Uma breve História dos Hussardos

de

Profº. Dr. Ricardo Pereira Cabral

Origens

O local de origem dos hussardos é disputada, ainda que não haja dúvidas que nasceu na região do Bálcãs, na atual Sérvia e Croácia, de lá indo para a Hungria e se disseminado, primeiramente, pelo Leste Europeu, para designar tropas de cavalaria leve.

A palavra hussardo deriva do sérvio gussar passando pelo húngaro huszár, cujo significado é bandido, mas por que? Porque as táticas de guerra dos primeiros grupos de cavaleiros hussardos contra o Exército Otomano se assemelhavam à dos bandidos, que emboscavam, atacavam de modo sorrateiro e eram cruéis.

Outra possibilidade é que o termo original húngaro, não tenha nada em comum com o gusar sérvio. As táticas e habilidades de equitação dos hussardos são características dos primeiros guerreiros húngaros. Essa cavalaria ligeira, presente nas Idades Antiga e Medieval era o tipo de formação à cavalo, muito comum, em muitas das etnias, originárias da estepe eurasiana, como hunos, ávaros, pechenegues, cumanos e mais tarde mongóis e tártaros.

Esse tipo de cavalaria leve era, especialmente, característico dos exércitos húngaros, inicialmente equipados com arcos, flechas, lanças e sabres, que só mais tarde, parte desses armamentos típicos, foram trocados por rifles e carabinas.

Outros estudiosos mencionam os chonsarioi, do século X, um tipo de cavalaria leve recrutado na região do Bálcãs,  em particular, na região da atual Sérvia. Alguns apontam uma origem ainda mais antiga nas tropas de cavalaria ligeira recrutadas como tropas auxiliares das Legiões romanas.

Não podemos deixar de citar que a palavra “húsz” significa ‘vinte’ em húngaro, enquanto “ár” é uma unidade de medida de terra ou acre. Assim, sugere-se que os hussardos foram chamados assim por serem uma forma de serviço militar introduzida após 1458, pela qual qualquer proprietário de terras com vinte acres era obrigado a fornecer um soldado montado e equipado, às suas próprias custas, ao exército do rei.

https://pt.topwar.ru/174176-gusary-raznyh-stran.html

Hussardos Húngaros

Os hussardos supostamente se originaram em grupos de guerreiros sérvios que fugiram para o sul da Hungria após a conquista otomana da Sérvia no final do século XIV. Lá o Rei Mathias Cornivius organizou os primeiros regimentos de hussardos compreendiam a cavalaria leve do Exército Negro da Hungria. Sob o comando de Corvinus, os hussardos participaram da guerra contra o Império Otomano em 1485 e tiveram sucesso contra os sipahis (cavalaria otomana), bem como contra os boêmios e poloneses.

Inicialmente, esse cavalarianos não faziam parte do Exército, seu papel era limitado à guerra irregular, invasões, segurança nos deslocamentos, flacoguarda, cobertura e reconhecimento das principais forças inimigas. Após a morte do rei, em 1490, os hussardos tornaram-se a formação padrão de cavalaria na Hungria, além da cavalaria pesada.

Durantes os séculos XVI e XVII, ocorreram grande mudanças com a introdução das armas de fogo portáteis. Durante a Guerra dos Trinta Anos, os hussardos lutaram como cavalaria leve e usavam lanças, sabre e armas de fogo, abandonando armadura e escudos.  Os imperadores dos Habsburgos contrataram hussardos húngaros como mercenários para servir contra os otomanos e em vários campos de batalha por toda a Europa Ocidental.

Hussardos Sérvios-Crotas

No período de 1541-1699, o que restou do Reino da Hungria se empenhou em uma luta feroz contra os otomanos para reconquistar o território perdido. Aqui construíram fortalezas para vigiar a fronteira, de lá faziam operações de guerrilha e poderosos ataque rápidos explorando as oportunidades oferecidas pelos turcos.

A fama de destemidos, de resilientes, suas táticas engenhosas, explorando os limites da manobra de pequenas unidades ligeiras, empregadas no reconhecimento do terreno e dos movimentos do inimigo, assediavam as linhas de comunicação e a retaguarda do inimigo, realizavam escaramuças, com efetivos maiores atacavam os flancos durante as batalhas, a perseguição ao inimigo em fuga. Os hussardos tinham tantas habilidades e desempenhavam várias funções, que acabaram por serem reconhecidas pelos reinos de toda Europa.

Hussardos no século XVIII e XIX

O rei Frederico II, da Prússia, a Grã-Bretanha, a Holanda e a Espanha, inicialmente, contrataram mercenários hussardos para usá-los em suas campanhas militares. A França foi além, organizou regimentos de hussardos, os Hussars-Royaux, com imigrantes e/ou refugiados húngaros, posteriormente, realizou recrutamentos na Alsácia e Lorena. No meio do século XVIII países como a Rússia, a Grã Bretanha, a Holanda, a Espanha, a Dinamarca e a Suécia organizaram suas brigadas e regimentos de cavalaria ligeira semelhante aos hussardos, usando ou não, essa designação.

A cavalaria Hussarda desempenhou um papel proeminente durante as Guerras da Revolução Francesa e Napoleônicas. O hussardo francês do período napoleônico estava armado com um sabre com punho de latão, uma carabina e às vezes com um par de pistolas. Napoleão tinha grande apreço por essas unidades de cavalaria.

4º Regimento Hussardo na Batalha de Friedland, de 14 de julho de 1807. Quadro “Vive l’Empereur” por ´Deouard Detaille, 1891. https://en.wikipedia.org/wiki/Hussar#/media/File:Edouard_Detaille_-_Vive_L’Empereur_-_Google_Art_Project.jpg

O hussadro mais famoso do Exército francês foi o Marechal Michel Ney, o bravo dos bravos, começou sua careira no 5º Regimento Hussardo, em 1787. Ney galgou postos nas fileiras dos hussardos nas guerras da Bélgica e da Renânia (1794–1798), lutando contra as forças da Áustria. da Prússia e da Rússia, sempre com grande destaque pela sua bravura em combate. Ney era intrépido, audaz, galanteador, fanfarrão, bem ao espírito french hussard. Muitas das suas decisões durante as batalhas foram temerárias, quase sempre teve a sorte ao seu lado. No entanto, as seguidas cargas de cavalaria que comandou, pessoalmente, em Waterloo, foi uma decisão desastrosa e uma das causas da derrota.  Michel Ney recebeu o bastão de marechal, em 1804, após a coroação do imperador Napoleão, na primeira “turma” de Marechais, com grande mérito. O Marechal Ney era muito popular na França e La Grande Armee. Ney encarnou muito bem o papel de cavaleiro romântico e representava o ideal do Cavalariano.

Ney na Batalha de Eylau, por Ricahard Caton Woodville Jr.
https://en.wikipedia.org/wiki/Michel_Ney#/media/File:Mar%C3%A9chal_Ney_%C3%A0_Eylau.jpg

Os hussardos estiveram presentes nos vários conflitos do século XIX, com destaque para a Guerra da Crimeia (a famosa Carga da Brigada Ligeira) e outros conflitos até o início do século XX, quando o cavalo foi substituído pelo blindado. Mas isso não fez desaparecer os hussardos, já que tropas de cavalaria leve, sejam motorizadas, mecanizadas e blindadas continuam a desempenhar as missões típicas de uma cavalaria leve, tanto assim que até hoje unidades levam o nome de hussardos.

Winston Churchill, no 4th Queen’s Own Hussards, 1895.
https://en.wikipedia.org/wiki/Hussar#/media/File:Churchill,_uniform.jpg

O Cavaleiro Hussardo

A partir do início do século XVIII, os uniformes coloridos dos hussardos foram inspirados na moda húngara. Esse uniforme normalmente incluía um dólmã (jaqueta curta), mais tarde uma jaqueta “Attila” de comprimento médio, mas ambas possuíam uma pesada trança dourada horizontalmente no peito, e tranças amarelas ou galões dourados nas mangas, uma peliça (uma capa forrada de peles frequentemente usada atirada sobre um ombro), calças coloridas, às vezes com trançado amarelo ou galões dourados na parte da frente, uma barretina (um chapéu de pele alto com uma bolsa de pano pendendo de um lado (embora alguns regimentos usassem barretinas de estilos variados) e botas altas de equitação.

Os hussardos europeus (exceto os britânicos) tradicionalmente usavam longos bigodes (mas sem barba) e cabelos compridos, com duas tranças pendendo em frente das orelhas bem como um longo rabo-de-cavalo atrás da cabeça. Eles mantiveram este penteado, que era comum ser usado por todos os soldados, mesmo após outros regimentos terem deixado de usá-lo e adotado o cabelo curto.

Os hussardos tinham uma reputação, eram animados, indisciplinados, aventureiros, valentes, orgulhosos, vaidosos, fanfarrões, charmosos e mulherengos. Essa imagem foi solidificada a partir de inúmeros romances escritos no século XIX, que de certa forma idealizaram esse corpo de cavalaria que remete aos ideais românticos dos autores da época, como uma reminiscência dos cavaleiros medievais.

Só não podemos esquecer que eram grandes combatentes e responsáveis, em muitas ocasiões, pelas vitórias obtidas nos campos de batalha pela suas destemidas cargas de cavalaria.

Conclusão

Muitas unidades de cavalaria leve, de vários países ocidentais (e mesmo da América Latina como o Peru e a Venezuela, por exemplo) se inspiram na tradição dos hussardos e mantem seus uniformes históricos, como as unidades de representação hipomóvel. O espírito dos hussardos está presente na unidades de cavalaria leve até os dias de hoje.

Imagem de Destaque: https://pt.topwar.ru/174176-gusary-raznyh-stran.html

 Bibliografia

https://pt.topwar.ru/31980-kratkaya-istoriya-leyb-gvardii-gusarskogo-ego-velichestva-polka.html

https://pt.topwar.ru/174176-gusary-raznyh-stran.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Hussar

Filme

Recomendamos o filme “Os Duelistas” (1970, confira a sinopse e outras informações, aqui no História Militar em Debate: https://historiamilitaremdebate.com.br/fique-por-dentro/os-duelistas/

Livros

Guerra e Paz e Dois hussardos, ambos de Lev Tólstói, e Os Duelistas, de Joseph Conrad, descrevem bem o espírito do hussardos e suas faças dentro e fora dos campos de batalha.

Ricardo Cabral

Sobre o autor

Ricardo Cabral

Professor de História formado pela UGF. Mestrado e Doutorado em História pela UFRJ. Autor de artigos sobre História Militar e Geopolítica.

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