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O James Bond de Daniel Craig: inovações para a mitologia de James Bond

Prof. Dr. Thiago da Silva Pacheco

Esta semana estreia o novo filme da famosa franquia do agente James Bond: 007, Sem Tempo para Morrer. O filme marca a despedida do ator Daniel Craig no papel, e traz uma novidade: pela primeira vez teremos um novo 007, e será uma mulher (a atriz Lashana Lynch).

Para marcar o fim deste ciclo em relação ao personagem e também abordar as novidades que temos visto nos últimos anos, enumero aqui 4 inovações para a mitologia de James Bond, trazidas pela versão de Daniel Craig.

1 – Uma violência mais visceral: desde Cassino Royale (2006) as cenas de ação são mais intensas, com foco nas perfurações de bala, nos cortes de faca, nos ossos quebrados, etc. Bond, humano, se machuca severamente nestes filmes, cuja fotografia não o exime do suor e do sangue, ainda que mantendo sua clássica elegância. Da mesma forma, o Bond de Daniel Craig é brutal, quase que um brucutu do cinema dos anos 80. Em síntese, a violência dos últimos filmes não é inocente nem inconsequente, fazendo o próprio Bond vulnerável a ela.

2 – Um Bond adjetivado honestamente enquanto canalha, delinquente e assassino: Bond foi despido do heroísmo e deslumbre das versões anteriores. Ele se apresenta e se confessa várias vezes como o que ele é na literatura e no cinema: um assassino. É para isso que agentes de Operações Encobertas existem, e é isso que eles fazem. Os filmes atuais deixam isso claro a todo momento. Embora menos explícito nos roteiros, o fato de que Bond é um canalha e tem comportamento delinquente não apenas consta nas narrativas como é parte importante do roteiro em Cassino Royale (onde Bond deliberadamente gera um incidente diplomático ao explodir uma embaixada no início da trama!) e em Skyfall (onde somos apresentados à deprimente avaliação física e psicológica de Bond, parte dos planos do antagonista Raoul Silva).

3 – Uma abordagem do dilema das atividades de Inteligência: qual o valor da Inteligência? Qual sua função para a segurança no mundo moderno? O quanto a tecnologia é mais importante que as fontes e os agentes humanos? Quais os perigos derivados de uma agência que lida com o segredo? Que me conste, é a primeira vez que os filmes de 007 abordam a questão, que vai num crescendo de Cassino Royale (“vamos apostar milhões do dinheiro de contribuintes num jogo de poker?”) passando por Skyfall (onde Q joga na cara de Bond sua obsolescência, e até mesmo M deve prestar esclarecimentos públicos acerca da razão de ser dos agentes 00), chegando a Spectre (onde o vilão é perigosíssimo justamente por controlar secretamente toda a Inteligência Mundial, por meio de uma Sociedade Secreta).

4 – A expressão da decadência do MI-6 e do poderio britânico: da mesma forma, a versão de Daniel Craig é autoconsciente acerca da perda de relevância tanto de sua agência de Inteligência como do próprio poder Britânico desde o fim da Guerra Fria. A bem da verdade, isso já estava sutilmente presente nos Bonds de Timothy Dalton e de Pierce Brosnan. Mas o fato de que Bond não salva o mundo (mal salva suas amantes e o próprio MI-6!) demonstra que as tramas diminuiram de escala, e há menções aqui e ali acerca desta decadência: vide o discurso de Raoul Silva quando finalmente conhece Bond pessoalmente.

E você, prezado leitor? O que acha da versão atual de James Bond? Deixe seu comentário.

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