[10]. A BID caracteriza-se também pela presença de empresas estatais estratégicas: Embraer (defesa aérea), Emgepron (naval), Helibras (helicópteros), Avibras (foguetes e munições) e DCTA/IAE (tecnologia aeroespacial), que constituem o núcleo de capacidade tecnológica nacional[11].

Um componente essencial da BID é o Sistema de Fabricação do Exército Brasileiro, composto pelos Arsenais de Guerra do Rio de Janeiro (AGR) e de São Paulo (AGSP), responsáveis pela produção, manutenção, modernização, revitalização e nacionalização de sistemas militares[25]. Esses arsenais desempenham papel estratégico na autonomia tecnológica nacional, dominando processos críticos de engenharia, fabricação, montagem, testes e certificação.

Um exemplo concreto dessa capacidade é o projeto de fabricação nacional do obuseiro 105mm AR, conduzido pela Diretoria de Fabricação (DF) do Exército. Segundo o general de divisão Tales Eduardo Areco Villela, Diretor de Fabricação, o projeto visa à transferência de tecnologia plena para os arsenais brasileiros, com produção inicial de 100 unidades destinadas a substituir os sistemas atualmente empregados nas brigadas de infantaria motorizada, leve e de selva[25]. A iniciativa, que estabeleceu parceria com a BAE Systems (fabricante do sistema L119), representa modelo de colaboração internacional que fortalece a capacidade de defesa ao mesmo tempo que promove autonomia na fabricação de equipamentos militares críticos[26].

O general Villela enfatiza que “soberania é produzir no Brasil”, destacando que cada real investido em defesa movimenta aproximadamente nove reais na economia, gerando empregos diretos e indiretos e fomentando pesquisa e desenvolvimento[27]. A capacitação dos arsenais permite que o Brasil domine toda a cadeia produtiva de sistemas de artilharia, desde o projeto até a certificação, eliminando dependências externas críticas.

Tecnologias desenvolvidas para defesa possuem aplicabilidade direta em setores civis: sistemas C4ISR (Command, Control, Communications, Computers, Intelligence, Surveillance, and Reconnaissance), sensores de alta precisão, materiais compostos avançados, criptografia, software embarcado, telecomunicações 5G/6G e sistemas de satélites de observação e comunicação[12]. Essa característica de “tecnologias de duplo uso” amplifica o impacto econômico potencial de investimentos em defesa.

Duarte (2022) destaca que o surgimento de uma dimensão pública da política industrial de defesa no Brasil representa mudança paradigmática que reconhece defesa como instrumento de desenvolvimento econômico[13]. A transferência de tecnologias desenvolvidas em defesa para aplicações civis (dual-use technologies) cria efeitos de transbordamento (spillover) que potencializam o impacto econômico de investimentos públicos em defesa.

A literatura internacional recente sobre a relação entre defesa e industrialização reforça essa perspectiva. Ditrych (2023) demonstra que a integração da indústria de defesa foi fundamental para o desenvolvimento da comunidade de segurança europeia, estabelecendo redes de cooperação tecnológica e industrial que transcendem fronteiras nacionais[29]. Esse processo de integração não apenas fortaleceu capacidades militares, mas criou ecossistemas de inovação compartilhados que impulsionaram setores civis correlatos.

Merindol e Versailles (2025) argumentam que a transformação das bases industriais de defesa de sistemas fechados para ecossistemas de inovação aberta representa mudança paradigmática no século XXI[30]. Segundo os autores, investimentos em P&D de defesa historicamente representaram entre 15% e 25% do total de investimentos em pesquisa aplicada em economias desenvolvidas, com taxas de retorno social superiores a 40% ao longo de 20 anos. A transição para modelos de inovação aberta permite que empresas civis, startups e universidades integrem cadeias de valor de defesa, ampliando capacidade de absorção tecnológica e acelerando processos de difusão de conhecimento.

A inteligência artificial (IA) aplicada à defesa, conforme análise de Sa (2025), oferece oportunidades para o Brasil[14]. O desenvolvimento de capacidades em visão computacional, processamento de linguagem natural e sistemas autônomos em contexto de defesa gera spillovers para setores civis como medicina (diagnóstico por imagem), agricultura de precisão, monitoramento ambiental e infraestrutura inteligente.

4.1 P&D em defesa como vetor de inovação industrial

A pesquisa e desenvolvimento em defesa apresenta características singulares que potencializam impacto econômico agregado. Análises comparativas internacionais indicam que cada dólar investido em P&D de defesa gera, em média, entre 1,4 e 2,1 dólares em spillover tecnológico para setores civis em um horizonte de 10 anos[31]. Esse multiplicador deriva de três mecanismos principais: (i) desenvolvimento de tecnologias de fronteira com aplicações duais; (ii) formação de pessoal altamente qualificado que posteriormente migra para setores civis; (iii) criação de padrões técnicos e processos de certificação que elevam capacidade produtiva geral[31].

Comparações internacionais revelam padrões consistentes. Nos Estados Unidos, investimentos em P&D de defesa representaram 50% do total de gastos federais em pesquisa entre 1980 e 2020, contribuindo decisivamente para liderança americana em semicondutores, aviação comercial, internet e biotecnologia[30]. Israel destina 4,5% do PIB para defesa, sendo 20% desse montante aplicado em P&D, o que resultou em transformação da economia para potência tecnológica global em 40 anos, com setor high-tech representando 45% das exportações totais[31].

No Brasil, investimentos em P&D de defesa permanecem em patamares críticos. Dados do Ministério da Defesa indicam que apenas 1,2% do orçamento de defesa é destinado a P&D, valor inferior a 0,02% do PIB[10]. Essa subinvestimento crônico compromete desenvolvimento de capacidades estratégicas e limita efeitos de transbordamento para economia civil.

À luz das referências internacionais, a proposta de reforço em P&D de defesa não é arbitrária, mas alinhada a boas práticas consolidadas. A OTAN recomenda que os países aliados destinem ao menos 20% do orçamento de defesa à aquisição de equipamentos e ao P&D associado, como forma de evitar obsolescência tecnológica e preservar a base industrial de defesa[33].

Dentro desse bloco de investimentos, diversos estudos mostram que a fatia de P&D propriamente dita tende a situar-se em torno de 2-5% do gasto total de defesa, faixa na qual se concentram os países que conseguiram transformar sua base militar em vetor de inovação industrial[34][35].

Evidências recentes sobre retorno econômico de P&D de defesa estimam que cada unidade adicional investida pode gerar entre 8 e 9 unidades de PIB no longo prazo, sobretudo quando articulada a programas industriais estruturantes e a encomendas tecnológicas estáveis[36]. Em paralelo, análises comparativas da OCDE indicam que esse tipo de gasto está associado ao aumento de patentes, de exportações de alta tecnologia e da densidade de empregos qualificados em engenharia e ciência, reforçando o papel da indústria de defesa como motor de transformação produtiva[37][38]. Considerando que o Brasil hoje apresenta esforço ainda modesto em P&D de defesa, elevar gradualmente essa parcela para cerca de 3% do orçamento (algo em torno de R$ 3,5 bilhões anuais) constitui meta prudente, coerente com padrões internacionais e possível dentro do orçamento brasileiro, capaz de criar massa crítica de projetos estruturantes, formar um contingente robusto de engenheiros e cientistas, e consolidar parcerias estratégicas entre Forças Armadas, universidades e institutos de pesquisa[10][39].

5 Programas estruturantes da Base Industrial de Defesa (BID)

Esta seção apresenta três programas emblemáticos — o caça F-39 Gripen, o cargueiro multimissão KC-390 e as Fragatas Classe Tamandaré — como exemplos concretos de como a Base Industrial de Defesa pode funcionar como eixo articulador de reindustrialização, inovação tecnológica e geração de empregos qualificados. Esses programas se inserem no novo ciclo de investimentos em ciência, tecnologia e inovação anunciado recentemente pelo governo federal, mas evidenciam, ao mesmo tempo, que o esforço nacional em P&D e em política industrial de defesa permanece abaixo do patamar observado em economias que utilizam a defesa como vetor central de desenvolvimento.

Esses programas estruturantes articulam-se em torno de compromissos crescentes de conteúdo nacional, conforme previsto na Política Nacional de Exportação e Importação de Produtos de Defesa (PNEI-Prode) e na Lei de Fomento à BID (Lei nº 12.598/2012). O F-39 Gripen envolve transferência de tecnologia em aviônica, integração de sistemas e fabricação de componentes estruturais pela Embraer e fornecedores brasileiros, com meta de 40% de conteúdo nacional na fase final do programa. O KC-390 já opera com cerca de 60% de componentes nacionais, incluindo sistemas de fuselagem, aviônicos e integração final. As Fragatas Classe Tamandaré preveem nacionalização progressiva de sistemas de combate, sensores e propulsão, com índice superior a 50% de participação industrial brasileira nas últimas unidades, além de domínio de tecnologias críticas como integração de sistemas de armas e sistemas de gerenciamento de combate.

O balanço de 2025 aponta o maior ciclo recente de investimentos federais em ciência, tecnologia e inovação, com liberação integral do FNDCT e reforço de programas estruturantes como Sirius, Reator Multipropósito Brasileiro (RMB) e novo supercomputador de IA, totalizando mais de R$ 12 bilhões apenas em infraestrutura científica no âmbito do Novo PAC[45]. Esses aportes recolocam a ciência como um dos principais eixos do desenvolvimento nacional, mas permanecem modestos quando comparados à necessidade de reposicionar a indústria de transformação e de financiar de forma sistemática projetos complexos na Base Industrial de Defesa (BID), que demandam fluxo estável e plurianual de recursos muito superior ao patamar atual[45].

Do ponto de vista da estratégia de reindustrialização proposta neste artigo, esse “ciclo recorde” deve ser interpretado como ponto de inflexão, não como ponto de chegada[45]. Para que se materialize o potencial estimado de recuperação de 3,7 a 4,2 pontos percentuais na participação industrial do PIB até 2033, é necessário elevar gradualmente o esforço em P&D — inclusive em defesa — para patamar próximo ao recomendado pela OTAN (ao menos 20% do orçamento de defesa em equipamentos e P&D associado), o que implica multiplicar por várias vezes o volume hoje efetivamente destinado a projetos estruturantes como Gripen, KC-390 e programas navais[33][45].

Nesse sentido, um cluster de desenvolvimento tecnológico ajuda a alavancar o processo de reindustrialização. A estrutura deste cluster consiste na concentração geográfica de empresas, centros de pesquisa, universidades, startups e entidades de suporte que atuam de maneira integrada em torno de ramos ou tecnologias afins, tendo como objetivo central a geração, a disseminação e a aplicação de conhecimento tecnológico. Nesse tipo de arranjo, os diversos agentes colaboram (mesmo sendo rivais), em atividades de P&D, qualificação de recursos humanos, transferência de conhecimento, oferta de serviços técnicos especializados e criação de novos produtos e processos, o que produz fortes efeitos de complementaridade, facilita o uso conjunto de infraestrutura, diminui custos de coordenação, acelera o processo de aprendizado tecnológico e amplia a capacidade de atração de investimentos e profissionais qualificados.

Um exemplo deste arranjo é o Cluster Tecnológico Naval do Rio de Janeiro (CTN-RJ), localizado no bairro de São Cristovão, na cidade do Rio de Janeiro, o qual é composto por mais de 40 empresas ligadas à Economia do Mar. A organização foi fundada em 2019 por quatro instituições principais:

  • AMAZUL (Amazônia Azul Tecnologias de Defesa)
  • Condor (Condor Tecnlogias Não Letais)
  • EMGEPRON (Empresa Gerencial de Projetos Navais)
  • NUCLEP (Nuclebrás Equipamentos Pesados)

Hoje o CTN-RJ supera a marca de 100 organizações associadas, reunindo estaleiros, empresas de engenharia, serviços offshore, tecnologia e defesa ligadas à economia do mar fluminense. Também cooperam organizações de suporte institucional e indústria como a  Firjan, Rede Petro‑RJ, universidades (UFRJ, UFF, UFRRJ, FGV), Fundação de Estudos do Mar, clubes e entidades técnicas, além de órgãos da Marinha do Brasil (como a Diretoria‑Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico).

Principais Características e Benefícios do CTN-RJ:

Sinergia e Cooperação: Promove a colaboração entre grandes e pequenas empresas, universidades e o setor público, em vez de apenas competição.

Foco na Economia do Mar: Engloba construção/reparação naval, descomissionamento, serviços marítimos, recursos renováveis/não renováveis e defesa.

Aumento de Competitividade: Visa fortalecer a cadeia produtiva local, com geração de empregos e fomento à tecnologia.

Há também iniciativas desta natureza no Amazonas para o desenvolvimento da navegação fluvial. 

Desta forma, estes clusters funcionam como ecossistemas de inovação, conectando desafios industriais a soluções tecnológicas e facilitando parcerias estratégicas. 

5.1 F-39 Gripen: Exemplo de transferência tecnológica e adensamento industrial

O programa F-39 Gripen constitui um marco na estratégia de reindustrialização apoiada na BID, ao combinar transferência de tecnologia, formação de capital humano de alta qualificação e desenvolvimento de fornecedores nacionais em um setor de fronteira tecnológica. A linha de produção do Gripen E em Gavião Peixoto (SP) representa a primeira linha de montagem do caça instalada fora da Suécia, com previsão de conclusão, entre fevereiro e março de 2026, do primeiro F-39E montado integralmente em território brasileiro[46].

Do ponto de vista industrial, o programa envolve a absorção progressiva de competências em aerodinâmica, aviônica, integração de sistemas e guerra eletrônica, mediante participação direta de engenheiros e técnicos brasileiros em todas as fases do ciclo de vida da aeronave. Além da Embraer Defesa & Segurança como integradora principal, o projeto mobiliza uma cadeia de fornecedores locais responsáveis por componentes estruturais, chicotes elétricos, subconjuntos e serviços de engenharia, ampliando o conteúdo nacional e reforçando a densidade tecnológica do parque industrial[46].

Do ponto de vista operacional, a integração do Gripen com armamentos de última geração, como o míssil ar-ar de longo alcance Meteor, e a certificação de reabastecimento em voo via KC-390 consolidam uma arquitetura sistêmica de defesa aérea, baseada em sensores, armas e plataformas interligadas em ambiente C4ISR[46]. Essa integração tecnológica gera spillovers potenciais para setores civis intensivos em tecnologia, como aeronáutica comercial, eletrônica embarcada e sistemas de comunicação seguros.

A frota da FAB está em expansão, com testes de armamentos realizados com sucesso e a certificação de reabastecimento em voo pelo KC-390 concluída. A entrega final de todas as 27 aeronaves contratadas (versões E e F) está prevista para 2032[46]. Este cronograma estendido permite consolidação gradual de competências industriais e absorção tecnológica profunda, transformando o programa em plataforma de longo prazo para desenvolvimento de capacidades em sistemas complexos.

Não obstante esses avanços, o volume financeiro total do programa, a despeito de relevante, permanece reduzido quando cotejado com iniciativas similares em países centrais. Para maximizar o retorno econômico e tecnológico, é imprescindível ampliar o uso da infraestrutura instalada, estimular exportações do Gripen com participação industrial brasileira e desenvolver, em parceria com a indústria e universidades, novas capacidades derivadas (por exemplo, veículos aéreos não tripulados de alta performance e sistemas de guerra eletrônica). Isso reforça o argumento central deste artigo: mesmo com programas emblemáticos em curso, o investimento brasileiro em P&D de defesa segue aquém do requerido para uma inflexão estrutural na trajetória de desindustrialização.

5.2 KC-390: Variantes ISR/MPA e Tecnologias de duplo uso

O KC-390 Millennium é outro eixo fundamental da BID, combinando elevada complexidade tecnológica com potencial exportador e fortes encadeamentos produtivos internos. A aeronave, concebida e produzida pela Embraer, já se encontra em operação na Força Aérea Brasileira e em países aliados, com índices de disponibilidade e confiabilidade que a posicionam entre os cargueiros táticos mais influentes do mundo[47].

Recentemente, uma nova etapa do programa foi inaugurada com o anúncio de variantes especializadas do C/KC-390 focadas em Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (ISR) e Inteligência de Sinais (SIGINT), configuradas como plataformas de guerra eletrônica de longo alcance. A Elbit Systems revelou, no início de 2026, uma variante do Embraer C-390 Millennium conhecida como LRCA, equipada com torreta eletro-óptica/infravermelha, radares de vigilância, antenas para coleta de sinais e suíte avançada de autodefesa, transformando o KC-390 em vetor estratégico de consciência situacional e superioridade de informações[47].

Paralelamente, vídeos promocionais da Elbit de janeiro de 2026 reforçam o desenvolvimento de uma versão de Patrulha Marítima (MPA) para o C-390, visando operações navais avançadas. Esta configuração — com radares de busca de superfície, sensores especializados e armamentos antissubmarino e antinavio — amplia a capacidade brasileira de vigilância da Amazônia Azul e de proteção de rotas marítimas críticas[47].

O KC-390 continua consolidando sua presença global, com alta confiabilidade operacional na Hungria e novas encomendas em análise, consolidando-se como um dos cargueiros mais influentes do mundo[47]. Essa trajetória de sucesso comercial reforça a viabilidade de programas brasileiros de defesa como instrumentos simultâneos de capacitação tecnológica interna e de inserção competitiva em mercados internacionais de alta tecnologia.

Essas variantes materializam o conceito de tecnologias de duplo uso discutido nas seções anteriores: sensores, algoritmos de fusão de dados, sistemas de comunicação seguros e software embarcado desenvolvidos para aplicações militares podem ser reempregados em monitoramento ambiental, controle de fronteiras, resposta a desastres, agricultura de precisão e gestão de infraestrutura crítica[47]. Ao mesmo tempo, reforçam o papel da Embraer como player global em aeronaves multimissão, com impactos positivos sobre a balança comercial de produtos de alta tecnologia e sobre a formação de capital humano em engenharia de sistemas, eletrônica avançada e ciência de dados.

Todavia, a efetividade desse programa como motor de reindustrialização depende de políticas públicas complementares: aumento da carteira de encomendas nacionais, apoio explícito às exportações (linhas de financiamento, seguro de crédito à exportação e diplomacia comercial ativa) e intensificação dos investimentos em P&D embarcado na plataforma. Sem esse reforço, o KC-390 corre o risco de permanecer como caso de sucesso isolado, com capacidade limitada de alterar estruturalmente a trajetória de desindustrialização brasileira.

5.3 Fragatas Classe Tamandaré: Cluster naval e soberania marítima

No domínio marítimo, o Programa Fragatas Classe Tamandaré configura hoje o projeto naval mais moderno construído no país, articulando um ecossistema de inovação que envolve a SPE Águas Azuis (Thyssenkrupp Marine Systems, Embraer Defesa & Segurança e parceiros nacionais), a Marinha do Brasil, estaleiros locais e instituições de pesquisa. A primeira fragata, “Tamandaré” (F200), lançada ao mar em 2024, encontra-se em fase final de testes de mar, com previsão de entrega ao setor operativo no início de 2026, marcando um salto qualitativo nas capacidades de combate de superfície e de proteção da Amazônia Azul[48].

Com cerca de 107 metros de comprimento, modernas capacidades de defesa antiaérea e antissubmarino e sensores de última geração integrados a um sistema de combate avançado, as fragatas Tamandaré funcionam como plataformas de alta complexidade capazes de arrastar toda uma cadeia de fornecedores nacionais[48]. O programa estimula a produção local de cascos, sistemas de propulsão, eletrônica de combate, integração de armas, sistemas de comando e controle e software crítico, gerando empregos qualificados e consolidando competências em engenharia naval, eletrônica e integração de sistemas.

Além dos impactos diretos sobre a defesa, o programa reforça o modelo de cluster naval no Rio de Janeiro e em outros polos costeiros, integrando Emgepron, estaleiros privados, universidades (como a COPPE/UFRJ) e institutos de pesquisa em um ecossistema capaz de gerar transbordamentos para construção offshore, exploração de petróleo e gás em águas profundas, energias renováveis marítimas e sistemas de vigilância costeira[22]. Trata-se do projeto naval mais moderno construído no país, com a participação da Embraer (via SPE Águas Azuis), representando marco significativo para a indústria naval brasileira[48].

As discussões em curso sobre um novo lote de fragatas indicam a oportunidade de transformar o programa em plataforma contínua de inovação, evitando ciclos de “picos e vales” de encomendas que tipicamente destroem capacidades produtivas acumuladas[48]. A construção de um novo lote permitiria expandir a frota de primeira linha da Marinha, ao mesmo tempo que consolidaria a cadeia de suprimentos nacional e permitiria amortização mais eficiente dos investimentos em infraestrutura e capacitação realizados.

Em fevereiro de 2026, a Marinha do Brasil confirmou a contratação de um segundo lote de quatro fragatas Classe Tamandaré, elevando o total previsto para oito unidades. Essa decisão estratégica assegura continuidade operacional ao estaleiro, estabilidade à cadeia de fornecedores nacionais e consolidação das competências tecnológicas adquiridas. Contudo, os argumentos centrais permanecem válidos: para que o programa cumpra plenamente seu papel como instrumento de reindustrialização e de fortalecimento da soberania marítima, será necessário, no médio prazo, complementar a frota com navios de maior deslocamento e capacidades ampliadas — como fragatas de 5.000-6.000 toneladas ou contratorpedeiros — que ofereçam maior autonomia, capacidade de projeção de poder e potencial exportador para mercados da América Latina, África e Oriente Médio. A manutenção de fluxo contínuo de encomendas, evitando ciclos de interrupção que destroem capacidades acumuladas, é condição indispensável para transformar o programa Tamandaré em plataforma permanente de inovação naval e âncora de um cluster industrial sustentável.

5.4 Síntese: Programas exemplares, porém investimento ainda insuficiente

Os programas F-39 Gripen, KC-390 e Fragatas Classe Tamandaré ilustram, de maneira concreta, o argumento central deste artigo: a Base Industrial de Defesa pode e deve ser utilizada como eixo estruturante de uma estratégia de reindustrialização, articulando compras públicas de alto conteúdo tecnológico, transferência de tecnologia, formação de capital humano qualificado e desenvolvimento de clusters regionais. Eles evidenciam a capacidade do país de conceber, integrar e produzir sistemas complexos em setores de fronteira, abrindo espaço para transbordamentos em direção à economia civil.

Esses programas se articulam diretamente com o novo ciclo de investimentos em ciência e tecnologia — incluindo FNDCT, Novo PAC científico e grandes equipamentos como Sirius e RMB — e materializam a diretriz de recolocar a ciência como eixo do desenvolvimento[45]. Representam avanos concretos na construção de capacidades industriais sofisticadas e na formação de capital humano de alta qualificação em áreas estratégicas.

Contudo, ao cotejar a escala física e financeira desses programas com a magnitude da desindustrialização brasileira — queda de mais de 10 pontos percentuais da participação da indústria de transformação no PIB em quatro décadas — torna-se evidente que o esforço atual ainda é insuficiente para reverter, por si só, a trajetória de perda de densidade produtiva. Em outras palavras, os programas analisados são condições necessárias, mas não suficientes: é imprescindível ampliá-los em escala, aprofundar a intensidade de P&D, integrá-los a uma política industrial abrangente e vinculá-los explicitamente à agenda de investimentos em ciência e tecnologia, de modo a transformar casos de sucesso pontuais em um verdadeiro ciclo de reindustrialização sustentada.

O investimento ainda é baixo. Para que o potencial identificado nas simulações (226 mil empregos, R$ 60,9 bilhões em produção adicional e recuperação de até 4,2 pontos percentuais de participação industrial até 2033) se concretize, será indispensável: expandir o número de unidades encomendadas, alongar e estabilizar contratos de longo prazo, elevar a intensidade de P&D em defesa para patamar próximo às melhores práticas internacionais (3-5% do orçamento de defesa) e articular de forma explícita políticas de ciência, tecnologia e inovação com as agendas de compras públicas e de política industrial[45][46][47][48].

6 Análise econômica do impacto da reindustrialização

Um estudo recente do Observatório Nacional da Indústria (CNI) apresenta simulações de impacto econômico associadas à substituição de importações de produtos de defesa. Caso o Brasil produzisse internamente um terço (33%) dos produtos de defesa e segurança que atualmente importa, os resultados econômicos seriam substanciais[15].

6.1 Impactos Macroeconômicos

IndicadorValor
Empregos diretos e indiretos gerados226.000
Vagas formais123.000
Profissionais em áreas inovativas6.900
Impacto no valor da produçãoR$ 60,9 bilhões
Arrecadação em tributos e contribuiçõesR$ 9,9 bilhões
Tabela 3: Impactos econômicos da substituição de importações de defesa (33% do volume) Fonte: CNI – Observatório Nacional da Indústria (2025)[15].

O valor adicionado de R$ 60,9 bilhões corresponde a aproximadamente 0,6% do PIB de 2025, sugerindo capacidade relevante de alavancagem do crescimento econômico[17]. Projeções indicam que a estratégia de reindustrialização apoiada na BID pode contribuir para recuperação de 3,7 a 4,2 pontos percentuais na participação da indústria no PIB até 2033.

6.2 Perfil dos empregos gerados

Um elemento crítico da reindustrialização via defesa é o perfil de empregos criados. Dos 123 mil empregos formais gerados, a composição qualitativa é altamente especializada: 6.900 ocupações em atividades inovativas; 2.426 em áreas técnico-científicas ligadas a P&D; 5.393 para técnicos e tecnólogos; 1.241 para engenheiros[16]. Esse padrão reforça o potencial de defesa como polo de atração e retenção de profissionais altamente qualificados.

Comparações internacionais evidenciam a superioridade da indústria de defesa na geração de empregos qualificados. Estudos setoriais indicam que o setor de defesa gera 2,8 vezes mais empregos de alta qualificação por unidade de investimento do que a média da indústria manufatureira, e 4,2 vezes mais do que setores de commodities[32]. Essa diferença deriva da intensidade tecnológica dos produtos de defesa, que exigem competências em engenharia de sistemas, ciência de materiais, eletrônica avançada, cibersegurança e inteligência artificial.

Análise comparativa entre investimentos em defesa e outros setores revela vantagens estruturais. Cada R$ 1 milhão investido em defesa gera, em média, 12,4 empregos diretos qualificados (engenheiros, técnicos especializados, cientistas), comparado a 8,1 na indústria automotiva, 5,3 em petroquímica e 2,7 em mineração[15]. Além disso, a estabilidade dos contratos de defesa (tipicamente plurianuais) permite planejamento de longo prazo em formação de pessoal, reduzindo rotatividade e consolidando conhecimento tácito organizacional.

O impacto qualitativo estende-se ao sistema educacional. Países com indústrias de defesa consolidadas apresentam taxas de formação de engenheiros 40% superiores à média global, fenômeno explicado pela demanda firme por profissionais STEM (Science, Technology, Engineering, Mathematics) e pela atração que programas de defesa exercem sobre jovens talentos[30]. No Brasil, revitalização da BID poderia reverter tendência preocupante de redução de matrículas em engenharias, que caíram 35% entre 2014 e 2023[3].

Categoria de empregoQualidade
Ocupações inovativas6.900
Técnico-científicas (P&D)2.426
Técnicos e tecnólogos5.393
Engenheiros1.241
Outros empregos (suporte)107.040
Tabela 4: Composição dos empregos formais gerados (123 mil)
Fonte: CNI – Análise de Perfil de Empregos Qualificados na Indústria de Defesa (2025)[16].

6.3 Projeções para o PIB e para a participação da indústria

O valor adicionado bruto de R$ 60,9 bilhões associado à substituição de importações de defesa representa aproximadamente 0,6% do PIB brasileiro em 2025. Para cenários de reindustrialização mais ambiciosa — envolvendo não apenas defesa, mas também setores estratégicos correlatos (energia renovável, telecomunicações críticas, infraestrutura inteligente, semicondutores) — projeções indicam potencial de adicionar 2,0% a 2,5% ao crescimento anual do PIB durante o período 2026-2033[18].

Cenários economométricos baseados em efeitos multiplicadores do setor de defesa (cada real investido em defesa gera aproximadamente 10 reais em PIB) e em dinâmicas de substituição de importações sugerem que a implementação de um plano integrado de reindustrialização poderia elevar a participação da indústria de transformação de 10,8% (2025) para 14,5% a 15,0% do PIB até 2033, recuperando 3,7 a 4,2 pontos percentuais[19].

AnoCenário Base (%)Reindustrialização (%)Diferença (%)
20261,82,3+0,5
20272,02,8+0,8
20282,23,2+1,0
20292,13,1+1,0
20302,33,5+1,2
20312,43,6+1,2
20322,23,4+1,2
20332,03,2+1,2
Tabela 5: Cenários de crescimento do PIB brasileiro (2026-2033)
Fonte: CNI/IPEA/FMI – Cenários de Crescimento do PIB Brasileiro 2026-2033 (2025)[18].

Nota: Cenário Base reflete projeções CNI/FMI/IPEA para 2026-2027 e tendências históricas para 2028-2033. Cenário de Reindustrialização incorpora impactos estimados de investimentos em BID, spillover para setores civis, substituição de importações críticas e criação de demanda via compras públicas reorientadas.

AnoTrajetória Histórica (%)Reindustrialização (%)
202510,810,8
202610,911,2
202711,011,6
202811,212,1
202911,312,7
203011,513,2
203111,613,8
203211,714,3
203311,814,8
Tabela 6: Projeção da participação da indústria de transformação no PIB (%)
Fonte: CNI/IPEA – Cenários de Crescimento do PIB Brasileiro 2026-2033 (2025)[18].

7 Políticas Recomendadas e Instrumentos de Execução

A implementação de uma estratégia de reindustrialização via defesa exige articulação de múltiplos instrumentos de política pública.

7.1 Medidas Antidumping agressivas

O Brasil deve intensificar investigações antidumping contra produtos chineses através da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) e Câmara de Comércio Exterior (CAMEX). Medidas incluem: (i) ampliar cotas tarifárias em aço para 5 milhões de toneladas/ano com tarifa de 25%; (ii) implementar taxa de salvaguarda temporária (5 anos) em painéis solares, turbinas eólicas e baterias; (iii) harmonizar legislação antidumping com padrões UE, reconhecendo a China como “economia não-mercado” para fins de cálculo de dumping[20]. É importante notar que, caso os chineses escalem a disputa, é possível que tal medida resulte em painel na OMC, conforme previsto no sistema de resolução de controvérsias da Organização[21].

7.2 Reorientação das Compras Públicas e Índice de Conteúdo Nacional

As Forças Armadas brasileiras executam aproximadamente R$ 50-60 bilhões/ano em despesa de capital e operacional, representando demanda firme e previsível para a BID. A reorientação dessas compras deve obedecer a critérios explícitos de conteúdo nacional mínimo, alinhados à Lei nº 12.598/2012 (Lei da BID) e ao Decreto nº 9.607/2018 (PNEI-Prode). Propõe-se: (i) estabelecer índice mínimo de conteúdo nacional de 40% para contratos de defesa acima de R$ 50 milhões, elevando-se progressivamente para 60% até 2030 e 70% até 2033, conforme amadurecimento tecnológico da cadeia de fornecedores; (ii) priorizar, em condições de desempenho técnico equivalente, produtos de empresas estratégicas de defesa (EED) certificadas, com bônus de até 15% no preço em licitações; (iii) condicionar importações de sistemas críticos (C4ISR, armamentos, sensores, propulsão) à celebração de acordos de offset industrial e transferência de tecnologia com metas mensuráveis de nacionalização em 5-7 anos.

Programas como Gripen, KC-390 e Tamandaré exemplificam esse modelo: compromissos contratuais de conteúdo nacional, formação de fornecedores locais certificados, transferência de tecnologia com metas de absorção e qualificação de pessoal brasileiro em todas as fases. Esse padrão deve ser estendido a futuras aquisições: submarino nuclear, satélites de observação e comunicação, radares 3D/4D, sistemas antiaéreos, veículos blindados de nova geração e sistemas C4ISR integrados. A criação de um Escritório de Conteúdo Nacional no Ministério da Defesa, com representantes das três Forças e do MDIC, permitirá monitoramento, certificação e fiscalização do cumprimento das metas de nacionalização, assegurando efetividade da política.


7.3 Clusters tecnológicos regionais (tríplice hélice)

O Brasil deve consolidar polos regionais especializados: (i) SP/MG — Aeroespacial (Embraer, IAE, DCTA, USP, UFMG); (ii) RJ — C4ISR e Cibernética (Marinha, CEP, Petrobras, COPPE/UFRJ); (iii) RJ/PE — Naval (Marinha, INPE, Emgepron); (iv) RS/MG — Blindados (Exército, ITAL, UFRGS); (v) SC — Eletrônica e Software. Cada polo deve operacionalizar a tríplice hélice com financiamento BNDES/FINEP, transferência tecnológica obrigatória, formação de doutores dedicados, incubadoras de startups de defesa e parques tecnológicos com infraestrutura compartilhada[22][24].

A formação de clusters tecnológicos em defesa requer integração institucional profunda entre universidades, centros de pesquisa e empresas. Merindol e Versailles (2025) demonstram que ecossistemas de inovação aberta em defesa são 60% mais eficientes na conversão de investimentos em P&D em produtos comercializáveis do que arranjos tradicionais fechados[30]. Esse ganho de eficiência deriva de três fatores: (i) compartilhamento de infraestrutura de pesquisa de alto custo (túneis de vento, câmaras anecoicas, simuladores); (ii) mobilidade de pessoal qualificado entre academia, governo e indústria; (iii) redução de custos de transação em processos de transferência tecnológica.

Experiências internacionais de sucesso oferecem modelos replicáveis. O cluster de defesa de Tel Aviv (Israel) integra três universidades de pesquisa, 12 centros de P&D das Forças de Defesa de Israel, e mais de 400 empresas de tecnologia dual, gerando anualmente cerca de 15.000 patentes relacionadas a defesa com aplicações civis[31]. O investimento público em infraestrutura compartilhada representa apenas 12% do orçamento total do cluster, sendo o restante financiado por retornos de comercialização de tecnologias e contratos de P&D cooperativo.

No Brasil, a criação de Centros de Excelência em Tecnologias de Defesa (CETDs) poderia catalisar formação desses ecossistemas. Cada CETD deveria focar em domínio tecnológico específico (aeroespacial, naval, terrestre, cibernético, nuclear), com governança compartilhada entre Ministério da Defesa, MCTI, universidades e empresas âncora. Financiamento inicial de R$ 500 milhões por CETD, distribuído em 5 anos, permitiria construir infraestrutura de pesquisa, contratar 200 pesquisadores doutores por centro, e financiar 50 projetos cooperativos universidade-empresa anualmente[32].

A Marinha do Brasil desenvolveu iniciativa emblemática de cluster especializado ao criar e consolidar seu ecossistema naval no estado do Rio de Janeiro, integrando Emgepron (estaleiro estatal), universidades como COPPE/UFRJ, institutos de pesquisa (IPqM, INPE) e empresas privadas de componentes e serviços[22]. Esse modelo de integração vertical e horizontal demonstra viabilidade de clusters navais brasileiros e serve como referência para replicação em outros setores.

O Exército Brasileiro vem desenvolvendo clusters similares para produção de sistemas terrestres. A Diretoria de Fabricação identificou em Minas Gerais um ecossistema industrial sólido e tecnicamente qualificado para a produção do obuseiro 105mm AR, com visitas técnicas a empresas especializadas em metalurgia, usinagem de precisão e tratamento térmico[28]. Esse modelo de integração entre arsenais estatais (AGR e AGSP) e empresas privadas regionais demonstra a viabilidade de criar cadeias produtivas completas para defesa, reforçando a soberania nacional ao transformar conhecimento técnico em capacidade produtiva efetiva.

A experiência dos arsenais do Exército na produção da VBTP-MSR 6×6 Guarani e na modernização da VBR EE-9 Cascavel, com Escritórios de Projeto instalados em Sete Lagoas/MG e Barueri/SP, respectivamente, exemplifica a capacidade de articulação entre diferentes atores da BID[27]. Essa integração técnica (prévia validação pelo Centro de Avaliações do Exército) garante que os sistemas desenvolvidos atendam plenamente aos requisitos operacionais, ao mesmo tempo que nacionaliza componentes críticos e desenvolve competências industriais distribídas territorialmente.

7.4 Substituição estratégica de importações

O Ministério da Defesa, em cooperação com MCTI e MDIC, deve elaborar Lista Nacional de Produtos Críticos (semicondutores, sensores, materiais estratégicos, sistemas de criptografia, componentes de telecomunicações 5G/6G), estabelecendo cronograma de 5 a 10 anos para nacionalização progressiva mediante: (i) offsets industriais obrigatórios em contratos de importação superiores a USD 50 milhões; (ii) acordos de transferência de tecnologia com parceiros internacionais estratégicos; (iii) financiamento BNDES/FINEP condicionado a metas de conteúdo local[40][41].

Exemplos concretos dessa estratégia já estão em curso. O projeto de fabricação nacional do obuseiro 105mm AR, conduzido pela Diretoria de Fabricação do Exército, representa modelo bem-sucedido de transferência de tecnologia plena para arsenais brasileiros, com produção inicial de 100 unidades e domínio completo da cadeia produtiva desde o projeto até a certificação[25][26]. De forma similar, o programa de submarinos convencionais e nucleares da Marinha envolve transferência progressiva de tecnologia naval crítica, formação de engenheiros especializados e criação de fornecedores nacionais de sistemas complexos[42].

A política de offsets deve ser estruturada em torno de três objetivos principais: (i) transferência efetiva de conhecimento tecnológico, não apenas montagem local de componentes importados; (ii) formação de recursos humanos altamente qualificados em universidades e institutos de pesquisa brasileiros; (iii) criação de capacidade exportadora em produtos derivados das tecnologias transferidas[43][44].

8 Lei de Incentivo ao Desenvolvimento de C&T e à Reindustrialização (proposta)

A experiência brasileira bem sucedida com instrumentos de renúncia fiscal voltados à cultura, notadamente a Lei Rouanet (Lei nº 8.313/1991), demonstra a capacidade de mecanismos tributários de mobilizar recursos privados em favor de objetivos públicos de longo prazo[49]. Em paralelo, medidas como a Lei do Bem (Lei nº 11.196/2005), o Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação (Lei nº 10.973/2004, alterada pela Lei nº 13.243/2016) e o fortalecimento recente do FNDCT evidenciam o potencial de incentivos fiscais e financeiros para alavancar esforços empresariais em P&D e inovação tecnológica[50][51][52][53].

À luz do diagnóstico de desindustrialização apresentado e da centralidade da Base Industrial de Defesa (BID) como vetor de reindustrialização, propõe-se a criação de uma Lei de Incentivo ao Desenvolvimento de Ciência, Tecnologia e Reindustrialização (LIDCTR), concebida como um “análogo tecnológico” da Lei Rouanet, voltado a financiar, via renúncia fiscal de Imposto de Renda, projetos de P&D, inovação e adensamento produtivo em setores industriais estratégicos[50][54]. A LIDCTR funcionaria como complemento e não substituto dos instrumentos já existentes (Lei do Bem, FNDCT, créditos reembolsáveis), criando um canal adicional, direto e estável entre empresas contribuintes e projetos de interesse público em C&T e reindustrialização[50][51][53].

8.1 Estrutura básica do Pronac-Tech

Inspirada na arquitetura do Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac), a LIDCTR se apoiaria em um Programa Nacional de Apoio à Ciência, Tecnologia e Reindustrialização (Pronac-Tech), estruturado em três eixos principais:

  1. Fundo Nacional de Ciência, Tecnologia e Reindustrialização (FNCTR) — fundo de natureza contábil e financeira, destinado a apoiar, com recursos não reembolsáveis, projetos de P&D de alto risco tecnológico (níveis de maturidade tecnológica baixos), incluindo tecnologias de duplo uso associadas à BID e a setores civis de fronteira[53].
  2. Fundos de Investimento Tecnológico e Industrial (FITec) — fundos de investimento em participações, com tratamento tributário favorecido para investidores institucionais que aportem recursos em empresas inovadoras intensivas em P&D, em linha com as diretrizes da política industrial e da agenda de neoindustrialização[54][55].
  3. Incentivo fiscal direto a projetos de C&T e reindustrialização — mecanismo de renúncia fiscal pelo qual pessoas físicas e jurídicas podem destinar parte do Imposto de Renda devido a projetos previamente aprovados no âmbito do Pronac-Tech, replicando a lógica da Lei Rouanet, mas orientada a metas de soberania tecnológica e reindustrialização[49][50].

Somente seriam enquadráveis projetos com claro interesse público e efeito sistêmico, com potencial escalável tais como: desenvolvimento de tecnologias críticas (semicondutores, fármacos estratégicos, inteligência artificial, tecnologias quânticas, materiais avançados), plataformas de pesquisa abertas, formação de recursos humanos altamente qualificados e aumento de conteúdo tecnológico nacional em cadeias produtivas intensivas em conhecimento[50][51]. Projetos destinados exclusivamente à ampliação de capacidade produtiva sem componente inovador relevante não fariam jus à renúncia fiscal.

8.2 Proponentes habilitados

Em coerência com o Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação, poderiam ser proponentes de projetos no âmbito da LIDCTR[51][52]:

  1. Instituições científicas, tecnológicas e de inovação (ICTs) de direito público ou privado sem fins lucrativos, credenciadas conforme a legislação vigente.
  2. Empresas industriais e de serviços tecnológicos que realizem P&D no território nacional, nos termos da Lei do Bem, comprometidas com metas de conteúdo tecnológico local, transferência de tecnologia e formação de recursos humanos[50][51].
  3. Consórcios produtivo-tecnológicos envolvendo ICTs, empresas líderes de cadeias produtivas, pequenas e médias empresas e órgãos governamentais (por exemplo, arranjos regionais tipo “tríplice hélice” em torno da BID ou de setores estratégicos civis)[22][55].

A lei estabeleceria tetos anuais de captação por proponente, diferenciados por porte (micro, pequena, média e grande empresa) e natureza jurídica (ICT pública ou privada, empresa, consórcio), com limites mais elevados para projetos considerados estruturantes — como programas de defesa com alto conteúdo tecnológico, semicondutores, saúde estratégica e infraestrutura digital crítica[54]. Esses tetos poderiam ser combinados com bônus de captação para projetos situados em regiões de menor densidade industrial, contribuindo para reequilíbrio regional da reindustrialização.

8.3 Procedimentos de submissão, análise e captação

O fluxo operacional da LIDCTR espelharia as boas práticas desenvolvidas na Lei Rouanet, adaptadas ao universo de P&D e inovação:

Elaboração e submissão do projeto
O proponente submete, em sistema eletrônico específico (um “Salic-Tech”), projeto contendo: objetivos tecnológicos (nível de maturidade tecnológica de partida e alvo), descrição da solução proposta, parceiros industriais, metas de conteúdo nacional, plano de formação de recursos humanos, orçamento detalhado e cronograma de execução[50][53]. A submissão é feita ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com participação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e do Ministério da Defesa para projetos relacionados à BID[50][54].

Análise de mérito e autorização para captação
Os projetos são avaliados por comitês técnico-científicos e econômicos, à semelhança do que já ocorre em chamadas do FNDCT e em programas de inovação, com critérios de: grau de inovação, aderência às prioridades da política industrial, potencial de spillover tecnológico, impacto sobre a balança comercial e sobre a geração de empregos qualificados[54][55]. Uma vez aprovados, recebem número de registro no Pronac-Tech, com publicação da autorização para captação em diário oficial e portal público, assegurando transparência[50][52].

Captação de recursos e conta vinculada
A partir da autorização, os proponentes podem captar recursos junto a pessoas físicas e jurídicas, dentro dos limites anuais de renúncia fiscal definidos na legislação[50]. Os valores são depositados em conta bancária específica e vinculada ao projeto, sujeita a regras rígidas de movimentação, rastreabilidade e transparência, equivalentes às aplicadas a recursos públicos, inclusive com possibilidade de acompanhamento em tempo real por órgãos de controle e pela sociedade[52][53].

Captação mínima e cofinanciamento público

Tal como em muitos programas de incentivo cultural, a regulamentação da LIDCTR estabeleceria percentuais mínimos de captação (por exemplo, 20% ou 30% do valor autorizado) para homologação do início da execução[50]. Para projetos classificados como estruturantes (por exemplo, novas famílias de radares, satélites de observação, plataformas de semicondutores, programas estratégicos da BID), poderia ser prevista contrapartida automática do FNCTR, na forma de cofinanciamento proporcional ao montante captado via mercado[53][54].

Execução, monitoramento e prestação de contas

A execução deve seguir o orçamento aprovado, admitindo despesas com gestão do projeto, certificações, propriedade intelectual, auditoria e captação de recursos até limites máximos (por exemplo, 10% do valor total)[50]. A prestação de contas combinará auditoria econômico-financeira clássica com avaliação de resultados tecnológicos e industriais (patentes, protótipos qualificados, aumento de conteúdo nacional, empregos qualificados gerados), sob a coordenação do MCTI, com participação de MDIC, Ministério da Defesa, FINEP, BNDES e órgãos de controle[50][52].

8.4 Mecânica do incentivo fiscal

A mecânica fiscal proposta para a LIDCTR espelha, com adaptações, o funcionamento da Lei Rouanet e articula-se com a Lei do Bem[49][50]:

  1. Pessoas jurídicas tributadas pelo lucro real poderiam destinar até 4% do Imposto de Renda devido a projetos aprovados no Pronac-Tech, com possibilidade de dedução de 80% a 100% desses valores, a depender do enquadramento do projeto em prioridades estratégicas (defesa, semicondutores, saúde, infraestrutura crítica) e em regiões de menor desenvolvimento relativo[50][51].
  2. Pessoas físicas que declaram no modelo completo poderiam destinar até 6% do Imposto de Renda devido a projetos de C&T, com incentivos adicionais para projetos de bolsas de pesquisa, formação de mestres e doutores, estágios em empresas e infraestrutura científica de uso compartilhado[50].

A dedução se daria na declaração anual de Imposto de Renda, reduzindo o imposto a pagar ou aumentando a restituição, respeitados os limites legais, como já consolidado em outros mecanismos de renúncia fiscal[50]. As contribuições poderiam assumir duas formas principais:

Doação tecnológica, sem contrapartida mercadológica, preferencialmente destinada a ICTs, plataformas de pesquisa aberta e programas de formação de recursos humanos.

Patrocínio tecnológico-industrial, com contrapartidas não pecuniárias — tais como visibilidade institucional, prioridade na negociação de licenciamento de tecnologias desenvolvidas, participação em conselhos consultivos de projetos –, desde que preservado o caráter público do benefício fiscal e das soluções tecnológicas produzidas[50][51].

8.5 Integração com a Base Industrial de Defesa e com a reindustrialização

A LIDCTR e o Pronac-Tech se articulariam diretamente com a estratégia de reindustrialização via Base Industrial de Defesa delineada ao longo do artigo.

Em primeiro lugar, programas estruturantes da BID — como o F-39 Gripen, o KC-390, as Fragatas Classe Tamandaré e futuros sistemas estratégicos (radares, satélites, sistemas C4ISR, veículos autônomos, semicondutores de uso crítico) — poderiam ser cadastrados como projetos-âncora no Pronac-Tech. Nessa condição, parte dos investimentos em P&D associado a esses programas seria financiada pela combinação de renúncia fiscal (via contribuições de empresas e pessoas físicas) e aportes complementares do FNCTR, reduzindo o esforço direto do Tesouro e, ao mesmo tempo, ampliando o envolvimento do setor privado nacional nas cadeias de valor de alta tecnologia[50][54].

Em segundo lugar, a LIDCTR fortaleceria a formação de clusters tecnológicos regionais em modelo tríplice hélice, ao permitir que consórcios envolvendo ICTs, empresas âncora, PMEs e governos locais submetessem projetos de infraestrutura compartilhada (laboratórios, centros de testes, plataformas digitais) e de P&D cooperativo com financiamento parcial via renúncia fiscal[22][53][55]. Isso vale tanto para polos diretamente relacionados à defesa (aeroespacial em São Paulo, naval no Rio de Janeiro, sistemas terrestres no Sul e Sudeste) quanto para setores civis intensivos em tecnologia (energia renovável, semicondutores, telecomunicações críticas, saúde).

Por fim, a LIDCTR se alinharia com a nova política industrial brasileira, que estabelece metas de aumento da participação da indústria de transformação no PIB, intensificação do esforço em P&D e elevação do conteúdo tecnológico das exportações[54][55]. Ao criar um fluxo estável de financiamento privado para projetos de C&T articulados à reindustrialização e à BID, a LIDCTR converte a renúncia fiscal em instrumento ativo de transformação produtiva, reforçando os efeitos das medidas antidumping, da reorientação de compras públicas e da política de substituição estratégica de importações já discutidas nas seções anteriores deste artigo[50][54].


8.6 Governança, definição de conteúdo nacional e alinhamento estratégico

A gestão da LIDCTR e do Pronac-Tech será compartilhada entre três ministérios, em modelo de governança colegiada: (i) Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), responsável pela coordenação geral, secretaria executiva do Pronac-Tech, gestão do FNCTR e avaliação de mérito científico-tecnológico dos projetos; (ii) Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), responsável por análise de impacto industrial, certificação de conteúdo nacional, articulação com cadeias produtivas e monitoramento de metas de substituição de importações; (iii) Ministério da Defesa (MD), responsável por validação de prioridades estratégicas relacionadas à BID, articulação com Planos Estratégicos das Forças Armadas, certificação de tecnologias críticas e supervisão de projetos duais com aplicação em defesa.

A definição de índice de conteúdo nacional de cada projeto caberá ao Comitê Técnico de Conteúdo Nacional (CTCN), órgão colegiado vinculado ao Pronac-Tech, composto por representantes do MDIC (coordenação), MD (Forças Armadas), MCTI, BNDES, FINEP e CNI. O CTCN estabelecerá metodologia padronizada de cálculo de conteúdo nacional, considerando: valor agregado no Brasil, mão de obra nacional empregada, tecnologias desenvolvidas localmente, componentes e insumos nacionais e propriedade intelectual gerada no país. Cada projeto submetido ao Pronac-Tech deverá apresentar plano de nacionalização progressiva, com metas anuais auditáveis, sob pena de suspensão de incentivos fiscais em caso de descumprimento.

A vinculação aos Planos Estratégicos das Forças é requisito obrigatório para projetos relacionados à BID. O Ministério da Defesa deverá elaborar e manter atualizado seu Plano Estratégico de Desenvolvimento da Base Industrial de Defesa (PE-BID), alinhado aos planejamentos de longo prazo das três Forças (Exército, Marinha,Aeronáutica) e à Estratégia Nacional de Defesa. O PE-BID será revisado a cada quatro anos, com prazo de conclusão até outubro do primeiro ano de cada novo governo, assegurando continuidade e previsibilidade aos investimentos industriais. Projetos submetidos ao Pronac-Tech na categoria ‘defesa’ deverão demonstrar alinhamento explícito ao PE-BID e aos planejamentos setoriais das Forças, com aval técnico do Estado-Maior Conjunto (EMC) ou Comandos singulares, conforme aplicável.

9 Conclusão

A reindustrialização brasileira constitui imperativo estratégico para consolidação da soberania nacional e para elevação sustentada do padrão de vida da população. A Base Industrial de Defesa representa vetor privilegiado dessa estratégia, ao articular compras públicas de alto conteúdo tecnológico, formação de recursos humanos altamente qualificados, desenvolvimento de clusters regionais e geração de spillovers tecnológicos para setores civis.

As simulações econômicas apresentadas indicam que a produção doméstica de um terço dos produtos de defesa atualmente importados geraria 226 mil empregos (123 mil formais), R$ 60,9 bilhões em valor de produção e R$ 9,9 bilhões em arrecadação tributária. A implementação de um plano integrado de reindustrialização via BID, combinando medidas antidumping, reorientação de compras públicas, formação de clusters tecnológicos, substituição estratégica de importações e a proposta inovadora da Lei de Incentivo ao Desenvolvimento de C&T e Reindustrialização (LIDCTR), tem potencial de recuperar 3,7 a 4,2 pontos percentuais na participação da indústria de transformação no PIB até 2033, revertendo quatro décadas de desindustrialização.

O desafio é político e organizacional, não técnico. O Brasil dispõe de capacidade instalada, recursos humanos qualificados e mercado interno relevante para sustentar reindustrialização bem-sucedida. O que falta é coordenação estratégica, comprometimento de longo prazo e vontade política para implementar as políticas necessárias. A janela de oportunidade geopolítica criada pela competição sino-americana e pela reconfiguração de cadeias globais de valor não permanecerá aberta indefinidamente. O Brasil precisa agir agora ou consolidar sua condição periférica como exportador de commodities e importador de manufaturas de alta tecnologia.

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[36] MORETTI, E.; STEINWENDER, C.; VAN REENEN, J. The intellectual spoils of war? Defense R&D, productivity and international spillovers. NBER Working Paper, n. 26483, 2024.

[37] ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT (OECD). OECD Science, Technology and Innovation Outlook 2024. Paris: OECD Publishing, 2024.

[38] BLOOM, N.; VAN REENEN, J.; WILLIAMS, H. A toolkit of policies to promote innovation. Journal of Economic Perspectives, v. 33, n. 3, p. 163-184, 2019.

[39] MINISTÉRIO DA DEFESA. Estratégia Nacional de Defesa: eixo indústria de defesa. Brasília: Ministério da Defesa, 2025.

[40] BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL (BNDES). Políticas de conteúdo local e transferência de tecnologia. Rio de Janeiro: BNDES, 2025.

[41] MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA, COMÉRCIO E SERVIÇOS (MDIC). Lista de produtos críticos para reindustrialização. Brasília: MDIC, 2025.

[42] MARINHA DO BRASIL. Programa Nuclear da Marinha. Brasília: Marinha do Brasil, 2024.

[43] BITZINGER, R. A. Towards a brave new arms industry? London: International Institute for Strategic Studies, 2023.

[44] EUROPEAN DEFENCE AGENCY (EDA). Defense industrial policy guidelines. Brussels: EDA, 2024.

[45] MINISTÉRIO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO (MCTI). Balanço de investimentos em C&T 2025. Brasília: MCTI, 2025.

[46] FORÇA AÉREA BRASILEIRA (FAB). Programa F-39 Gripen: relatório de implementação. Brasília: FAB, 2026.

[47] EMBRAER DEFESA & SEGURANÇA. KC-390 Millennium: variantes e aplicações. São José dos Campos: Embraer, 2026.

[48] MARINHA DO BRASIL. Programa Fragatas Classe Tamandaré. Brasília: Marinha do Brasil, 2025.

[49] BRASIL. Lei nº 8.313, de 23 de dezembro de 1991. Restabelece princípios da Lei n° 7.505, de 2 de julho de 1986, institui o Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac) e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 24 dez. 1991.

[50] MINISTÉRIO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO (MCTI). Lei do Bem: incentivos fiscais à inovação tecnológica. Brasília: MCTI, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/lei-do-bem. Acesso em: 10 fev. 2026.

[51] BRASIL. Lei nº 11.196, de 21 de novembro de 2005. Institui o Regime Especial de Tributação para a Plataforma de Exportação de Serviços de Tecnologia da Informação – REPES, o Regime Especial de Aquisição de Bens de Capital para Empresas Exportadoras – RECAP e o Programa de Inclusão Digital; dispõe sobre incentivos fiscais para a inovação tecnológica. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 22 nov. 2005.

[52] BRASIL. Lei nº 10.973, de 2 de dezembro de 2004. Dispõe sobre incentivos à inovação e à pesquisa científica e tecnológica no ambiente produtivo e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 3 dez. 2004.

[53] BRASIL. Lei nº 13.243, de 11 de janeiro de 2016. Dispõe sobre estímulos ao desenvolvimento científico, à pesquisa, à capacitação científica e tecnológica e à inovação. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 12 jan. 2016.

[54] MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA, COMÉRCIO E SERVIÇOS (MDIC). Nova Política Industrial Brasileira: diretrizes 2024-2033. Brasília: MDIC, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/noticias/2024/janeiro/brasil-ganha-nova-politica-industrial. Acesso em: 10 fev. 2026.

[55] INSTITUTO DE ESTUDOS PARA O DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL (IEDI). As novas políticas industriais no mundo. São Paulo: IEDI, 2024. Disponível em: https://www.iedi.org.br/cartas/carta_iedi_n_1230.html. Acesso em: 10 fev. 2026.

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