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A Guerra das Duas Rosas. A verdadeira Guerra dos Tronos.

Profº. Dr. Ricardo Pereira Cabral

A Guerra das Duas Rosas (1455-1487) foi uma guerra civil inglesa entre dois ramos, York e Lancaster, da Casa Plantageneta, que governava a Inglaterra. A guerra foi marcada por traições, assassinatos, episódios cruéis, batalhas sangrentas e terminou com a extinção de dois ramos masculinos dos Plantagenetas, abrindo caminho para a dinastia Tudor. Esta guerra foi uma das inspirações de R. R. Martin para escrever Game of Thrones.

A expressão “Guerra das Duas Rosas” é atribuída a Bevil Higgons que na edição de 1727, da sua principal obra “A Short View of the English History; with Reflections on the Reigns of the Kings, their Characters and Manners, their Succession to the Throne; and all other remarkable incidents, to the Revolution, 1688”. Davi Hume também a utilizou em na sua obra The History of England, publicada entre 1754-1761).  Para os contemporâneos foi uma guerra entre dois ramos da nobreza pelo trono. A disputa envolvia a sucessão dinástica, interesses políticos e econômicos e marcou o fim do Período Feudal na Inglaterra.

Um resumo das disputas dinásticas

As origens remotas estão ligadas a criação de três ducados pelo Rei Eduardo III (1327-1377), para os seus filhos: Edward de Woodstock “o Príncipe Negro“, o ducado de Cornwall (1337), seu filho favorito e herdeiro aparente do trono; Lionel de Antuérpia, recebeu o Ducado de Clarence (1362) e John de Gaunt, recebeu Lancaster (1362). Em 1385, durante o reinado de Ricardo II (1377-1399), neto e sucessor de Eduardo III, foram criados o Ducado de York para seu tio Edmund de Langley e o de Gloucester para seu outro tio Thomas de Woodstock. Os duques começaram a criar redes de vassalagem, que com o tempo, competiram com as do reais e que provacavam dubiedade quanto a lealdade em relação a Casa Plantageneta.

As crises sucessórias começaram a acontecer após a morte de Eduardo III e a morte de seus três filhos mais velhos, por isso assumiu seu neto, Ricardo II, bastante contestado. Revoltas camponesas, derrotas na França e aumento de impostos levaram a sua deposição e seu assassinato. O Parlamento empossou Henrique IV, o primeiro monarca do ramo de Lancaster, que reinou de 1399-1413, mas a instabilidade e as questões sucessórias permanecia. As rivalidades entre as grande casas da nobreza se intensificou. Apesar disso o filho do rei, o sucedeu com o título de Henrique V que reinou de 1413 a 1422. O rei-herói de Shakespeare sofeu com conspirações e tentativas de rebelião que soube rapidamente (e com violência) resolvê-las.

Fortalecido na Inglaterra, Henrique V invade a França reivindicando o trono francês e para solucionar disputas territoriais e comerciais. A vitória em Potiers (1415), a morte de vários inimigos e a assinatura do Tratado de Troyers, altamente vantajoso para o rei inglês consolidaram sua posição, O casamento com Catarina de Valois, filha do rei Carlos VI garante o trono da França para seus herdeiro. Tudo estava indo bem, Catarina lhe dá um filho varão (importante devido a Lei Sálica, que previa a sucessao masculina ao trono francês), mas Henrique V morre de difeteria e seu filho de nove meses de idade assume o trono como Henrique VI. Os Yorks aproveitam o momento de fraqueza da realeza para reivindicar o trono.

Em 1429, Henrique VI foi coroado, com sete anos, a instabilidade era provocada entre o Lord Protetor, Jonh, de Bedford, que estava lutando na França e outros nobres que permaneceram na ilha. Os franceses, com os ânimos renovados por Joana D’Arc revertem as conquistas de Henrique V e coroam Carlos VII como rei da França. Na corte, em Londres, disputas entre seus conselheiros e o fato de sua mãe (Catarina, de Valois) ter casado de novo e gerado dois filhos homens, Edmund e Jasper Tudor, vão trazer novos ingredientes às disputas dinásticas.

Henrique VI assume ao trono com 16 anos e procura uma solução diplomática para a Guerra na França. Esta posição vai enfraquece-lo politicamente e atrair a inimizade do duque Ricardo, de York, comandante de tropas na França e defensor da continuidade da guerra. Henrique VI afasta Ricardo de York do seu comando e o afasta da corte.

As derrotas na França enfraqueciam os aliados do rei. Havia suspeita de que a rainha Margarida, de Anjou, o traia com o Conde de Somerset e o filho do rei com ela era um bastardo. Rebeliões contra a alta de impostos para financiar a guerra na França e a falta de liderança do rei, aumentaram ainda mais as tensões políticas. Ricardo, de York, liderava abertamente oposição ao Rei.

Em 17 de julho de 1453, as forças inglesas no sul da França sofreram uma grande derrota  em Castillon. A Inglaterra perdeu todas as suas possessões na França, exceto a Pale de Calais. Tal fato alterou o equilíbrio de poder na Europa e encerrou a Guerra dos Cem Anos.

Diante de tanta pressão Henrique VI teve um colapso mental. Richard, de York, se aproveita da situação e consegue ser nomeado Lord Protetor. No entanto, pouco tempo depois, a melhora (surpreendente) do rei, leva Ricardo, de York, para o exílio e aprisão de vários de seus apoiadores.

Do exílio, Ricardo, de York, lidera uma rebelião e consegue capturar o rei. O parlamento nomeia Ricardo, de York, Lord Protetor, novamente. No entanto, Henrique VI recupera seus poderes, dispensa Ricardo, de York, e tenta um acordo para conciliar as facções políticas. Sem muito sucesso, pois as conspirações continuavam até explodirem em violência entre tropas leais rei e às de York, com os Lancaster levando vantagem.

Em 16 de dezembro de 1460, ocorre a batalha de Worsop, os York são derrotados. Em 30 de dezembro,  ocorre a Batalha de Wake field quando Ricardo, de York, e vários de seus partidários morrem.

Eduardo, filho sobevivente de Ricardo , de York, continuou a rebelião e derrotou as forças de Lancaster na Batalha de Mortimer Cross. Na oportunidade, Eduardo, de York, executou vários adversários e após outras importantes vitórias, como na mais sangrenta batallha da guerra a de Towton (29/3/1461), foi coroado rei Eduardo IV (1461-1483).

Eduardo IV (1461-1483) procurou fazer uma pacificação nacional, perdoando vários membros dos Lancaster e promovendo a conciliação nacional. No entando, com o apoio da França e da Escócia, as forças de Lancaster promoveram rebeliões e atacaram castelos e tropas de York. Finalmente, Eduardo IV capturou e prendeu o deposto rei Henrique VI, na Torre de Londres, depois de derrotar as forças de Lancaster. O clima de insatisfação e revolta permanecia no país, levando a repressão violenta por parte das tropas reais (de York) com a execução dos inimigos, banimentos e confisco de propriedades.

Após uma rebelião apoiada por tropas francesas, as forças de Lancaster conseguiram derrotar Eduardo IV e recolocar Henrique VI no trono. Eduardo VI foge para Flandres onde reuniu um exército e contra-atacou, derrotando as forças de Lancaster. Ao retomar o trono, Eduardo Vi prendeu, de novo, Henrique VI. Como verificamos, estabeleceu-se um padrão: traições, batalhas sangrentas, execuções, banimentos e confiscos, eliminação da oposição. Várias batalhas se seguiram, com York tentando assegurar o controle do reino. Em 21 de maio de 1471, Eduardo IV, provavelmente, mandou executar o rei  deposto Henrique VI.

Apesar das derrotas dos exércitos de Lancaster nas batalhas decisivas de Barnet e Tewkesbury, o clima de instabilidade política, intrigas e traições continuava. Depois de todos esses eventos e do clima político Eduardo IV conseguiu governar até 1483, sem grandes problemas.

Antes de morrer Eduardo IV nomeou o seu irmão, Ricardo, Duque de Gloucester, Lorde Protetor e Regente durante a minoridade de seu filho…Eduardo (herdeiro presumido). O rei não contava com a ambição do Duque…Ricardo, de Gloucester, que “alojou” seu sobrinho Eduardo e seu irmão mais novo Ricardo de Shrewsbury, duque de York, na Torre de Londres e prendeu alguns nobres leais a viúva do falecido rei, a rainha Elizabeth.

Ricardo, de Gloucester, atuando como Lorde Protetor e Regente, atrasou a coroação de Eduardo e equanto isso começou a assassinar os apoiadores da rainha Elizabeth e de seus filhos.  Por intermédio de um artifico, Ricardo conseguiu que os jovens príncipes fossem considerados ilegítimos e foi coroado rei em 6 de julho de 1483, como Ricardo III, o rei vilão de Shakespeare, que reinaria até 1485.

Em 1483, os príncipes desapareceram da Torre de Londres, provavelmente, foram assassinados a mando de Ricardo III. Tal fato gerou revolta entre a nobreza e começaram aparecer reivindicações ao trono como a de Henrique Tudor, tataraneto de Eduardo III. Uma conspiração contra o rei reunindo a viúva de Eduardo IV e nobres insatisfeitos com as atitudes e desmandos de Ricardo III. Nada muito diferente do que tinha sido feito até então….mas a conspiração liderada por Henrique, de  Stafford, Duque de Buckinghan foi importante e perigosa. No entanto, Ricardo III a derrotou facilmente a rebelião e o duque foi capturado, condenado por traição e executado em Salisbury em 2 de novembro de 1483.

Ricardo III, provavelmente, também mandou executar sua esposa Anne Neville, para casar com sua sobrinha Elizabeth, de York, e se consolidar politicamente. Enquanto isso, Henrique Tudor estava recebendo apoios de nobres insatisfeitos e do rei da França para uma rebelião contra o rei inglês.

Em 22 de agosto de 1484, apesar da superioridade númerica das tropas de York, Henrique Tudor derrotou Ricardo III, na Batalha de Bosworth Field, que morre durante o combate.

Em 30 de outubro de 1485, Henrique VII, é coroado rei, inaugurando a Dinastia Tudor, e encerrando um dos capítulos mais sangrentos da História da Inglaterra

As principais batalhas

Em que pese terem sido realizadas várias batalhas, em trinta anos de guerra, apenas sete delas podem ser consideradas importantes e decisivas: 1ª Batalha de Santo Albano (1455), Batalhas de Northampton e Wakefield (1460), Batalha de Towton (1461), Batalha de Barnet (1471), Batalha de Tewkesbury (1471) e Batalha de Bosworth Field (1485).

A guerra, a conduta da guerra e suas transformações

Em boa parte do Período Medieval. as fortificações forneciam um poderoso bastião de defesa para uma população regional se proteger de ataques e da pilhagem em grande escala que caracterizou grupos como os vikings ou mongóis. Neste sentido, os castelos evoluíram como um ponto central de controle e proteção para as elites locais exercerem sua autoridade sobre uma determinada área. As fortificações também anularam a arma dominante do campo de batalha medieval: a cavalaria pesada. As batalhas campais eram raras, quando em comparação com o período clássico. Por que? provavelmente devido a reduzida capacidade logística e os altos custos (cavalos, armaduras, treinamento etc). Quando ocorriam as batalhas, normalmente, era decisivas, mas esse não era o padrão, pois em grande batalhas as possibilidades de destruição dos exércitos como força de combate, dos campos e a morte da liderança desestimulavam as batalhas campais. Outro ponto ainda que existissem mercenários, seu custo era elevado, então a maior parte dos combatentes eram camponeses, muitas das vezes sem nenhum treinamento, e nobres.

Rei Ricardo III na Batalha de Bosworth, diferente da peça de Shakespeare, o rei lutou até ser morto no campo de batalha. https://br.pinterest.com/pin/321163017185902265/

A Guerra das Rosas colocou em evidência uma série de particularidades inglesas:

– Como no continente, a nobreza tinha muito a perder com um conflito prolongado, as destruições poderiam arruinar castelos, os campos e provocar uma redução na mão-de-obra. No entanto, os ingleses preferiram as batalhas campais de forma a resolver a questão de forma rápida e decisiva;

– Devido a grande diferença de custos entre armar um cavaleiro e um infante ou arqueiro, os ingleses usavam seus recursos na cavalaria leve, infantaria pesada (lanças, escudos e espada, normamelnte, nobres), infantaria leve (lanças, alabardas, machados, bestas entre outras armas) e arqueiros em formações conjugadas. Um ponto interessante: os ingleses usavam e abusavam de grandes formações de arqueiros;

–  Os canhões de mão e arcabuzes tiveram o uso bem limitado, igualmente a artilharia de campanha. Os canhões eram caros, pesados e difíceis de manobrar, sua captura era um grande prêmio, por isso os comandante evitavam expô-los e, basicamente, o usavam contra cidades;

– As armaduras deste período se beneficiaram das melhorias tecnológicas da metalurgia (invenção do alto-forno) que permitiu o uso de armaduras mais leves (em média pesando 15 kg), conjugadas com cotas de malha. Este conjunto dava uma boa proteção ao combatente. Isso era uma vantagem, pois os nobres ingleses preferiam combater a pé.

– A Guerra dos Cem Anos, recrutou e utilizou, durante longos períodos, uma massa de soldados profissionais (cavaleiros, besteiros, arqueiros entre outros). Esses indivíduos passaram anos na França, vivendo da guerra. O fim  da Guerra dos Cem Anos disponibilizou um grande número de profissionais experientes, agora desempregados, para a guerra dinástica. Nobres ricos, associados ou não a burguesia, contrataram efetivos, de tamanho e eficiência variada para comporem seus exércitos e desafiar a autoridade real.

– Nos último anos da Guerra das Duas Rosas, o Rei começou a utilizar um sistema de contratação de soldados profissionais, em que o rei ou um nobre firmava um contrato com um capitão, em que este tinha obrigação de fornecer-lhe uma determinada quantia de homens, com tais especialidades (cavaleiros, arqueiros, artilheiros, arcabuzeiros, infantes etc etc), por um determinado período. Estas sistema de contratações, era muito semelhante ao utilizado no continente. Com algumas mudanças e variações, este sistema seria utilizado até o fim do Período Moderno.

Quer saber mais sobre a Idade Moderna, leia o artigo sobre a Invasão Holandesa no Brasil, Guerra dos Trinta AnosA Guerra da Orelha de Jenkins (1739-1748)A Batalha de Cartagena das Índias (1741)  e os posts sobre Falklands/Malvinas: Origem do ConflitoRaid on the Medway (2ª Guerra Anglo-Holandesa – 1667)Robert Blake, você pode navegar por este link, no nome do texto ou pelas categorias do site.

Bibliografia

DOUGHERTY, Martin J. A Guerra das rosas. A história que inspirou Game of Thrones. São Paulo: M. Books, 2015.

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SADLER, John. The Red Rose and White. The wars of The Rose 1453-1487. New York: Routledge, 2013.

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Os ingleses gostam de ler sobre esse período, assim indicamos duas obras: o romance de Conn Iggulden, em 4 volumes, da Guerra das Duas Rosas.

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E uma série que a BBC 1/Startz lançou, em 2013, chamada The White Queen, baseado no romance de Philippa Gregory chamado “The Women of the Cousins’ War (The White Queen, The Red Queen, e The Kingmaker’s Daughter)”.  

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A Batalha de Bosworth Field está disponível no Youtube no link: https://www.youtube.com/watch?v=OI_JgNyqdOQ

Sites consultados:

https://warfarehistorynetwork.com/2019/01/23/the-wars-of-the-roses-the-weapons-that-defined-the-english-civil-wars/

https://historycollection.com/7-key-battles-war-roses/

http://british-history.co.uk/medieval/war-of-the-roses/bosworth-1485

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